15 de agosto de 2015 | Fala Mais | Texto: | Ilustração: Laura Athayde
Fala mais… da crise na Grécia

 

 

De uns tempos pra cá, você certamente deve ter ouvido que a Grécia não anda lá muito bem das pernas. Mas, como boa parte de todo mundo que sabe que a Grécia não anda lá muito bem das pernas, não deve saber exatamente o que anda acontecendo – afinal, além do fato de que envolve (muito) dinheiro, as coisas por lá podem ser bem complicadas de se entender.

Quanto o país deve? Tem salvação? O Syriza vai tirar a Grécia da União Europeia? O Syriza vai acabar com o euro? Quem diabos é esse tal de Syriza? Sobre o que é que a galera de lá anda votando “sim” ou “não”? E Zeus nisso tudo, não tem uma chancezinha de intervenção divina? Calma! Nós sabemos que muitas vezes parece que estão falando grego – kkkkkk – sobre o assunto, então no Fala Mais desse mês, a Capitolina preparou um guia explicando o Alfa-Beta-Gama da crise grega. Prometemos que todas as piadas ridículas já foram devidamente utilizadas nesses parágrafos introdutórios e, daqui pra frente, é só aprendizado mesmo:

De onde veio tudo isso?

A história complicada da Grécia com sua própria economia já vem de longe: o endividamento vem de gastos além da conta desde antes da entrada do país na zona do euro, em 2001, e tem até as Olimpíadas de 2004 como uma de suas causas – além da má administração pública, da volumosa sonegação de impostos e da ingenuidade com que o país lida com as intenções dos bancos estrangeiros.

O país começou a perceber que a coisa estava feia com a crise financeira mundial de 2008, em que os bancos, fragilizados, passaram a ficar meio impacientes com o dinheiro que não voltava. A data tida como a mais oficial para a crise que se desenrola atualmente é do ano de 2010, quando o país recebeu seu primeiro pacote de austeridade – uma graninha pra ajudar a sanar as dívidas, mas que é tipo vender a alma ao diabo – do Fundo Monetário Internacional, o temido FMI.

Como tá a paisagem por lá recentemente?

Nem de perto tão bonita quanto a Mikonos que a gente vê em Mamma Mia. A taxa de desemprego fica em torno de 25% da população geral, e chega a 50% quando falamos de jovens entre 15 e 25 anos. Por lá, fala-se, inclusive, em uma geração perdida: a parcela da população que vive a adolescência e os primeiros anos da vida adulta ao longo da crise se viu forçada a abandonar os estudos para ajudar nos ganhos familiares, mas, ao mesmo tempo, não consegue emprego, ficando num limbo profissional e social.

Além disso, o país conta com índices sociais críticos. Dos cerca de 10 milhões de habitantes do país, aproximadamente 800 mil não contam com acesso a serviços de saúde e cerca de 20% da população se encontra em situação de privação grave – ou seja, vivendo em residências em que não se pode arcar com pelo menos quatro itens de uma lista de nove considerados básicos.

Não é de se admirar, então, que a saúde mental dos gregos ande igualmente crítica. O consumo de drogas pesadas, como crack e sisa, vem aumentando vertiginosamente, estima-se que cerca de 8% da população sofra de depressão e o índice de suicídios teve um aumento de 35% só nos primeiros três anos de cortes.

Para piorar tudo, grupos de extrema direita, como o Aurora Dourada, ganharam força com a situação interna precária, e a violência contra imigrantes tornou-se uma espécie de válvula de escape para muitos dos que estão infelizes com a falta de perspectivas do país.

Quanto e a quem a Grécia deve?

Deve pacas e pra muita gente. São aproximadamente 320 bilhões de euros – apenas 170% do PIB do país -, divididos entre bancos e países europeus diversos. Acha engraçado a Angela Merkel aparecer tanto pelas notícias sobre a crise grega? É justamente porque a Alemanha é o maior dos credores, com cerca de 52 bilhões de euros esperando o retorno pra casa.

O que diabos é austeridade?

Basicamente, é uma apertada nos cintos, aquela enxugadinha nos gastos supérfluos pra equilibrar as finanças, sabe? O problema é que, quando você é um país, uma enxugadinha não é só não comprar um chocolate no fim da aula ou andar uma parte do caminho a pé pra não gastar com ônibus – os cortes vão facilmente pros vários bilhões.

E de onde sai tudo isso? Normalmente, da parte que mais dói na população: os direitos sociais. O governo grego reduziu salários de servidores públicos e aposentadorias, fechou órgãos estatais, privatizou e precarizou muita coisa e, de quebra, ainda aumentou impostos. E a cada nova negociação da dívida e de pacotes de ajuda, o país se propõe a mais cortes para agradar os credores, que querem garantir que terão seu dinheiro de volta.

Quenhe vc, Syriza?

Fundado em 2004, trata-se de um partido de esquerda grego, cujo nominho esquisito significa algo como “radicalmente” ou “às raízes”. Nas últimas eleições, com Alexis Tsipras à frente, o Syriza, que até então era um grupo meio fraquinho, apareceu como alternativa às políticas neoliberais que vigoraram até então no país, com uma proposta de governo contrária à austeridade e menos subserviente aos interesses estrangeiros. Quem esperava um partido de extrema-esquerda no comando, porém, sofreu algumas decepções…

Sim? Não? O quê?

Um dos primeiros grandes atos do recente governo de Tsipras foi convocar, no dia 5 de julho, um referendo que perguntava à população se aceitava ou não os cortes propostos pelos credores para um novo pacote de ajuda financeira. O oxi, “não” em grego, venceu, mostrando que os gregos andam bem cansados de tanta austeridade que parece nunca acabar.

O que aconteceu, porém, passou bem longe do caos esperado: não houve uma nova república comunista, a Grécia não deixou a zona do euro e não houve uma quebra na União Europeia. Para dizer a verdade, o não tomou um chapéu: Tsipras entrou em um acordo com os credores, pagou uma parcela da dívida com o FMI, demitiu Yanis Varoufakis, o ministro da finanças mais radical, e topou uma nova leva de austeridade, com privatizações de aeroportos, portos e operadoras elétricas, além de aumentos tributários e mais cortes de gastos públicos. Para onde a Grécia vai daqui pra frente? Teremos que esperar os próximos capítulos dessa novela que tem cara de que será mais longa que EastEnders pra ver.

E aí, valeu por um mestrado à distância em economia grega? Ainda restam muitas dúvidas sobre o assunto? Perguntas e complementos são mais que bem-vindos nos comentários, e a gente também preparou um apanhando de links legais aqui abaixo pra você aprofundar a pesquisa, se ainda sobrou curiosidade:

Quatro anos da crise grega em 40 fotos – Vice UK

7 maneiras em que meu país moderno se tornou uma distopia da noite para o dia – Cracked

Em números: Como a crise piorou a vida dos gregos – BBC

Quem emprestou dinheiro à Grécia? – Demonocracy.info

Grécia: a luta continua – Jacobin

Austeridade à brasileira – Passa Palavra

Sobre o Syriza e a sua vitória nas eleições gerais da Grécia – Passa Palavra

 

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • Thereza

    a autora poderia fazer um pouco mais de pesquisa ao se falar de um assunto tao serio quanto a crise grega e nao apenas repetir o mantra “o pais gastou demais e foi ingenuo”

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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