15 de julho de 2015 | Fala Mais | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Fala mais… sobre #blacklivesmatter

Se você está lendo esse texto, você provavelmente usa a internet com a alguma frequência. E se você usa a internet com alguma frequência, provavelmente acompanhou o caso de Ferguson nos Estados Unidos. E depois os tantos outros, toda a discussão que surgiu em torno de Charleston. Como a Beyoncé e o Jay-Z pagaram do próprio bolso fiança de protestantes. Como Baltimore veio abaixo.

Nossa, são tantos casos, tantas notícias pipocando, tantas ações e reações…fica difícil fazer sentido desse todo. Mas é para isso que estou aqui, mandar um pouco coé a dessa história de #blacklivesmatter (e a reação a isso), por que diabos isso importa e o que isso tem a ver com o Brasil.

Em primeiro lugar, vamos dar nomes aos bois.

Nos Estados Unidos, como no Brasil, ainda existe muito preconceito, remanescente de questões mal resolvidas no movimento de direitos civis dos anos 60. Sabia que, mesmo depois da abolição da escravidão, por lá os negros tinham seus direitos civis restritos em muito estados? Pois é – no sul do país, região notoriamente mais conservadora, chegava ao ponto de existir bebedores, escolas, assentos em transporte públicos e várias outras coisas separadas entre negros e brancos, numa clara lógica de segregação racial.

Essas distinções foram teoricamente abolidas, conquista do movimento de liberdades civis dos anos 60 – você deve bem conhecer a história dos Black Panthers e do Martin Luther King. Mas, como dá para imaginar, o preconceito não acabou de um dia para outro. Deixaram de ter sistemas de ensino separados, mas os gargalos sociais no acesso às melhores escolas da rede pública, entre outros serviços de atenção básica continuaram reproduzindo antigos padrões de exclusão de minorias.

Isso acontece porque estruturas sociais muitas vezes reproduzem preconceitos arraigados em nossas mentes – que geram exclusões, mesmo que não intencionalmente inscritas em lei, mas que resultam dessas práticas preconceituosas. Um exemplo disso, que desembocou no movimento #blacklivesmatter são as práticas policiais de revista em ronda.

Não existe mais formalmente uma lei que diferencie o tratamento dado a brancos e a negros nos Estados Unidos, mas muitas vezes ela acaba se manifestando na prática – quando policiais são confrontados com dois transeuntes na rua, escolhem revistar o pedestre negro, deixando o branco passar. É uma reprodução de um padrão de expectativas sociais. Por mais que os números mostrem que a maioria dos crimes em determinada região sejam cometidos por pessoas de determinada etnia, nada, no limite, garante que aquela pessoa que pertence àquela etnia esteja cometendo um crime. Informações sobre perfil de pessoas que cometeram crimes não podem ser tidos como informações para projetar probabilidades. E nada – nem o fato de alguém de fato estar praticando algum ato suspeito, legitima abuso de poder dos policiais.

Pois foi exatamente o que aconteceu nos casos acima (menos Charleston, caso que não envolveu policiais, apesar de ter envolvido preconceito racial). Jovens negros foram vitimados pelo simples fato de serem jovens homens negros. Isso acontece há muito tempo, só que Ferguson foi, por algum motivo, a gota d’água que fez transbordar a represa. E ali começou todo um debate, incrementado por cada novo episódio.

Aproveitando o momentum de questionamentos sobre preconceito institucional e estrutural, o debate também enveredou pelo lado do questionamento acerca das funções da polícia, sobre abuso de poder, sobre o direito do policial de matar cidadãos – a execução extra-judicial. Também se discute o uso de tecnologias para coibir o abuso de autoridade e do uso da força. É discussão que rende a beça.

Mas e o que isso tudo tem a ver conosco aqui no Brasil? Pois bem, você pode não saber, mas somos campões mundiais em homicídios. Em 2012, foram mortos no Brasil 56 mil pessoas – mais da metade delas homens, jovens e negros. Você lembra do caso dos policiais comemorando na viatura, depois que mataram dois meninos – negros? E o jovem que foi linchado no Maranhão semana passada? Também negro. Não é apenas uma questão de constituição racial de nossa população – é uma tendência recente. Segundo o mapa da violência, a vitimização de jovens negros aumentou 30% em números absolutos de 1980 para cá – número desproporcional ao encolhimento desse grupo demográfico no mesmo período.

Podemos falar por aqui em genocídio da juventude negra – tanto podemos que existe um plano oficial do governo criado justamente para proteger esse grupo de pessoas, o Plano Juventude Viva. Mas pouco conhecemos dele e pouco falamos sobre essa questão, para além dos núcleos de debate do movimento negro e de políticas para a juventude.

Também acontecem no Congresso CPI – as famosas Comissões Parlamentares de Inquérito – para discutir essa questão. Só que o debate anda esvaziado – até porque ele ocorre em paralelo ao debate da redução da maioridade penal. Parece esquizofrênico (e é mesmo) que em um canto do mesmo prédio se discute a necessidade de acabar com os padrões de vitimização da juventude negra no país com mais iniciativas culturais, de educação e oportunidades de trabalho e, no outro, se fala na necessidade de colocar esse mesmo jovem (a maioria das pessoas hoje presas no Brasil são também jovens, homens e negras) nas nossas “masmorras medievais,” também conhecidas como cadeias.

Achou estranho tudo isso? Ficou curiosa? Dá uma pesquisada também. Experimente ver o que aparece no google se você digita “autos de resistência” ou “país campeão em execuções extra-judiciais” ou ainda “vitimização de policiais” (porque os policiais, muitos deles igualmente jovens, homens e negros, são mortos também a rodo por aqui). Pergunte pros seus amigos porque eles acham que isso acontece, porque um conhecido negro (ou você mesmo/a) seu recebe tantos olhares desconfiados na rua, enquanto seu amigo branquelo passa desapercebido por medrosos e policias. Só mesmo levantando essas questões para dar início ao debate – e já está mais do que na hora de também termos por aqui termos nosso movimento #vidasnegrasimportam. Porque elas importam. E chega de matança.

Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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