15 de março de 2015 | Fala Mais | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
Fala mais… sobre a crise hídrica?

O que é o “Fala mais”?

Eu demorei muito tempo pra saber que não saber algo é ok e é o primeiro passo pra gente ficar sabendo. Mas, até esse dia, sempre que alguém me perguntava “sabe aquele filme do diretor x?” eu podia não fazer a menor ideia, mas achava que pegava mal assumir isso, então falava “sei sim”, e segue conversa sem eu saber mesmo. So que não era só com diretor(a) de cinema. Era com conflitos políticos, problemas ecológicos, países que não conhecia etc.

Aí eu chegava em casa depois da tal conversa e saía na internet catando tudo pra ver se aprendia um pouco daquilo que ja tinha dito que sabia. Mas muitas vezes as informações na internet não estão assim tão colocadas pra gente. Às vezes você quer entender, por exemplo, a crise hídrica no sudeste do Brasil, ai você vai atrás dos artigos, lê o jornal, mas tem nomes, partidos, empresas e outras coisas misteriosas que dificultam o entendimento. O famoso “pegar o bonde andando”.

Essa nova sessão da Capitolina é pra te dizer que você não precisa saber de tudo. Se alguém sabe sobre aquele assunto, pergunta, questiona. Aqui a gente vai tentar mostrar um pouco as causas, consequências e ideias sendo pensadas e debatidas em fenômenos do mundo dos mais diversos. Os textos do “Fala mais” vão sair todo dia 15. Se você tem algo que quer saber, fala nos comentários pra gente! Hoje a Natália Lobo fala de crise hídrica no sudeste.

(Introdução da Brena O’Dwyer, coordenadora do “Fala mais”)

Fala mais… sobre a crise hídrica?

Se você mora no Brasil e não vive dentro de uma bola de hamster sem contato com o mundo externo, você já ouviu por aí que São Paulo tá sem água. Isso aparece todo dia no jornal da televisão, e quase sempre o nível – ridiculamente baixo – de abastecimento do sistema Cantareira aparece lá, seguido de uma visita de um repórter à casa de algum cidadão de bem, que tá varrendo a calçada ao invés de lavá-la com a mangueira, e fechando a torneira enquanto escova o dente. E eu não estou dizendo que a preocupação dessas pessoas em tomar essas atitudes não tem fundamento, e que você pode tomar banhos de duas horas e colocar um chafariz no quintal da sua casa, mas sim que é o buraco é beeeem mais embaixo.

Primeiro de tudo, a gente tem que entender que sim, a água está acabando. Não é que tem uma solução muito simples e óbvia, que daqui a pouco vai chover e tudo vai voltar ao normal, que algum super ambientalista vai inventar uma solução do dia para a noite. No final de fevereiro e inicio de março, começaram a anunciar que o nível de água do Sistema Cantareira subiu um pouco com as chuvas fortes que ocorreram, mas essa água está servindo pra cobrir o que foi retirado do segundo volume morto da represa, então é como se estivesse entrando um pouco de dinheiro na conta de alguém que está com MUITA dívidas. Esse problema já está mudando a vida de muita gente. Eu mesma moro na região metropolitana de São Paulo, em um bairro periférico – onde o racionamento é sempre mais severo – e já cheguei a ficar 5 dias seguidos sem uma gota de água na torneira. Se a minha casa não tivesse caixa d’água, assim como a casa de muitos dos meus vizinhos, eu teria ficado esse tempo todo sem possibilidade nenhuma de água. Então eu acho que a gente pode considerar essa questão como sendo muito séria e urgente.

As duas perguntas que a gente precisa fazer são: “quem consome toda essa água?” e “isso não poderia ter sido evitado?”.

Pra responder a primeira pergunta: estatísticas!

Segundo a ONU, 70% da água do Brasil é utilizada pelo agronegócio, 12% pela indústria e pela mineração e só 4% vai para o consumo direto.

É sempre bom lembrar que agronegócio não é a mesma coisa que agricultura familiar. O agronegócio produz bens que, na maior parte das vezes, são exportados, ou seja, nem ficam no Brasil. E mesmo a parte da produção do agronegócio que fica aqui não é destinada principalmente para a alimentação. São produtos que, em sua maioria, vão virar papel, ração animal, combustível, e por aí vai. Quem de fato produz nossos alimentos (mais de 70% do que a gente come) é a agricultura familiar, que quase não faz uso de irrigação extensiva, e portanto não consome tanta água.

“Mas o sistema Cantareira fica em uma área urbana, ele não é utilizado pelo agronegócio”

É verdade! Quando a gente pensa em água, temos que pensar em bacias hidrográficas. O Sistema Cantareira é formado por bacias, e a água dessas bacias tem destino certo, sendo que, no caso, o destino é estritamente para a área urbana.

Mas por mais que o agronegócio não consuma diretamente essa água, ele é um dos causadores da falta de chuva no Sistema, que é um catalisador do processo da falta d’água.


Fonte da imagem: A Conta D’água
Esses rios aéreos que aparecem na imagem são formados pelo vapor do oceano atlântico e, em boa parte, pela transpiração das árvores da floresta. Quando o agronegócio entra desmatando floresta adentro (processo que a gente chama de “expansão das fronteiras agrícolas”), essa transpiração diminui muito, e os rios aéreos diminuem consideravelmente de volume, o que diminui a chuva do sudeste.

Agora, a principal causa da falta d’água não é a falta da chuva, então, apesar de o agronegócio atrapalhar sim tudo isso, com outras medidas a gente não estaria em uma situação tão alarmante. Aí, nós entramos naquela segunda pergunta que eu coloquei la em cima: isso não poderia ter sido evitado? E a resposta é: sim, poderia. E quem tinha que ter feito isso é o governo estadual (e-s-t-a-d-u-a-l, viu? Não municipal nem federal).

“E o que o governo estadual poderia ter feito?”

A crise passa por muitos fatores. Não tem nenhuma razão X que, isolada, causou o que estamos vendo hoje. Alguns dos fatores que, quando somados, causaram essa situação são: a abertura do capital da SABESP (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo) e a falta de obras de saneamento.

Essa abertura de capital aconteceu em 2003 e, basicamente, fez com que o dinheiro da empresa não fique só nas mãos do Governo do Estado, mas também nas mãos de acionistas (pessoas que detém parte do capital de uma determinada empresa). Os acionistas não estão exatamente preocupados com o trabalho que a SABESP está fazendo nas cidades. Não é de interesse deles, por exemplo, fazer obras na periferia, que demandam muitos recursos, por serem áreas isoladas, e vão atender gente sem dinheiro; o objetivo deles é lucrar. Mas isso é quase um crime quando o lucro vem de um serviço que é vital para a população, que é questão de sobrevivência, de saúde pública e de dignidade humana.

Já as obras que poderiam ter sido feitas, são muitas: tem o problema no vazamento na tubulação -onde se chega a perder 45% da agua do sistema antes de chegar nas residências; também era necessário que se fizesse coleta da água da chuva e que ela fosse limpa e reutilizada, e não se misturasse com esgoto; também seria necessário despoluir os rios que hoje estão imundos, e aí poderíamos usar a água deles também. Tudo isso, e mais outras muitas medidas, tinham que ter começado a ter sido feitas há anos.

As medidas de reflorestamento e de proteção de rios e nascentes também são fundamentais, mas nunca foram levadas a sério em São Paulo, o que só se agravou com a aprovação do Novo Código Florestal, em 2012.

“E o que a gente pode fazer?”

Como a gente viu, o problema é muito grave e não tem uma solução imediata. O MTST (Movimento dos Trabalhadores sem Teto) já chamou manifestações em São Paulo, junto com outros movimentos sociais. As reivindicações são: que o governo estadual seja transparente quanto ao racionamento (ou seja, que o racionamento seja de fato decretado, já que o governo estadual não toma medidas porque ignora que elas sejam necessárias), que sejam tomadas medidas emergenciais para que o problema seja gerido da melhor forma possível, e que acabem os privilégios para empreendimentos que consomem muita água, como alguns shoppings que gastam muito e pagam uma tarifa mínima comparada com a tarifa que a população paga. Também a distribuição de caixas d’água para famílias de baixa renda, e abertura de poços artesianos e de cisternas, principalmente na periferia.

Nesse momento, a melhor coisa que podemos fazer é somar nestes movimentos que pressionam o governo estadual, e ajudar a viralizar o conteúdo independente que é produzido sobre isso, como o do site A Conta da Água, já que a imprensa não veicula informações corretas e protege os verdadeiros culpados do que está acontecendo.

Uma proposta de racionamento que o governo fez foi a de deixar a população 5 dias sem água e 2 dias com água, e assim sucessivamente. Alguns biólogos já alertaram que a qualidade dessa água que receberíamos caso este sistema fosse implantado seria baixíssima, pois uma água represada e parada dentro da tubulação por tantos dias se torna imprópria para consumo. Além desse problema, as pessoas que não têm caixa d’água ficariam 5 dias sem uma gota de água na torneira. O que quer dizer 5 dias sem poder fazer comida decentemente, 5 dias sem poder dar descarga, 5 dias acumulando roupa suja, 5 dias se limpar direito. Essas pessoas geralmente são moradoras de áreas periféricas e pobres, ou seja, também não podem chamar um caminhão pipa nesse meio tempo, que chega a custar 400 reais. Por isso é tão importante que o governo tome essas medidas emergenciais, que vão permitir que estas pessoas passem por essa situação de uma forma minimamente digna e estável.

+ INFORMAÇÕES
A Conta D’água: Facebook e site
Documentário: “Entre Rios” – A Urbanização de São Paulo
E se a água deixar de ser mercadoria?
Água: as mineradoras têm (muita sede)
Milhares de pessoas se mobilizam contra a falta de água em São Paulo

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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