18 de setembro de 2015 | Fala Mais | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Fala mais… sobre imigrantes e refugiados

Durante as últimas semanas, foi difícil andar pela internet sem esbarrar em alguma coisa sobre os grandes fluxos migratórios que têm chegado à Europa. Infelizmente, as notícias que ganharam a atenção de todo mundo não foram das mais bacanas, e a cinegrafista húngara flagrada chutando refugiados que chegavam ao país e os corpos boiando no Mediterrâneo foram as principais imagens sobre o assunto.

Mas por que tem tanta gente buscando refúgio em outros países? E por que tem tanta gente odiando quem chega? E será que também tem quem dê as boas-vindas? Sabemos que são muitas perguntas, então, no Fala Mais desse mês, preparamos um resumão de tudo o que tá acontecendo para te ajudar a entender.

 

O que diferencia um imigrante de um refugiado?

Imigrante é, de forma simples, o nome que se dá àquele que sai de seu país para morar em outro. E isso pode acontecer pelos mais diversos motivos: tem quem vá para procurar trabalho, para estudar ou até mesmo só para mudar de ares. E existem muitas nuances de classe e origem no meio de tudo isso: esse texto bem bacana do Guardian (em inglês, infelizmente) fala, por exemplo, sobre como o termo “imigrante” costuma ser aplicado para aqueles saídos de países periféricos, sempre carregado de uma aura que varia entre o “coitadinho” e o “sanguessuga de países ricos”, enquanto o “expat” (um apelidinho para “expatriado”) é usado para o europeu de classe média (ou alta) que resolveu sair por aí dando rolê.

Mas e o refugiado, quem é? Em 1951, a convenção da ONU que tratou do assunto definiu como tal aquele que “temendo ser perseguido por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país”. Ou seja, a grosso modo, refugiado é aquele que imigra por correr perigo em seu país de origem.

 

É fácil conseguir asilo?

Apesar de parecer simples, conseguir o status de refugiado não é tarefa fácil. Quem sai de seu país porque corria perigo normalmente já enfrentou uma bela barra até chegar a essa primeira fronteira, e ainda precisa lidar com vários outros obstáculos no caminho, como atravessadores ilegais e policiamento corrupto e violento, até chegar ao país de destino. A obra The Mapping Journey, da artista Bouchra Khalili, ilustra muito bem a coisa com vídeos de migrantes traçando em mapas suas rotas enquanto contam sobre trajetos que chegam a durar doze anos, entre prisões, trabalhos escravos e travessias oceânicas arriscadas, mostrando que ir de um país a outro não é nada fácil.

Então, ao chegar ao país de destino, o migrante encontra outros longos caminhos a percorrer: conceder ou não o status de refugiado fica a critério do país de entrada, e o recém-chegado se encontra, normalmente, numa tortuosa jornada para convencer seu anfitrião, muitas vezes sem sequer falar a língua local, de que não é apenas um imigrante ilegal, e sim alguém que fugiu para salvar a própria vida. Não convenceu? A deportação para o mesmo país perigoso de onde o migrante saiu – é o mais comum.

 

Atualmente, quais são as principais ondas migratórias em busca de asilo? E o que tem causado tudo isso?

O que tem gerado esse boom de notícias sobre o assunto é, principalmente, a migração de sírios. A Síria vive um momento de conflitos internos diversos e violentíssimos, que envolvem o temido Estado Islâmico, as forças oficiais do ditador Bashar Al-Assad e frentes menores igualmente sanguinárias, como a Al Nusra situação em que, como diria muito bem um amigo, se jogar todo mundo num Juicer, não sai meio copo de coisa que presta , além dos exércitos de resistência curdos que, por outro lado, renderiam vários copos de coisa que presta. A solução para muitos dos habitantes, então, tem sido procurar asilo em outros países, principalmente dentro da Europa e, de forma ainda mais específica, a Alemanha.

A crise migratória que atinge a Europa, porém, não é nem um pouco recente, e já são anos de barcos com imigrantes afundando até que a coisa tenha chegado ao ponto atual. O continente, maior colonizador dos últimos séculos, retalhou inúmeros países, em especial na África, durante seu caminho de enriquecimento, deixando guerras civis e subdesenvolvimento por onde passou, gerando assim os cenários ideiais para a necessidade de partida para outros países, mas ainda mantém políticas bastante restritivas de entrada de imigrantes.

Como as populações locais têm reagido aos novos habitantes?

De formas diversas. O mundo todo tem vivido uma grande crise financeira sem fim há quase uma década, e situações político-econômicas do tipo tornam bem comum que o sentimento xenofóbico seja intensificado. Essa historinha de atribuir a culpa pelo que vai mal a quem vem de fora desempregado? A culpa é do estrangeiro que roubou sua vaga! já existe há muito tempo como forma de desviar a atenção dos verdadeiros responsáveis por qualquer crise econômica, mas ainda tem muita gente caindo nela.

Assim, a tensão xenofóbica é uma ameaça permanente em qualquer país que esteja recebendo refugiados, em alguns, como a Hungria, mais que em outros.

Por outro lado, atitudes bem bacanas e acolhedoras andam brotando por todo canto, desde as faixas de “Refugiados são bem-vindos” estendidas por diversas torcidas de futebol até cidadãos da Alemanha e Islândia topando receber refugiados em suas próprias casas para que seus governos aceitem a entrada de mais gente.

 

E como o Brasil está nisso tudo?

Apesar de estar geograficamente mais distante da principal origem de refugiados atual, a Síria, o país tem recebido um número notável de refugiados vindos de lá desde 2011, foram cerca de dois mil pedidos de asilo aceitos, o que parece pouco perto dos quase quase quarenta mil da Alemanha, mas notável se comparados aos 1200 dos Estados Unidos.

Uma experiência bem interessante de se conhecer é a Ocupação Leila Khaled, que existe no bairro da Liberdade, no centro de São Paulo, formada por refugiados sírios que, sem conseguir pagar os aluguéis exorbitantes da cidade, ocuparam um prédio comercial abandonado.

Mas os principais fluxos migratórios que chegam ao Brasil nem sempre vêm de tão longe ou contam com o status de refugiados, como é o caso de quem vem da Bolívia. São cerca de 350 mil, em estimativa divulgada pela Câmara dos Deputados, sendo que menos de 100 mil têm status legalizado. Segundo a ativista Jobana Moya, da Equipe de Base Warmis, que atende imigrantes latino-americanos, em especial mulheres, boa parte deles chegam ao Brasil em busca de melhores condições financeiras, fugindo das desigualdades sociais em seus países de origem. Porém, nem sempre o encontram: muitos se deparam com jornadas de trabalho semi-escravo, e, pela falta de legalidade (e aconselhamento para consegui-la), acabam se submetendo aos tratamentos mais abusivos. Entre quem vem da América Latina, estão os colombianos que concentram quase a totalidade dos pedidos de refúgio aceitos.

Outro campeão de chegadas em nosso país é o Haiti, com cerca de 50 mil enviados. O país passou por uma guerra civil no começo dos anos 2000 e, durante sua reconstrução, se deparou com o violento terremoto de 2010, que deixou cerca de 300 mil mortos e incontáveis desabrigados e, desde então, tem expatriado uma quantidade imensa de pessoas. Assim como os bolivianos, porém, os haitianos não recebem status de refugiados, mas contam com a promessa do governo federal de facilitar a legalização de sua situação migratória no país.

O país ainda conta com grandes números de imigrantes de diversos países da África. Alguns deles, como a Angola e a República Democrática do Congo, representam boa parte dos pedidos de refúgio aceitos pelo país, por conta de conflitos civis que se encerraram recentemente.

Falando assim, até parece que somos o paraíso das boas-vindas, né? Mas a gente também passa vergonha quando o assunto é xenofobia, principalmente no que toca os imigrantes negros, que acabam sofrendo não só por serem estrangeiros, mas também com o racismo enraizado na sociedade brasileira. Só no mês passado, seis imigrantes haitianos foram baleados em ataques na região do Glicério, que concentra casas de acolhida e boa parte de quem chega permanece em sub-empregos e segregados socialmente, mostrando que, apesar dos braços abertos na entrada, ainda existe um longo caminho a percorrer para que sejamos um país que possa se orgulhar, de verdade, de sua capacidade de acolhida.

Nosso guia acaba por aqui, mas o assunto é bem extenso e certamente ainda tem muito mais o que falar. Então, se sobrou alguma dúvida, a gente fica bem feliz em tentar responder nos comentários, e também separamos vários links bacanas para você aprofundar a pesquisa por conta própria:

Agência da ONU para Refugiados

“Sete perguntas sobre os refugiados e migrantes que estão morrendo no Mediterrâneo”

Apanhado da Vice sobre o conflito Sírio

“Refugiados árabes vivem experiência singular em São Paulo”

Haitianos no Brasil fazem webserie para combater o preconceito

Imigrantes – Especial da Reporter Brasil

Refugiados no Brasil – Levantamento de 2014

Refugiados na Ocupa

Caritas

Missão Paz

 

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

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