15 de outubro de 2015 | Ano 2, Edição #19 | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Fala mais… sobre o que seria um golpe hoje

Muita coisa está acontecendo em nosso país. Manifestações, audiências, projetos de lei, ajustes, julgamentos e por aí vai, todo dia uma notícia. Mas, muitas vezes, é necessário que olhemos para o passado para enxergar melhor o presente e, assim, entender o que funciona e o que não funciona, o que pode dar certo e o que a história já nos mostrou que dá errado – muito errado.

Recentemente, em algumas manifestações, vimos diversos cartazes e depoimentos repletos de ódio. Pedindo o fim das teorias de Paulo Freire – importante pedagogo brasileiro que pensava uma educação transformadora – nas escolas, a morte da presidenta, o estupro da presidenta, a violência contra a presidenta e a expulsão das pessoas que se alinham com o socialismo e o comunismo: “que vão para Cuba!” Todas essas maneiras de expressar a revolta são fruto da insatisfação com o governo, que é legítima, mas cometem um gravíssimo erro: são anti-democráticas. Basicamente, é como se dissessem: “quem não pensa como eu deve morrer ou sair daqui” – ou, retomando o clássico jargão da ditadura militar, “Brasil: ame-o ou deixe-o”.

A questão é que, surpreendentemente, algumas pessoas estão nas ruas hoje reivindicando a volta da ditadura, sob os falsos argumentos de que neste período o Brasil cresceu mais, o Brasil “tinha mais rumo”, e de que uma intervenção militar seria a solução para os problemas deste país. Mas pedir uma intervenção militar não significa apenas passar por cima do processo eleitoral e da decisão da maioria. Também significa, pior ainda, dar respaldo a este período tão sombrio que foi a ditadura militar em nosso país.

A ditadura militar teve início em 1964 e durou 21 anos. Nesses 21 anos, ela censurou, matou, prendeu, torturou, reprimiu, fortaleceu as desigualdades sociais (estava, claro, a favor das elites) e tentou, a todo custo, retirar do povo toda a sua voz. Muitas pessoas lutaram pela democracia neste período. Nem todas sobreviveram, mas as que ficaram contam a história da forma como realmente aconteceu, sem maquiagens e sem tentativas de transformar, por exemplo, a palavra “golpe” em “revolução”.

É verdade que existem pessoas descontentes com os rumos políticos de nosso país. Mas existem pessoas descontentes porque têm pouco e precisam de mais, e pessoas descontentes porque têm muito e acreditam que este governo dá demais aos que têm pouco. Dentre estas pessoas, algumas acreditam que o conservadorismo, a intolerância e o ódio sejam as melhores saídas para a situação política atual, e que a intervenção militar é o rumo certo para o Brasil. E qual a diferença entre intervenção militar e golpe? Na prática, nenhuma.

Faz muito pouco tempo que o Brasil se libertou do regime ditatorial e vive uma democracia são só 30 anos! Por isso, a democracia que temos é ainda muito frágil: a Polícia Militar de hoje atua com a violência dos tempos da ditadura e os crimes de tortura e assassinato realizados naquela época pelos militares, a mando do Estado, só começaram a ser apurados há 3 anos, quando se instaurou a Comissão Nacional da Verdade. Esta Comissão foi responsável pelo levantamento de muitos casos de violações de direitos humanos ocorridos entre 1946 e 1988, e teve o importante papel de não deixar essa dolorida história passar em branco. Não cabia a ela, porém, o papel de fazer valer a justiça, e os torturadores seguem, muitos deles, impunes no conforto de suas casas.

O período entre 64-85 foi terrível para o Brasil e repeti-lo agora não iria solucionar a crise política e econômica, mas sim aprofundar as desigualdades e silenciar todas as pessoas que sonham com um mundo mais livre, mais justo, mais igual. E quem diz isso não sou apenas eu, jovem que só nasceu nos anos 1990. Mais de cem presos políticos (aqueles que foram presos arbitrariamente, por lutarem e acreditarem em seus ideais) que sobreviveram à ditadura se colocam coletivamente contra qualquer novo golpe militar. Penso que nós, que somos mais jovens, precisamos ouvi-los. Ou vamos dar respaldo à voz de quem? Dos torturadores?

O Brasil precisa melhorar sim, e muito, mas não às custas das nossas vozes censuradas.

Para que não se esqueça. Para que nunca mais aconteça!

Para saber mais:

Brasil Nunca Mais Digital

Armazém Memória: um resgate coletivo da memória

Relatório Figueiredo

Comissão Nacional da Verdade

Luta, substantivo feminino: Mulheres torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura

Memórias da resistência

Memórias femininas da luta contra a ditadura militar

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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