4 de junho de 2015 | Edição #15 | Texto: | Ilustração: Bárbara Fernandes
Falar com as mãos: um breve panorama sobre língua de sinais e o sistema Braille

Hoje, uma das principais constatações sobre a vida contemporânea é o quanto ela está pautada na comunicação que, por sua vez, é viabilizada por diferentes formas de linguagem. Esta é um dos recursos socialmente construídos pelo ser humano para conferir sentido à própria realidade e se fazer presente nela. E esse senso de pertencimento ao presente torna-se possível através de todos os nossos sentidos, afinal, como estamos vendo nessa edição, a linguagem é oral, tátil, gestual, visual… Particular, ela é capaz de gerar universos complexos, com códigos e estruturas de raciocínio próprios. Pensando nessas qualidades, hoje vamos abordar dois sistemas linguísticos ainda superficialmente conhecidos por muita gente: a língua de sinais e o Braille.

Quem nunca se perguntou o que são aqueles pontinhos em relevo no botão de parada dos ônibus? É um recurso de sinalização tátil para pessoas com deficiência visual ou baixa visão que foram alfabetizadas em Braille, um sistema de leitura e escrita pelo tato desenvolvido no século XVIII pelo francês Louis Braille. Cego ainda criança, Braille dedicou-se profissionalmente a facilitar a comunicação para outros portadores de deficiência visual, criando seu método de pontos e furos inspirado em um sistema do exército francês utilizado para ler mensagens no escuro. Devido a sua praticidade, o método difundiu-se amplamente por todo o mundo, abrindo portas para uma maior inclusão social das pessoas com deficiência visual. No Brasil, o Instituto Benjamin Constant é uma referência na alfabetização em Braille, ministrada paralelamente ao ensino básico.

Por fim, vale lembrar que o Braille não é considerado um idioma, mas um sistema de escrita e leitura universal, ou seja, a disposição dos pontos em relevo é única no mundo todo; o que muda é o idioma da pessoa que aprende o Braille. Assim, aqui no Brasil, os portadores de deficiência visual são alfabetizados em Braille em português.

Ué, mas não é assim que funcionam todas as línguas?

Mas é claro… que não! A língua de sinais foge a essa noção. Diferentemente do Braille, as línguas de sinais não são universais, ou seja, elas são consideradas idiomas independentes dos idiomas orais. Ficou confuso? Calma que a gente explica!

As línguas de sinais são expressões naturais de cada comunidade de surdos, desenvolvidas com o passar do tempo e dotadas de sistema léxico e gramatical próprio, assim como as línguas orais (português, inglês, francês, etc.). Ao contrário do que muita gente pensa, as línguas de sinais não são versões sinalizadas dos idiomas orais, ou seja, não se fala português com o suporte de gestos; se fala LIBRAS, a ngua Brasileira de Sinais. Lá em Moçambique, você aprende a falar a Língua Moçambicana de Sinais (LMS). Assim, os surdos são essencialmente bilíngues, falando o idioma oral de seu país de origem e uma língua de sinais. Aqui no Brasil, o Instituto Nacional de Educação de Surdos é a referência no ensino de LIBRAS e na formação de professores.

A variedade das línguas de sinais está justamente na sua capacidade de adaptação às diferentes formas de expressão dos surdos, o que diz muito sobre a própria inserção e relação de cada comunidade surda com as comunidades ouvintes. Estar ciente da particularidade de cada língua de sinais nos ajuda a quebrar estereótipos que homogeneízam as culturas e comunidades surdas e que desqualificam seus sujeitos. Por serem autônomas, as línguas de sinais expressam toda a riqueza, dinamismo e complexidade cultural dessas comunidades surdas, absorvendo seus regionalismos e sotaques.

Quanto à inclusão, podemos notar o esforço crescente de trazer essas duas formas de comunicação para o cotidiano social. Seja na inclusão de informações em Braille em embalagens de produtos e medicamentos, seja na presença cada vez mais frequente de intérpretes de LIBRAS na transmissão de anúncios, filmes e propagandas, compreender, mesmo que minimamente, esses dois sistemas, torna-se, cada vez mais, um exercício de cidadania, um estímulo à visibilidade e participação de uma parte significativa da população.

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

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