25 de dezembro de 2014 | Ano 1, Edição #9 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Famílias afrocentradas e interraciais

Engana-se quem pensa que nossas relações amorosas e nossas formações familiares conseguem ser, de alguma forma, desviadas de um viés político. Não são. É importante ter isso em mente antes de começarmos a discutir família.

Afinal de contas, você acha que somos um país de pura miscigenação e que a cor da pele de uma pessoa não influencia na escolha dela como uma parceira em potencial? Vamos aos fatos: de acordo com uma pesquisa do Censo Demográfico de 2010, cerca de 70% das pessoas brancas se relacionam com indivíduos da mesma raça, como pode ser visto aqui e aqui.

E o que isso tem a ver com a gente?

A questão é que dados como esse comprovam e destacam aquilo que estamos discutindo há um tempo: a raça como sendo um fator preponderante na seleção de parceiros, a supervalorização de pessoas brancas e estigmatização, em especial, de mulheres negras. Lembra-se de quando discutimos essa questão há poucas semanas? Nós, mulheres negras, somos vistas como menos providas de valor e tidas como boas amantes e empregadas, mas não tanto como boas esposas.

Isso também nos remete a outro importante fator: o mito de que somos um país verdadeiramente miscigenado e que vivemos sob uma democracia racial, onde o número de casais inter-raciais é alto. Não é verdade.

O que isso significa? Significa que ainda vivemos em um racismo estrutural, onde convivemos com mecanismos históricos de invisibilização, criminalização e exclusão, baseados em estereótipos negativos e marginalizantes, que culminam em menor escolaridade, alto índice de pessoas negras assassinadas, menor acesso à saúde, maior desemprego, menores salários e assim por diante, o que acaba por refletir no tema de hoje.

A questão que busco esclarecer é a de que como aquilo que temos como “natural” e espontâneo, como o desejo, sexualidade e formação familiar, na verdade, não está livre de questões políticas. E de que não é por acaso que aquilo que, em geral, costumamos ter como belo carrega o perfeito retrato daquilo que nos é apresentado como o ideal, como a norma, a branquitude.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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