8 de dezembro de 2014 | Edição #9 | Texto: and | Ilustração: Jordana Andrade
As famílias que adotamos

Texto de Nicole Ranieri e Rebecca Raia

Ser recebida em casa com o cheiro da sua comida preferida, depois de um dia difícil é uma daquelas regalias que apenas os nossos pais sabem fazer e que geralmente ficam restritas ao período em que moramos com eles. Mas e quando você fica doente, ou quando precisa pagar uma despesa emergencial morando longe de casa? Quem te ajuda nessas horas?

     É para isso, minhas caras, que existem os amigos-família, ou melhor, os amigos que cumprem o papel que seus familiares normalmente cumprem na ausência dos mesmos.
     Durante algum tempo em uma cidade ou país diferente, a gente muitas vezes acaba “adotando” famílias postiças. Aquela senhorinha, vizinha de porta, que te adora e faz café pra falar dos passarinhos, vira a sua vó; a moça que às vezes te leva pra conhecer um museu porque você a lembra da filha dela que mora longe vira a sua mãe; todos os seus colegas de casa e de quarto viram irmãos ou primos – você ama, ri junto, vê filme junto, mas às vezes tem vontade de matar. E ainda bem que todos eles existem, ou a gente enlouqueceria e comeria ceia de natal sozinha, assistindo Netflix.
     Estar longe é complicado para manter laços já estabelecidos na sua cidade natal, mas não se prenda a eles. Se você estiver em um lugar e o coração no outro, o sofrimento vai ser intenso e vai ser mais difícil para se acostumar com a distância. É importante criar raízes em todos os lugares que você reside, para que a sua vivência seja sólida e faça parte de fato da sua vida como uma fase importante para se chegar em algum lugar – seja carreira, faculdade ou até mesmo emocionalmente falando -, e não uma tortura interminável que te faz querer voltar todos os dias.
     Mas e quando você ainda não saiu de casa?
     A obrigação familiar pesa muito no nosso cotidiano. Quantas de nós não sentimos a obrigação de passar tempo entre familiares porque é “a coisa certa”?  Não é porque nascemos em uma família que vamos nos dar bem com os membros familiares ou que eles vão ser aqueles que sempre procuram nosso bem. No meio do amor que sentimos, é difícil perceber que nem sempre cumprem o papel de família. O que fazer quando percebemos isso? Talvez, o melhor seja manter a distância. Talvez o dano que causem seja irreparável, talvez não. Por isso aprendemos a exercer o perdão e continuar com o amor de longe, aquele da visitinha e ligação.
     Essa realização, que o amor familiar pode ser tóxico ou isolador,  as vezes acontece antes mesmo de sairmos de casa, quando não temos nem as vias para nos afastar desse ambiente. Mas não é por isso que precisamos nos sentir sozinhas – os amigos famílias também podem ser parte da sua vida enquanto você ainda mora com os pais ou perto deles. Você pode se libertar da obrigação familiar para passar domingos ou datas comemorativas com quem você escolher passar: as pessoas que te fazem bem e procuram o teu melhor. Essas pessoas podem ou não ser da tua família de sangue.
     Uma decisão assim tem diversos aspectos a serem considerados: realmente existe um problema com tua família ou você não está afim? Será que a escolha de se afastar da família de sangue pode ser feita pela preguiça de estar perto deles? De todas datas comemorativas do ano, quantas posso escolher passar longe da família? Acho que não existem resposta certa. Nossas escolhas tem que ser confortáveis para nós: passar o Natal com tua família de sangue é confortável para você? Não? Procure novas tradições. Acho que são nesses momentos tradicionais que sentimos mais falta da família e se você escolheu se distanciar dela, quebrar as tradições também faz parte.
     Muita gente quebra tradições e encontra novos hábitos entre amigos-família. Por ora, pode ser dolorido o processo, mas ter alguém para compartilhar a dor faz toda diferença.
Nicole Ranieri
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Vlogger

Nicole é Paulista de 22 anos, mas mora em todos os lugares e pertence a lugar nenhum. Estuda administração com foco em exportação mas é gente boa, não gosta de tomate mas é uma pessoa do bem, curte uma coisinha mal feita e não recusa jamais uma xicara de chá verde. Se fosse uma pizza, Nicole seria meia espinafre, meia cogumelo.

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos