27 de dezembro de 2014 | Ano 1, Edição #9 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
As famílias que a gente escolhe

Esta é a segunda vez que estou escrevendo sobre família aqui na Capitô. A primeira, bem no comecinho da revista, foi pra lembrar que a nossa família é um acidente, e que não somos obrigadas a concordar e nem mesmo a gostar de todos os nossos entes. Devemos, sim, nos esforçar para manter a boa convivência com todos, e exercitar sempre a empatia – a capacidade de entender as diferenças.

Engraçado como o tema dessa primeira matéria linka com esta, e como justo eu, que sou suuuuuper família, acabei escrevendo duas matérias que na verdade têm a ver com essa busca por identificação fora dela. É que na verdade, penso eu, as questões de quem é muito ligado na família são parecidas com as questões de quem não é nem um pouco, e se resumem basicamente num desafio: como entender quem eu sou e manter essa identidade apesar da minha família?

Percebem que é tão difícil pra quem mora debaixo da asa da família quanto pra quem não vê a hora de dar linha? Quem não se identifica precisa se afastar um pouco para não sofrer, enquanto quem se identifica muito precisa colocar uma distância pra não acabar protegido demais, seguro demais, confortável demais.

As famílias que a gente escolhe ao longo da vida, seja por necessidade ou por opção, entram em nossos cotidianos para preencher esse vazio que em algum momento é deixado (ou sempre houve, no caso de quem é ou ficou órfão) por nossas famílias originais, ou apenas para se agregar a ela.

Pensando na minha experiência, vejo que existem três tipos mais comuns de famílias escolhidas, todas muito importantes. Vamos lá:

A família de amigos: essa começa bem antes da gente pensar em sair de casa, mas fica mais importante ainda depois que saímos. Quando não se está mais na casa ou na cidade dos pais é preciso criar um núcleo duro de amigos pra ter com quem passar o domingo, aquele feriado que não deu pra viajar, aquele dia em que tudo deu errado. Depois de um tempo vocês já estão cruzando agendas pra poder tirar férias ao mesmo tempo, fazendo ceias de Natal mais importantes (e mais gostosas) que a da casa da sua avó e comemorando realizações dos amigos como se fossem as suas próprias. Eu disse isso no outro texto, e repito: os amigos que você faz um pouco mais velho, já na faculdade ou depois dela, geralmente são os que vão ficar, porque é nessa época que você costuma finalmente se entender e entender seus gostos, e a parar de se preocupar tanto com o que os outros pensam, e aí sim dá pra se agrupar por afinidade. Essa sensação de pertencimento não tem preço.

A família dos amigos: tão importante quanto ter uma família de amigos é se infiltrar nas famílias dos amigos. Assim que cheguei no Rio eu estava totalmente em pânico por estar longe da minha família, e foi passando os finais de semana na casa de uma amiga que ainda morava com os pais e os irmãos que eu supri a minha necessidade de aconchego familiar. Sentar na mesa com todo mundo, contar do meu dia, dos desafios da faculdade. Chegar na hora do lanche e ver a mesa posta com cachorro quente… essas mordomias que fazem falta. A família Barbosa segurou muito a minha onda no Rio, e eu sou tão tão grata. Lembro de uma páscoa em que não pude ir pra minha cidade Natal, e aí fui pra casa dessa amiga, a Julia, pra pintar ovinhos e curtir o feriado. São as pequenas coisas. Também tive uma família emprestada na Inglaterra, os Hurst. No fim do ano, já naquele clima de Natal, um frio horrível, a saudade de casa apertando, eles me convidaram pra ir ao teatro assistir a um concerto clássico e jantar com todos depois, uma tradição que eles cumpriam todo ano. Essas coisas ficam pra sempre.

A família agregada: essa todo mundo tem. Aquela tia que você chamou de tia a vida toda e de repente descobre que não tem relação de sangue nenhuma com você – era só uma grande amiga da sua mãe ou do seu pai. E aí os filhos dela são seus primos, porque né, ela é sua tia. E aí você nem sabe mais quem é parente mesmo e quem não é. Eu fui responsável por agregar uma família à minha. Fiz uma amiguinha no colégio quando tinha cinco anos e, brincadeira vai brincadeira vem, nossas mães se conheceram e se amaram. Depois a família dela começou a frequentar os almoços de domingo da minha e, quando a gente percebeu, já era tudo uma coisa só.

Bom, no fim das contas, acho que o importante mesmo é abrir a cabeça e os horizontes. A família devia ser aquele grupo de pessoas que te entende e te aceita pelo que você é, e te acolhe sempre que você precisar, nos melhores e nos piores momentos. E que te diz as verdades que precisam ser ditas também, claro, mas com respeito e carinho.

Alguém tem uma história bonita de família emprestada pra compartilhar? Tenho certeza que sim. Conta aí nos comentários!

Tags: ,
Luiza S. Vilela
  • Coordenadora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Esportes
  • Revisora

Luiza S. Vilela tem 28 anos e mora no Rio, mas antes disso nasceu em São Paulo, foi criada em Vitória e viveu uma história de amor com Leeds, na Inglaterra, e outra com Providence, no Estados Unidos. Fez graduação em Letras na PUC-Rio e mestrado em Literatura e Contemporaneidade na mesma instituição. É escritora, tradutora, produtora editorial e acredita no poder da literatura acima de todas as coisas.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos