20 de maio de 2014 | Ano 1, Edição #2, Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
Eu não sou a princesinha de ninguém
Ilustração: Helena Zelic.

Ilustração: Helena Zelic.

E se tivéssemos preferido o sapo? Ou a sapa? E se quiséssemos apenas sonhar com sorvetes de chocolate, parques de diversão ou livros? E se quiséssemos brincar com super-heróis (ou super-heroínas) ao invés das mesmas Barbies de sempre? Não podemos. Somos princesas. E princesas só servem para serem lindas e esperarem seus príncipes, o amor único para a vida inteira. Bela Adormecida, Branca de Neve, Cinderela… as princesas da Disney sempre rondando nossas infâncias e nossas fantasias de carnaval.

Os contos de fadas, de príncipes e princesas, surgiram há bastante tempo atrás. Algumas das princesas que falei agora há pouco, por exemplo, não foram inventadas nas últimas décadas. Quem as criou foi Charles Perrault, um escritor francês do século XVII, e suas histórias eram muito mais pesadas. Nelas, o beijo da Bela Adormecida não era só um beijo. Era um estupro fortíssimo. Mas, convenhamos, isso também não significa que sair por aí beijando mulheres enquanto elas dormem é a coisa mais legal do mundo, né? Se formos pensar bem, na história que conhecemos hoje, o príncipe não deixa de ser um assediador. Mas a Disney, por muito tempo, suavizou todas essas histórias, deixou elas menos pesadas, deixou elas mastigáveis para crianças.

E assim crescemos. Tínhamos que gostar das princesas, tínhamos que querer SER uma princesa. Afinal, era tudo o que tínhamos, não? Se quiséssemos qualquer outra coisa que fugisse daquele cor-de-rosa sem fim, logo éramos chamadas de “menininho”, logo nos falavam que aquilo não era para nós. Que tem coisa de menino e coisa de menina. Que menina brinca de boneca, menino brinca de carrinho. Às vezes, uma ou outra consegue se expressar e falar o que pensa, como essa menininha do vídeo. Mas, como a televisão e a cultura dos contos de fadas nos impõe ser assim, a maioria das meninas se mantém nisso, na princesa, no cor de rosa, e a culpa não é delas.

Não digo que é errado gostar de rosa, brincar de boneca, assistir filmes de princesas. Só queria que a gente pudesse escolher, e nós não pudemos. Espero que as próximas meninas possam, e por isso estou aqui escrevendo. Também não acho que não podemos querer namorar com alguém, se apaixonar. Gostar das pessoas é legal? É sim! Se sentir querida, descobrir sensações, amar, trocar experiências, tudo isso pode ser incrível! Mas vivermos só por causa disso, idealizarmos nossos príncipes, mudarmos quem somos por causa disso (como a Cinderela acabou fazendo, por exemplo), aí é que está a parte triste. Vale a pena?

Mafalda, de Quino.

Mafalda, de Quino.

E outra: vocês já repararam nos príncipes que a Disney desenhou? Eu diria que eles são todos irmãos gêmeos, na verdade, porque está difícil descobrir quem é quem. Se eu falo assim: “Sabe aquele príncipe que é magro, que é branco, que é alto, que tem os cabelos lisos e o rosto fino, aquele príncipe que segue um padrão europeu?”, vocês quase podem me responder “qualquer um”, porque além de esperarmos um príncipe, ainda temos que esperar um príncipe que se encaixe nesses moldes. Não podemos querer namorar meninas. Não podemos querer namorar os gordos, os negros, os índios, os deficientes… e aí está outra coisa que a Disney enfiou em nossas cabecinhas, e que vai fazer muito mal para nós e também para os outros com quem convivemos.

Recentemente assistimos à Princesa e o sapo, em que a princesa é negra. Mas ainda temos muito a superar. Ela ainda é a única negra dentre várias outras brancas. E princesa gorda? Eu nunca vi. Vilã e vilão gordos eu já vi muito, mas príncipes e princesas, os “bonzinhos”, nunca. Também recentemente, a Disney (e também a Pixar, sua parceira) lançou animações um pouco diferentes. Em Valente, de 2012, a protagonista é uma princesa que não quer casar, não quer fazer “coisas de princesa”. E, esse ano, lançou Frozen, que virou febre mundial. É a história de duas princesas: a mais velha se torna rainha (uma rainha solteira!), mas, por possuir um poder congelante, se isola longe do reino, e sua irmã mais nova é quem mais a ajuda. Um dos motes do filme é: “como você vai se casar com alguém que acabou de conhecer?”. O suposto príncipe encantado na verdade é um vilão, o amor verdadeiro na verdade é o amor das irmãs, e a Disney parece estar negando todo o seu discurso anterior. Essas personagens todas ainda são brancas, europeias, magras, ricas, com vários privilégios, mas talvez estejamos mudando aos poucos. Não que a Disney mereça grandes méritos, não. Isso só está acontecendo e tomando rumos um pouco diferentes porque muito se tem falado sobre isso, e então muitas de nós temos percebido que essa ideia antiquada de esperar príncipes encantados já não estava mais colando.

Ainda há muito a fazer. Mas já adianto, meninas: nós não somos princesas. Podemos ser heroínas de nós mesmas. Só assim viveremos felizes para sempre.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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