14 de setembro de 2014 | Ano 1, Edição #6 | Texto: | Ilustração:
Fatal: o medo da morte, do fim e do desconhecido
Ilustração: Beatriz H.M. Leite.

Ilustração: Beatriz H. M. Leite/ contribuição de Alile Dara

Ok, medo da morte, do fim ou do desconhecido é tudo medo da mesma coisa. Porque a morte é necessariamente desconhecida, porque o nosso fim é a morte (ou porque qualquer fim pode ser uma pequena morte) e fins, se ainda não chegaram, são também necessariamente desconhecidos. Eu sinto que, se eu fosse revisar todos os meus medos a fundo (tipo olhando meus cadernos onde escrevo frequentemente quando estou em crise), eu poderia encontrar algo em comum entre todos eles: morte, fim, desconhecido.

A gente pode começar pelo fato de que, bom, 80% dos meus medos – e talvez os de muita gente por aí – estão relacionados a decisões e à fatalidade intrínseca a elas – a gente pode tomar novas decisões, mas não voltar atrás depois do que já foi feito. Aliás, é uma dupla fatalidade: não é só que eu não posso voltar atrás (absolutamente não posso), mas também porque eu nunca poderei conhecer o fim das minhas decisões ao tomá-las. Como saber se é realmente a opção A e não a B que vai me fazer feliz? Mesmo que eu nem saiba exatamente o que significa ser feliz pra mim?

Isso quer dizer que, no geral, tomar decisões, quaisquer que sejam, é lidar com o desconhecido – e dado que eu falo de “fatalidade”, decisões pra mim também têm a ver com a morte (morte do “eu” que não viverá X coisas em troca de Y).

É difícil tomar uma decisão, principalmente pela responsabilidade que a gente carrega quando percebe que qualquer escolha, movida e tropeçada na vida, são só nossas: se tudo der errado, a escolha ainda foi nossa. Isso porque a vida é, sem dúvida, de cada um e ninguém mais. Se você tem alguém na sua vida que te faz duvidar disso, pode ser uma situação abusiva.

Eu tenho medo de não ter feito “a melhor escolha”/”a escolha certa”. Esses medos devem ter alguma relação com as inúmeras expectativas que eu tento suprir – e a gente já conhece essa história: quanto mais alto, maior a queda.

A questão é: apropriar-me da minha vida também significa viver todos os fins (que podem ser dolorosos), as pequenas mortes e atravessar os imensos desconhecidos que estarão (e estão) por vir, aceitando-os. Eles acontecem e não tem escapatória, e meio que não adianta tentar se proteger. Maaaas, apesar disso, uma das formas que a gente encontra de se proteger disso tudo é pensando em algum “objetivo” de vida: “Eu hoje vou estudar para amanhã entrar na faculdade” ou criando planos para o futuro em geral. E, de fato, é bastante positivo encontrar uma direção. Porque essa direção te move e, justamente, por algum tempo te protege da ideia de que você está pisando o tempo todo no campo do imprevisto (futuro). Além de te fazer encontrar algum sentido concreto no que você está fazendo agora (o tão efêmero presente).

O único problema que surge com essa tática malandra de driblar o medo é que a vida – o fluir dos dias – trazem imprevistos quase sempre, se não for sempre mesmo. E esses imprevistos podem acabar com o que você escolheu como “direção” , “objetivo” ou “sentido” da vida, o que pode gerar uma grande frustração (bastante séria em muitos casos). E, às vezes, o medo cresce depois de uma série de frustrações vividas e nos trava.

De fato, pra algumas pessoas, é assustador se jogar e não poder saber exatamente onde vai cair. E, para outras (ou inclusive para essas pessoas anteriores), é também assustador saber que, pra qualquer lado que vá, você vai cair num fim (jamais conhecido): a morte.
Foi pensando na morte que eu cheguei ao meu próprio sentimento de pequenez no mundo. Ao mesmo tempo em que me aflijo com o fato de que tudo, absolutamente tudo, morre, em muitos momentos de desespero, o que mais me ajudou foi entender que o mundo é muito maior que qualquer medo meu de fim/desconhecido/morte – e não gira ao meu entorno! Na verdade, todos esses meus medos, em comparação ao tamanho do universo, são tão minúsculos que parece um pouco besta me deixar levar por eles.

Só que às vezes a gente esquece de levar em conta que o desconhecido é muito mais uma primavera que um inverno – as flores estão mais propícias a crescer e florescer aí. É dando chance pro desconhecido que você descobre quantos brotos você tinha dentro de você e não sabia. Brotos dentro de nós são eternos – dentro de cada um, existe uma parte eternamente desconhecida e pronta pra florescer se você quiser.

Por isso, eu prefiro pensar que ter um foco, objetivo ou querer “seguir em frente” não tem a ver com chegar a um ponto específico e premeditado. Tem a ver com ter uma pequena direção pra poder caminhar e estar sempre aberto a mudar. Não porque eu acho mudanças super divertidas – elas podem ser difíceis – mas porque assim é: as coisas mudam, a vida não pode ser premeditada e talvez o seu plano de construir uma carreira de sucesso como astronauta sofra turbulências por uma série de coisas que você não pôde ver com antecedência (uma dessas coisas pode ser, por exemplo, que você, afinal, não queria ser astronauta).

Não se trata de conseguir ser um astronauta fabuloso, mas usar esse “ponto de chegada” para chegar em algum lugar – qualquer lugar: inclusive o lugar onde tudo dá “errado”, a gente tem que mudar de ideia (se já não mudou e só não quis aceitar) e tem que descobrir uma nova direção. A direção pode inclusive ser “não ter mais direção”.

Acho que a gente sempre confirma, com o passar do tempo, que o desconhecido é muito mais frutífero do que assustador. Talvez seja por isso que tanta gente goste de brincar com essa coisa que a gente chama de “acaso” e não goste de ter muitos planos.

Sim, eu estou sugerindo outra forma de driblar o medo do desconhecido (futuro, fim, morte): aceitá-lo.

fatalidade
fa.ta.li.da.de
sf (lat fatalitate) 1 Qualidade do que é fatal. 2 Acontecimento funesto, imprevisível, inevitável, marcado pelo destino ou fado. 3 Sucesso desastroso; desgraça.

eterno
e.ter.no
adj (lat aeternu) 1 Que não tem princípio nem fim. 2 Que teve princípio, mas não terá fim. 3 De duração indefinida. 4 Que se faz ou se repete amiúde. 5Imortalizado, célebre. Var: eternal. Antôn (acepções 2 e 3): transitório, efêmero. sm Deus.

fim
fim
sm (lat fine) 1 Termo, conclusão, remate. 2 Extremidade, limite de espaço, extensão ou tempo. 3 Intenção, propósito. 4 Escopo, alvo, objeto, fito, mira. 5Morte. F. anormal, Inform: interrupção inesperada de um programa que está sendo executado, devido a uma falha, erro ou falta de energia; abend. F.-d’águas, Reg (Amazônia): última fase da cheia dos rios quando as águas se aproximam do nível normal. Fins-d’águas, Reg (Ceará): o término da época chuvosa. F. de mundo: a) grande transtorno do tempo, que causa aflição; b) lugar muito distante; c) grande barulho e confusão. A fim de: para; com intenção de. A fim de que: para que. No fim de contas: afinal; em conclusão. Por fim: finalmente.

Beatriz H. M. Leite
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Beatriz H. M. Leite, 21, é paulistana e mora em Buenos Aires. Além de cartas não enviadas, coleciona cartões-postais e histórias dignas de novela mexicana.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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