Feminismo e movimento estudantil: um relato sobre o 6º EME da UNE
Foto: Helena Zelic

Imagens por Helena Zelic, Natália Lobo, Laura Viana e Simone Nascimento

Este texto é um relato sobre o 6º Encontro de Mulheres da UNE. A UNE, União Nacional dos Estudantes, é a maior entidade estudantil do país, fundada em 1937. A Diretoria de Mulheres da UNE existe há dez anos e vem, neste meio-tempo, pautando o feminismo na universidade, no movimento estudantil e no país como um todo. Nenhuma de nós é colaboradora de EVP, e a Capitolina não tem nenhuma ligação institucional com a UNE, mas achamos que o encontro, que foi tão frutífero, precisava ser aqui relatado especialmente para a Capitolina, para envolvermos cada vez mais mulheres nesta história.

O EME teve início no dia 1º de maio e terminou na tarde do dia 3, domingo, em Curitiba. Com o tema Vozes Feministas, seu objetivo era compor ali um espaço de troca entre mulheres de todo o Brasil, de aprendizados, mas também de resistência e fortalecimento, para que nós, mulheres, voltássemos para nossas escolas, universidades e organizações com ainda mais clareza sobre nossos motivos para lutar.

O primeiro dia:

Foto: Laura Viana

Foto: Laura Viana

Chegamos logo de manhã, cheias de agasalhos e cachecóis, num frio matinal que não estávamos acostumadas. O EME aconteceria na Universidade Federal do Paraná, mas a primeira atividade foi na rua: fomos todas ao Ato do Dia de Luta dos Trabalhadores e Trabalhadoras, no centro de Curitiba. O ato se pautou principalmente na greve dos professores e professoras, que haviam sido barbaramente reprimidos dias antes pela Polícia Militar do Paraná. Gritávamos:

“Não acabou! Tem que acabar! Eu quero o fim da Polícia Militar!”

“As professoras são nossas migas! Mexeu com elas, chamou pra briga!”

Algumas de nós estávamos tocando na bateria, composta apenas por mulheres, e acompanhamos o encerramento do ato com falas de centrais sindicais, partidos e movimentos sociais. Mas passava uma fala, outra fala, mais outra… e eram todas falas feitas por homens. Nós entendemos que a luta dos trabalhadores e trabalhadoras é mista mas, mais ainda, percebemos que as mulheres são invisibilizadas até nos ambientes de luta e de esquerda. A cada nova anunciação de fala de homens, gritávamos, com nossos batuques:

“Cadê a fala das mulheres?”

Nos responderam, do carro de som, que o movimento de mulheres teria voz, sim, mas apenas mais tarde, porque antes eram as falas das centrais sindicais. Mas desde quando mulheres só podem falar pelo movimento de mulheres? Entendemos que as mulheres devem estar presentes e ter espaço também nos movimentos mistos e nos ambientes de luta como um todo. Não deu outra — assim que nos deram essa resposta, gritamos repetidamente:

“Cadê as mulheres das centrais?”

Logo uma sequência só de falas de mulheres começou e, mais importante do que isso, as mulheres estavam falando sobre mulheres! Saímos de lá felizes e tendo a certeza de que temos sim que ser teimosas às vezes. Temos mesmo que gritar, até que nos ouçam!

Foto: Helena Zelic

Foto: Helena Zelic

Voltando à UFPR, tivemos um dia com oficinas, uma mesa de abertura com falas de mulheres de diferentes organizações que compunham o encontro e, logo em seguida, um sarau com muita arte feminista! O sarau foi muito divertido porque era completamente espontâneo. As mulheres se juntavam, cantavam o que queriam, e até um maracatu nós improvisamos!

 

O segundo dia:

O dia começou cedo. Pela manhã, tivemos uma mesa que pautou diversas formas de violência que sofremos: a que nossos companheiros cometem contra a gente, a que sofremos na universidade, a física, a psicológica, a sexual, a desmoralização que nos fazem sentir. Foi um ambiente de troca entre mulheres que não só falaram sobre as coisas que passamos, mas também sobre como temos que nos organizar para que não tenhamos que viver tamanhas desumanidades e práticas misóginas.

Foto: Helena Zelic

Foto: Helena Zelic

Depois do almoço, as meninas se dividiram em 13 GDs (Grupos de Discussão), de acordo com os temas que mais as interessaram. Eram eles: LBTs, violência, comunicação, legalização do aborto, saúde, movimento estudantil, permanência na universidade, tecnologia, meio ambiente, mercantilização, antiproibicionismo, soberania nacional e sistema político. Os GDs foram importantes porque eram espaços com uma dinâmica mais aberta, onde mais mulheres falavam e debatiam. Além disso, também demonstravam que as pautas do feminismo abrangem uma porção de coisas, e que as mulheres devem debater infinitos temas — porque tudo que diz respeito ao mundo diz respeito, também, à vida das mulheres.

Depois de participarmos, cada uma, de dois GDs, fomos para o sarau, com shows de feministas maravilhosas, como Joana Duah, Luana Hansen e Preta Rara. Luana cantava em uma de suas músicas:

“Sim, eu sou mulher, estou pronta pra lutar
Sim, eu sou mulher, vou sempre avançar
Sim, eu sou mulher, ninguém vai me parar
Ninguém vai me parar!”

E nós, na plateia, gritávamos todas, de punhos erguidos:

“Ninguém vai nos parar!”

Foto: Helena Zelic @ helenadaora

Foto: Helena Zelic

 

O terceiro dia:

O terceiro dia talvez tenha sido o mais emocionante. Tivemos uma plenária final, onde foram apresentadas as resoluções finais do encontro, aquilo que saiu de tudo o que debatemos nos outros dois dias. Uma das pautas mais importantes deste documento final foi um ato de repúdio a todo tipo de opressão, que foi feita para mostrar a indignação do conjunto das mulheres em relação a um caso de transfobia que infelizmente ocorreu no encontro. O caso nos escancarou uma realidade: apesar de avançarmos muito quando estamos juntas, ainda temos em nosso conjunto comportamentos e concepções opressoras que precisam ser superadas o quanto antes.

Foto: Simone Nascimento

Foto: Simone Nascimento

Outro momento marcante foi a intervenção das mulheres negras na plenária final. Após sentirem a ausência de representatividade nas mesas do encontro (que foram compostas em sua maioria por mulheres brancas), estudantes negras de diversos estados, universidades e organizações se reuniram por um feminismo que as represente de fato. Organizaram uma intervenção que serviu para nos lembrar da necessidade do protagonismo e da presença negra no feminismo, na organização, nos espaços de fala, nas mesas de debate. Trouxeram o poema de Victoria Santa Cruz, que diz:

“Negra, sim!
Negra, sou!
Negra!
Negra sou!”

Tudo isso demostra que ainda temos muito a avançar para que os espaços feministas sejam cada vez mais representativos e fortalecedores para todas as mulheres, cis e trans, negras, indígenas, lésbicas, bissexuais, urbanas e rurais, de todas as partes do país.

Foto: Helena Zelic

Foto: Helena Zelic

Ao final, todas juntas cantamos uma ciranda sobre feminismo, companheirismo e solidariedade entre mulheres. A música diz:

“Companheira, me ajuda
que eu não posso andar só
eu sozinha ando bem
mas com você ando melhor”

Nós já conhecíamos essa ciranda e já a havíamos entoado de mãos dadas algumas vezes em nossas vidas, mas esse é o tipo de coisa que nunca, nunca deixa de ser emocionante.

Depois disso, cada delegação se organizou para ir embora. Algumas moravam muito longe, a mais de vinte horas de Curitiba (!!!), e tiveram que sair correndo. Outras passaram a tarde em Curitiba e só foram embora à noite — esse foi o nosso caso. Aproveitamos para comer pizza, conversar, inventar músicas e nos divertir naquela cidade fria até a hora de voltarmos para São Paulo.

Foto: Laura Viana

As colaboradoras Natália Lobo e Helena Zelic. Foto: Laura Viana

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O Encontro teve setecentas mulheres. Esse número não só foi além do esperado pela organização, como também fez com que este fosse o maior EME da história da UNE! E isso significa muita coisa: significa que as mulheres estão organizadas pela luta feminista para unidas criarmos um mundo que não machuque tanto, que não oprima nem explore as nossas vidas, que são tão plurais e merecem muito mais!

Temos certeza de que nosso relato não seria igual ao de nenhuma outra mulher que estava ali, e que até entre nós há diferentes pontos de vista sobre tudo o que aconteceu. Mas o que todas nós temos certeza é que é de extrema importância que existam espaços de auto-organização das mulheres, porque sentimos o quanto isso nos fortalece para enfrentarmos o mundo exterior depois, e também porque a organização coletiva e política das mulheres é a única forma para que todas nós, um dia, sejamos livres.

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A TV UNE disponibilizou alguns momentos do Encontro no YouTube. Assistam!

Abertura do EME

Debate: #VozesFeministas pela igualdade

Debate: As mulheres transformando a universidade e no enfrentamento às violências

Debate: Feminismo como alternativa ao sistema e as políticas públicas para as mulheres

 

 

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

Simone Nascimento
  • Colaboradora de Estilo

Simone Nascimento, 22 anos, Negra, Mulher, Feminista e Umbandista! Ama suas raízes, dos fios da cabeça ao toque do atabaque. Leonina da Terra da Garoa (SP), apesar de amar o sol! Estudante de Jornalismo, formada em Figurino, Estilismo e Coordenação de Moda, — vê a comunicação como um direito e a Indumentária como arte. Militante anticapitalista, quer viver num mundo livre de opressões.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.