27 de agosto de 2018 | Ano 4, Se Liga | Texto: | Ilustração: Kethlenn Oliveira
Festivais de cinema focado em mulheres

Os festivais de cinema são uma importante janela para a indústria cinematográfica. Ter seu filme selecionado por certos festivais é quase como ter um selo de qualidade e a garantia que isso vai gerar uma ótima publicidade. Além de ter o seu filme exibido, é também uma ótima maneira de se projetar na indústria e fazer negócios, e talvez também, aquele minutinho de glamour depois de todo o trabalho que se passa para fazer um filme.

Um desses festivais é o Festival de Cinema de Cannes na França. O festival já foi palco de estreias como “Azul é a cor mais quente” (Abdellatif Kechiche, 2013), “A Doce Vida” (Federico Fellini, 1960) e “O piano”, dirigido por Jane Campion, a única mulher a ganhar o prestigiado prêmio Palma de Ouro. Na edição deste ano do festival foi feita uma passeata com 82 mulheres da indústria, representando as 82 mulheres cineastas que tiveram filmes em competição, em contrapartida aos 1.688 cineastas homens. São números alarmantes levando em consideração que o festival já teve setenta e uma edições. O que nos faz perguntar: onde andam as mulheres cineastas?

Na necessidade de ter um espaço para a produção feita por mulheres ou sobre mulheres surgiram festivais como o Festival Internacional de Filmes de Mulheres na França, em sua quadragésima edição, e o  Festival Internacional de Mulheres de St. John nos Estados Unidos, em atividade desde o final da década de 80. Nos últimos anos surgiram outras diversas mostras, festivais de cinema e iniciativas com essa finalidade, e a Capitolina falou com duas delas, a Mostra Ela na Tela e o FIM – Festival Internacional de Mulheres no Cinema.

A Mostra Ela na Tela acontece em Porto Alegre e já teve quatro edições. Com caráter não competitivo, ela é composta por exibições de filmes e debates e é feita de maneira independente por um grupo de seis mulheres e conta com o apoio de várias outras. Já o FIM teve sua primeira edição esse mês em São Paulo, com caráter competitivo, foi produzido pela Casa Redonda e pelo Kinoforum, contando com o patrocínio do FAMA – Fundo Avon de Mulheres no Audiovisual. A falta de representatividade da mulher no cinema brasileiro (segundo os dados de 2016 e 2017 da Agência Nacional do Cinema – ANCINE) foi um dos motivos da criação de ambas iniciativas e a falta de espaço para a exibição de filmes dirigidos ou sobre mulheres.

Sobre o tipo de conteúdo que elas buscam exibir, as duas iniciativas pontuaram a necessidade da diversidade e representatividade dentro desse enorme grupo que são as mulheres. Filmes dirigidos por diversos tipos de mulheres e com os mais variados assuntos e gêneros.

Uma das convidadas do FIM foi a cineasta Adélia Sampaio, a primeira mulher negra a lançar um longa-metragem no Brasil, o filme “Amor Maldito” de 1984 – e desde lá a participação das mulheres negra no cinema nacional parece ter mudado muito pouco. Apenas dois homens figuram como diretores na lista de filmes exibidos no FIM, o cineasta Carlos Diegues (com o filme “Xica” de 1976) e Dany Roland (codiretor de “Então morri” de 2016). Para futuras edições Minom Pinho, idealizadora do FIM, quer poder exibir longa-metragens de animadoras e filmes dirigidos por mulheres indígenas, dois tipos de projetos que não fizeram parte dessa primeira edição do festival.

A Mostra Ela na Tela começou a receber no ano passado inscrições de filmes da América Latina, e já recebeu curtas-metragens de praticamente todos os estados no Brasil. Em 2017 exibiu o longa-metragem “Café com Canela”, de Glenda Nicário, codirigido por Ary Rosa, que havia participado de importantes festivais brasileiros e em 2016 fez uma exibição do clássico “Ventre Livre” (1994), de Ana Luiza Azevedo, sobre direitos reprodutivos no Brasil. Além de uma melhor representatividade das mulheres, a Mostra Ela na Tela também se interessa por exibir os mais diversos gêneros e tipos de filmes dirigidos por mulheres.

Tanto a Mostra Ela na Tela quanto o FIM demonstraram interesse em expandir as iniciativas para a formação e oportunidade de negócios para mulheres. Capacitar mulheres e criar novas oportunidades, para quem sabe no futuro reverter os números assustadores da participação feminina no cinema.

As mulheres fazem cinema desde que o cinema surgiu lá no final do século XIX. Estamos em todas as áreas e mandando muito bem, por sinal. Ainda que alguns festivais parecem ignorar a nossa existência e as histórias que temos para contar, fazendo festivais e mostras de cinema como um local de resistência.

Fonte:

https://www.vogue.com/article/cannes-2018-5050×2020-times-up-women-in-the-news

https://www.ancine.gov.br/pt-br/sala-imprensa/noticias/bilheteria-cresce-e-filmes-brasileiros-batem-recorde-de-lan-amentos-em-2016

https://www.ancine.gov.br/pt-br/sala-imprensa/noticias/ancine-apresenta-estudo-sobre-diversidade-de-g-nero-e-ra-no-mercado

Foram entrevistadas para essa matéria:

  • Mostra ela na tela: Gabriela Burck, Isabel Cardoso, Clarissa Virmond e Mariani Ferreira
  • FIM – Festival Internacional de Mulheres no Cinema: Minon Pinho
Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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