8 de julho de 2014 | Edição #4 | Texto: | Ilustração:
Filha do mundo
Ilustração: Bárbara Fernandes.

Ilustração: Bárbara Fernandes.

Crises, guerras, trabalho, dinheiro, família, cônjuge, estudos: existem milhares de razões para alguém se mudar para um país diferente. Mas e quando isso acontece com você, com lidar?

A primeira coisa que posso dizer é que o choque inicial sempre é grande. E tudo se intensifica quando a língua é diferente e você não sabe se vai conseguir se expressar direito, se será compreendida, se seus sentimentos serão passíveis de tradução, se conseguirá fazer novos amigos. Mas pode ter certeza que sim, tudo isso será possível e ninguém vai te prender por confundir “kitchen” (cozinha) com “chicken” (frango) ou “Poisson” (peixe) com “boisson” (bebida)! Uma das vantagens de vir de um país tão grande quanto o Brasil, com um fluxo migratório tão intenso, é que em grande parte do mundo ocidental e em parte do mundo oriental há milhares de comunidades brasileiras espalhadas, cheias de pessoas que já passaram e estão passando pelo mesmo que você e que serão as primeiras a oferecer ajuda, abrigo, carona e comida quando a situação aperta, cheias de abraços brasileiros em português.

A segunda coisa que certamente irá acontecer vai ser a sensação de miudeza em relação ao mundo. Parece-nos meio surreal estar em outro continente, atravessar um oceano, estar a 22 mil quilômetros de casa. E de fato é. Mas vendo a vida com olhos de Pollyanna, pense na chance que você terá de recomeçar do zero. Ser a pessoa que você quiser, sem amarras, fazendo o que quiser, saindo com quem quiser, e se quiser. Isso sem contar com uma cidade, talvez um país inteirinho, que você terá para explorar, com comidas novas, música local, lojinhas de bairro, hábitos de moda e beleza diferentes, religião, costumes, literatura. Todo dia em um lugar novo é um prato cheio para abranger seu leque de conhecimento, que vai te ajudar a entender um tiquinho mais sobre o mundo.

Mas, apesar de todas as vantagens que uma cidade nova possa te oferecer, a melhor parte de tudo isso, com certeza, são as pessoas. É maravilhoso, arrepiante, pensar em como podemos vir de lugares tão distantes, com infâncias tão diferentes – você, nascida em Goiás, criada pela sua mãe e sua avó, com dois cachorros, em uma cidade do interior, que adora música Folk e filmes da Sofia Coppola. Sua amiga, nascida em Nova Délhi, criada pelos pais, tias, avós e primos, com mais 3 irmãs, em uma megalópole, e que também ama música Folk e filmes da Sofia Coppola – quem diria que isso pudesse acontecer? Apesar de todas as diferenças, todo o plano de fundo cultural diferente, todas as influências de tempo e lugar, ainda se encontram em muitos aspectos. Não é incrível?

Por fim, fica aqui uma sugestão de livro, duas músicas e um programa de tv que podem te abastecer com mais informações sobre imigração e países diferentes.

Livro As Cidades Invisíveis, de Ítalo Calvino: Um relato fictício do explorador Marco Pólo para o rei Kublai Khan, este livro descreve cidades pelas quais Marco teria passado, e as peculiaridades de suas populações. Se lermos com atenção, podemos perceber que, no fundo, ele descreve todos os aspectos possíveis de uma cidade – qualquer cidade, de qualquer tamanho, e como mesmo sendo diferentes, ainda são todas iguais em essência. Cada capítulo é uma cidade, e todas as cidades possuem nomes femininos. Alguma pessoa maravilhosa fez uma animação de uma das cidades, Zobaide, e você pode assisti-lo por este link do youtube.

Música “Rockland County”, de Regina Spektor: Essa música reconta a história real da cantora de quando a família dela se mudou da Rússia para os Estados Unidos, nos anos 90. A abertura comercial ocorrida na Rússia durante os anos 80 permitiu que muitas pessoas se mudassem de suas terras natais para onde pudessem ter uma vida mais digna, e foi o que aconteceu com os Spektor, que se mudaram com duas crianças pequenas e avós para Nova Iorque, deixando tudo para trás para nunca mais retornarem.
“There are immigrants, I know,
who came like me as little kids
They think that today it’s so different,
and they believe that immigrants
shouldn’t be allowed to come here anymore,
that they’re bad for the economy,
[…]
When I landed I didn’t see the statue of liberty
like so many immigrants before me,
In the airplane I didn’t sleep,
I stayed up watching ‘Who Framed Roger Rabbit’
In English, I loved it, but didn’t understand it,”

Música “Pa’l Norte”, do grupo Calle 13: A música deste grupo Porto-Riquenho fala sobre ser nômade e não pertencer a um lugar só – ser uma pessoa do mundo.
“Un nómada sin rumbo la energía negativa yo la derrumbo
Con mis pezuñas de cordero me propuse recorrer el continente entero
Sin brújula, sin tiempo, sin agenda…
inspirado por las leyendas
Con historias empaquetadas en lata, con los cuentos que
la luna relata aprendí a caminar sin mapa
A irme de caminata sin comodidades, sin lujo
protegido por los santos y los brujos
Aprendí a escribir carbonerías en mi libreta y
con un mismo idioma sacudir todo el planeta”

Série O Mundo Segundo os Brasileiros, da Band: Este programa de televisão, que hoje já virou uma série, apresenta as comunidades brasileiras ao redor do mundo, e como o nosso povo lida com adaptação, choque cultural e novos costumes. Ver esta série dá vontade de deixar as malas prontas e sair viajando por aí, para experimentar um pouquinho do sabor agridoce de cada cultura.

Nicole Ranieri
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Vlogger

Nicole é Paulista de 22 anos, mas mora em todos os lugares e pertence a lugar nenhum. Estuda administração com foco em exportação mas é gente boa, não gosta de tomate mas é uma pessoa do bem, curte uma coisinha mal feita e não recusa jamais uma xicara de chá verde. Se fosse uma pizza, Nicole seria meia espinafre, meia cogumelo.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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