23 de maio de 2014 | Culinária & FVM | Texto: | Ilustração:
Filtro dos sonhos – um debate e um tutorial

Uma das primeiras ideias que tivemos quando definimos o tema “sonhos” para a edição de maio foi a de fazer um tutorial de um apanhador/filtro de sonhos. Só que, imediatamente após termos a ideia, começamos a discutir as implicações dela – esse objeto é um caso clássico de apropriação cultural, e nós não poderíamos simplesmente fazer um passo a passo mostrando como fazê-lo. Por isso resolvemos debater antes o tema, e depois mostrar como vocês podem fazer um. Esperamos que vocês se juntem a nós no debate. O tutorial segue depois do texto.

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Antes de qualquer coisa, você sabe exatamente o que é “apropriação cultural”? Se não, deixa que eu explico: ela acontece quando alguém de determinado país/cultura/povo, geralmente privilegiado (ou seja, de algum lugar mais rico ou com maior influência política, econômica e social), “rouba” elementos de culturas alheias, ignorando seus propósitos e significados iniciais e usando-os somente como enfeite.

Mas o mundo é enorme e globalizado, alguém pode se perguntar, e isso pode acabar acontecendo naturalmente, muitas vezes sem nós mesmas percebermos. Como lidar com isso? Alguém está a salvo?

Se você acompanha a carreira de cantoras famosas, você provavelmente se lembra de quando a Miley Cyrus dançou o “twerk” com o Robin Thicke em 2013, certo?

foto 1 miley

Agora, você sabe de onde o twerk surgiu? Ele veio de Nova Orleans nos Estados Unidos durante os anos 90, e apareceu com as meninas negras que curtiam hip hop e queriam um passo de dança que acompanhasse o ritmo.

Tudo seria muito legal e divertido se não fosse por uma coisa: quando a Miley espalhou o twerk por aí, ela se apropriou da imagem das dançarinas negras de hip hop e o contexto de onde elas surgiram e transformou tudo em um grande estereótipo do que ela acha que é a cultura do hip hop americana.

Mas claro, ela não é a única e nem a primeira a pegar referências culturais de outros povos e países e usá-los sem pensar. O cenário pop no geral vive se apropriando de elementos e características de outras culturas e deturpando seus significados. Quer mais exemplos? Olha aí a Katy Perry usando um bindi, esse pontinho de tinta ou joia usada na testa, vindo do da cultura indiana e que representa a proteção das mulheres e de seus maridos e é tido um ponto energético do corpo. Ou então a Lady Gaga, usando uma estranha versão da burca muçulmana, e ignorando todo o seu símbolo religioso, político e social.

foto 2 katy

foto 3 gaga

Ok, nós entendemos, o mundo é enorme e as pessoas vivem se inspirando umas nas outras. Mas e por que, você se pergunta, pegar elementos das outras culturas e usá-los como decoração pode ser um problema tão sério?

Pense na Miley Cyrus, na Katy Perry e na Lady Gaga: As três são mulheres brancas, nascidas nos EUA, com muito muito dinheiro e um enorme poder de influenciar suas fãs. O twerk, o bindi e a burca vêm de contextos de povos oprimidos, sobretudo pelos Estados Unidos – os negros, os indianos e os muçulmanos foram e ainda são constantemente discriminados e tratados como “inferiores” ou “exóticos” por lá (e aqui no Brasil também, vamos combinar). Será que é “tudo bem” tratar eles do jeito que os nativos fazem, mas pegar emprestado elementos de suas culturas?

“E agora, eu não posso mais ouvir Lady Gaga e nem usar o meu kimono japonês que a minha tia me deu? Ele é tão lindo!”

Calma, não se desespere. Contanto que você tenha plena consciência do que está usando/vestindo, você pode pegar referências de outras culturas, uma vez que você seja cautelosa e sempre questione as pessoas ao seu redor se elas podem estar ofendidas por causa da sua roupa – se você for branca e quiser usar um turbante, por exemplo, pesquise em um site do movimento negro se isso pode ser ofensivo – nunca se esquecendo de que, muitas vezes, as pessoas podem se incomodar sim e que ninguém pode tirar essa razão delas!

Aliás, se preocupar com a origem do que você está usando também é importante! Procure, por exemplo, adquirir objetos indígenas de fato feitos por nativos, e não uma versão deles feita por grandes marcas de moda. É diferente usar um kimono que sua prima trouxe do Japão e usar um kimono que você comprou na Zara. Comprá-los diretamente dos nativos promove a cultura deles, abastece a economia local e evita que o seu dinheiro financie trabalhos irregulares de grandes marcas. Por fim, não se esqueça de pesquisar e ter certeza do que se trata antes de sair por aí vestindo o que pode ser apenas bonito para você, mas simbólico e importante para outra pessoa.

Para se informar melhor, leia quem entende do assunto:

http://www.vice.com/pt_br/read/miley-cyrus-precisa-fazer-uma-aula-de-estudos-afro-americanos

Ainda falando sobre a Miley, vocês já perceberam que ela tem um Filtro dos Sonhos tatuado na costela? Aliás, com certeza vocês já entraram no tumblr ou weheartit e deram de cara com, pelo menos, uma dezena de pessoas com essa tatuagem. Mas vocês sabem de onde vem esse símbolo e o que ele significa? Bem, o Filtro dos Sonhos ou Dreamcatcher é originário de um povo indígena norte americano, os Ojibwa. Esse amuleto tinha a função de, literalmente, filtrar os sonhos. Os bons sonhos passam pelo circulo, enquanto os sonhos ruins ficam presos nas tramas. As lendas sobre o surgimento desse amuleto são muito interessantes!

A partir dos anos 60 surgiu nos Estados Unidos um movimento de revitalização indígena e o Filtro dos Sonhos se tornou símbolo da união entre os povos indígenas norte americanos, o que fez com que a figura do filtro se difundisse.

Então, que tal aprender a fazer seu próprio filtro? Ou fazer e presentear alguém?

O que vocês vão precisar

– Qualquer coisa que sirva para fazer um círculo, sugiro algum tipo de cipó que dê pra enrolar ou palha (eu usei a palha de uma cestinha que não tinha muita utilidade)

-Uns 4 ou 5 metros e fio (pode ser fio encerado, cordão de nylon, etc.)

– Tesoura

– Miçangas, sementes, conchas e ou qualquer outra coisa que vocês queiram usar

– Isqueiro e agulha pra bordado podem ajudar

FOTO (1)

Como fazer

1. Dê um jeitinho de fazer um circulo, eu fui entrelaçando a palha até ficar firme o suficiente.

FOTO (2)

2. Corte um fio de 2,5m e amarre uma ponta em qualquer parte do círculo. De dois em dois dedos de distância mais ou menos você amarre o fio, um nó cego é suficiente. Tem que ficar como na foto.

FOTO (3) FOTO (4)

3. Depois de terminar o circulo você vai entrelaçando o fio nos espaços que ficaram entre os nós, assim:

FOTO (5) FOTO (6)

4. Continue entrelaçando os fio nos espaços livres, sempre mantendo o fio bem firme, quanto mais apertadinho mais bonito vai ficar.

FOTO (7) FOTO (8)

5. Agora é só continuar entrelaçando o fio nos espaços, fica cada vez mais difícil, mas uma hora você vai chegar nesse resultado:

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é só dar um nó no final.

6. Agora que o circulo está pronto é só fazer os detalhes. Eu usei 3 fios com conchinhas e miçangas que ficam pendurados e ficou assim:\

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FOTO (11)

Agora ele está pronto pra ser pendurado 😉

FOTO (12)

Link legal sobre a lenda: http://www.xamanismo.com.br/Poder/SubPoder1191052936It0

Bárbara Fernandes
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Ilustradora

Bárbara, 21 anos, vinte vividos na cidade de São Paulo até o dia da fuga pro sul numa tentativa falha de pertencer a algum lugar. Não sabe fazer decisões, medrosa além do normal, odeia usar sapato, sempre lê tudo o que está escrito nas embalagens, gosta de ficar conversando com os gatos e de tomar banho no escuro.

  • http://thecactustree.blogspot.com Babi

    sobre apropriação cultural por revista, esta dica: https://www.facebook.com/msmagazine/posts/10152478666698540

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  • Cinthia

    Concordo totalmente com você e tenho a mesma opinião, mas como conheço o trabalho de Lady Gaga tenho que defendê-la, e vou justificar o uso da burqa. Em uma determinada época, a cantora teve contato com a cultura islâmica e ficou intrigada com o uso da burqa e as questões sociais, políticas e religiosas que envolvem as mulheres islâmicas. Então, tendo ciência de sua popularidade no mundo inteiro e forte influência sobre muitas pessoas, Gaga decidiu promover e mostrar em músicas e performances sua curiosidade sobre uso da burqa. Em sua música “Aura”, Gaga diz “Eu não sou uma escrava qualquer, sou uma mulher de atitude”, ela indaga o poder feminino e o traje que as mulheres tem que usar em determinada região. Isso não é apropriação cultural, mas sim, questionamentos e reflexões sobre outras culturas, sem jamais desrespeitá-las ou querer torná-las mainstream.

  • irene cibelle

    Essa matéria me deixou confusa… Apropriação cultural as vezes é desrespeitosa e outras vezes não é… e eu tenho que medir se estou ou não sendo desrespeitosa pela opinião de um grupo étnico (que pode ter opiniões divergentes)… o meu conhecimento, respeito aos símbolos e elementos não importam… Se algum membro do grupo se sentir desrespeitado, eu nao poso usar… se for assim… como saber se não estou desresepitando alguém construindo esse filtro dos sonhos?!

  • anonima

    gente essa materia me deixou confusa pakas, sou negra e na minha opinião acho que se você gosta de usar turbante e se vc é branca e sabe todo o significado se vc nao tem intençao de oprimir os negros, na minha opiniao nao é apropriaçao cultural e na maioria das vezes as pessoas nao sabem que estao ofendendo por usar um turbante e por isso acho que eles nao devem ser julgadas como muitos fazem
    tenho uma duvida tambem se eu sou negra e tenho o cabelo liso entao nao posso usar turbante?
    quando nós negras alisamos o cabelo seria uma forma de apropriaçao cultural?

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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