19 de fevereiro de 2015 | Artes, Música | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Fim de Carnaval: questões para (re) pensar

1-    O Carnaval é brasileiro?

Não, o Carnaval não vem de uma nação, mas de várias. A data tem cunho religioso e registros desde a Antiguidade. A palavra Carnaval é originária do latim: carnis levale, cujo significado é retirar a carne.  Isso é relacionado com o jejum realizado durante a quaresma católica, feito para a reflexão de prazeres e pecados. Festas pagãs de vários povos, da Babilônia a Grécia, foram apropriadas pela Igreja possivelmente para que houvesse uma data fixa onde pecar fosse possível anterior ao período da quaresma.

2-     Quando o Carnaval chegou ao Brasil?

Nos meados do século XVII, o Carnaval foi introduzido a cultura Brasileira com o modelo Europeu de comemoração, trazendo personagens como o Rei Momo e a Arlequim. Mas o acesso a festas era restrito a tinha poder econômico. Apenas no século XX surgiram as  festas populares, que tinham como ritmo as marchinhas.

Os blocos de ruas tinham participantes fantasiados e alguns carros. As escolas de samba são derivadas desse carnaval que invadia as ruas do Rio de Janeiro.  A primeira escola de samba foi a Deixa Falar de 1928.

Como o Carnaval tem em sua história registro de exclusão social e racial, não seria coerente deixar essas questões de lados, por isso resolvemos levantar algumas dessas questões.

3-     Porque o nosso Carnaval se tornou uma marca negra?

A exclusão de negros e pobres gerou manifestações que hoje são como símbolos do Carnaval nacional. As Escolas de Samba tem origem em comunidades das periferias ou favelas, de maioria negra, consequência do racismo estrutural brasileiro, possuem como ritmo principal o samba.  O samba é uma das manifestações negras mais importantes da nossa cultura e foi perseguido sistematicamente por conta da sua origem, além de ter sido taxado como coisa de “marginal. A música simples e rimada remete ao que os escravos cantavam como forma de resistência enquanto eram forçados a trabalhar.

Nem o samba nem as escolas de samba estão livres do processo de elitização, embranquecimento e apropriação. Desfilar em uma escola se tornou glamour famosos, mesmo que estes não tenham envolvimento com as comunidades.  O embranquecimento dos cantores das escolas aconteceu há anos atrás para que o samba chegasse até o patamar que tem hoje. Muitos dos sambistas negros e mulheres negras do samba são lembrados entre nós e esquecidos como grandes mestres que foram pela grande mídia.

O sistema racista cruel causa a excluí protagonistas de sua própria cultura.

4-     Como é o racismo no Carnaval?

As escolas estão desfilando em horário nobre em grandes emissoras, os camarotes dos sambódromos são disputados e tem patrocínio de marcas poderosas, os ingressos para áreas comuns são caros, as rainhas da comunidade somem para dar lugar as famosas.  Esse processo exclui a maioria pobre, que consequentemente é negra. Entre os foliões o racismo fica evidente –  é triste quando olhamos algumas fotos feitas por cima dos trios e percebemos que a maioria negra está participando sem ser incluída, porque não podem comprar o abadá e ficam fora da corda que divide aqueles com abadá e sem. É mais triste ainda porque estamos falando de uma festa com muito axé, um ritmo negro. Acho que uma das facetas que faz o racismo ainda ser tão forte na nossa vida é que ele é naturalizado e pouco questionado, só quem realmente é atingido e consciente chama atenção para isso, e está correto devido à questão do protagonismo, porem falas são abafadas e pouco levadas em consideração por quem deveria, tudo é visto como exagero e vitimismo.

O que me entristece é ver o meu povo de lado, de uma festa que se tornou o que é hoje, graças a sua colaboração cultural, ou ver ele só ser lembrado nessa época como acontece com as comunidades, que nos demais dias do ano, estão sujeitas a violência policial e não o glamour global.

5-     Dicas de sambas que trazem o negro e o racismo como foco:

Agoniza mas não morre – Nelson Sargento. 

Dona Ivone Lara – Sorriso Negro

Jorge Aragão – Identidade 

Ze Keti –  Eu sou o Samba

 Segundo Ato – Samba lá de Casa

Orgulho Negro – Jovelina Pérola Negra

Vá cuidar de sua vida – Itamar Assumpção

6- Onde encontro blocos de representatividade negra?

Pura representatividade negra e o bloco mais lindo segundo minha opinião é o Ilê Aiyê.

“Primeiro bloco afro da Brasil, nasceu no Curuzu, Liberdade, bairro de maior população negra do país, com aproximadamente 600 mil habitantes. Fundado em 1º de novembro de 1974, com o objetivo de preservar, valorizar e expandir a cultura afro-brasileira. O Ilê, ao longo de sua trajetória, vem homenageando países africanas e revoltas negras brasileiras,que contribuíram fortemente para o processo de identidade étnica e auto-estima do negro.

O Mais Belo dos Belos apropriou-se popularmente da história africana para trabalhar aconstrução da história do negro no Brasil.”

Leia mais aqui: http://www.ileaiyeoficial.com/

 

 

Stephanie Ribeiro
  • Colaboradora de Artes

Arquiteta e Urbanista, ativista feminista e escritora. Contribui com textos e artigos para diversos meios, além de participar de palestras e eventos. Trabalha em seu livro a ser lançado pela Cia das Letras em breve.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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