21 de março de 2019 | Ano 5, Edição #46 | Texto: | Ilustração: Gabriela Nolasco
Fiscalize-se

Fiscalizar, no dicionário Aurélio, diz respeito a: 1 – Exercer fiscalização sobre. 2 – Vigiar, examinar, verificar. 3 – Sindicar. 4 – Censurar. 5 – Exercer o cargo ou as funções de fiscal. Tantos significados que só burocratizam o que de fato deveria praticar: o cuidar.

Foi a falta de fiscalização que devastou Brumadinho, na região metropolitana de Belo Horizonte, Minas Gerais, no último 25 de janeiro. Por não se atentar ao cuidado com os seus funcionários, com a comunidade que a recepcionava e com o meio ambiente que proporcionava seu trabalho, a Vale aniquilou todos eles.

São cerca de 500 vidas atingidas, contando mortos, desaparecidos e resgatados. Além disso, os 12,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos espalhados com o rompimento da barragem da Mina Feijão devastaram 3.040.000 m² (304 hectares) do nosso ambiente.

Por um lucro que hoje é paralisado por indenizações a centenas de famílias, a empresa de minério ignorou esse risco socioambiental. Por experiência própria, vivida há três anos em Mariana, com o rompimento de outra barragem, a Vale sabia que teria pela frente uma gestão de crise temporária. Esquecemos fácil demais. Logo tudo isso – as cobranças, a indignação – passa, e ela volta a lucrar. Duvidam dessa deixa? Eu, não.

Não há o que descrever, aqui, que se possa fazer entender o estado que Brumadinho se encontra neste momento. Há lama, vermelha, úmida, em cada olhar que passa por você nas ruas da cidade. Os olhos lacrimejam constantemente. Dor, indignação, saudade, insegurança, medo, exaustão. Os ouvidos parecem não querer mais ouvir a realidade. O sino da igreja que anuncia mortes de conhecidos de meia em meia hora. Já pensou perder 60 pessoas do seu convívio diário? Surreal, né? Multiplique por 5. É a soma que ninguém quer mais fazer por lá.

Por falar em soma, seria melhor não ter que pensar em contas, em sustento. Como será agora, sem o principal meio de trabalho que a cidade tinha? Que, além de empregar os moradores, trazia de fora mão de obra? Aqui fica aquela reflexão piegas que repetimos desde então: quanto vale a Vale? Para os pescadores, que hoje não têm mais o que colocar na própria mesa e proporcionar aos outros, nem ela, nem nada mais tem valor.

No dia em que nós, brasileiros, levarmos a sério a necessidade de nos resguardarmos no autocuidado, levaremos adiante a necessidade da fiscalização. Quantos morreram sabendo o risco que corriam? O que puderam fazer com isso? Nada. Viam o apoio a esse capitalismo desenfreado ser maior que a racionalidade vital. E nada puderam fazer. Eles foram calados. Por necessidade, calados. Por ignorância, calados. Por medo, calados. Por confiança, calados.

Estamos à mercê de um estado público-privado que não cuida de nós. Não fiscalizaram Mariana, não fiscalizaram Brumadinho, não fiscalizaram a hidrografia do Rio de Janeiro, não fiscalizaram o Ninho do Urubu, não fiscalizaram o helicóptero que transportou Ricardo Boechat. Terra, água, fogo e ar. Todos os elementos que regem a vida pedindo seu valor. É hora do ‘fiscalizionismo’: fiscalize-se, fiscalize-o; vamos fiscalizar a fiscalização. Proteger a vida é cuidar do outro, de si e do nosso meio ambiente. E, por ora, não dá para terceirizarmos esse serviço.

Queka Barroso
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Nascida na geograficamente pequena, mas amorosamente imensa, Barroso/MG, Queka quis homenagear sua cidade colocando-a como sobrenome - o nome, aliás, é Jéssica, mas isso só no RG. Moradora de Belo Horizonte desde os cinco anos, foi na capital mineira que se formou jornalista e exerce e estuda a profissão na área esportiva - sua maior paixão. Nasceu em fevereiro, é amante do carnaval e é do signo de Peixes. Embora não tenha conhecimento sobre astrologia, sabe que tudo que falam sobre pisciano bate com sua personalidade. Queka agora escrever e transcrever as escritas de Rubem Alves (no blog Sou Muitos) e Nelson Rodrigues (em um livro ainda em construção). Na cozinha, o que não sabe fazer, sabe comer. Se for uma boa comida mineira ou coxinha então... Quando não tem jogo, certamente está assistindo Padrinhos Mágicos, Matilda ou Frozen. "Você quer brincar na neve?"

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