8 de fevereiro de 2016 | Colunas, Música, Se Liga | Texto: | Ilustração: Facebook oficial Beyonce
Formation:  O que Beyoncé tem a nos dizer sobre a luta do povo negro nos EUA.
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Fonte: Facebook Oficial Beyoncé 

Dia 6 de fevereiro, Beyoncé lançou seu novo single e clipe. No dia seguinte, durante sua apresentação no Super Bowl anunciou sua turnê mundial (Ufa, que final de semana!). Ok garotas, agora vamos ficar em formação para sabermos algumas das coisas maravilhosas que essa canção, clipe e sua performance no Super Bowl de domingo nos trouxeram.

Novo clipe de Beyoncé, “Formation”, faz referência à luta da comunidade negra dos EUA.

MÚSICA, HISTÓRIA E RACISMO

“Formation” foi dirigido pela própria, em seu novo videoclipe encontramos diversas referências à história e luta da população negra dos Estados Unidos desde a época da escravidão, até as violências policiais sofridas atualmente. A música e vídeo foram também um grito de orgulho e representatividade, uma resposta a ataques racistas sofridos pela cantora e por todos nós negros todos os dias.

O clipe foi gravado em Nova Orleans, que se situa no sul dos Estados Unidos. A história nos conta e nos lembra a cada instante como o sul dos EUA é uma região racista, com inúmeros casos de violência policial a pessoas negras, surgimento de grupos extremistas como o Ku Klux Klan, segregação racial e, por fim, inúmeras mortes do povo negro. Vale lembrar que essa região foi a última a abolir a escravidão dos negros americanos, o que já nos diz muito.

A canção faz referências a eventos históricos da comunidade negra nos EUA. Logo em seu início, a primeira frase dita é “What happened after New Orleans?” (O que aconteceu depois de Nova Orleans? – numa tradução livre) , com a voz de Messya Mya um famoso vlogger negro de Nova Orleans que em 2010 foi morto enquanto saía do chá de bebê de sua namorada e que, até hoje não se sabe exatamente quem foram os responsáveis pelo crime, o que nos mostra mais um mistério entre tantos assassinatos de pessoas negras no EUA, além disso o estilo de filmagem amadora que assistimos em alguns momentos nos lembram a mais um episódio de violência que ficou marcado nos EUA quando um taxista negro foi torturado por policiais brancos em 1991 em Los Angeles e teve todo o ato registrado por um cinegrafista amador.

Em uma parte do vídeo podemos ver um cordão de policiais com as mãos para o alto, em referência aos inúmeros casos de violência e abuso policial sofridos por negros nos últimos anos no país, ainda é possível vermos a referência ao movimento “Black Lives Matter” já que em seguida mostra-se um muro pichado com a frase “Parem de atirar em nós!”, um grito de todos os negros contra a violência policial e em especial semelhante aos gritos ecoados pela comunidade negra nas ruas de todos os Estados Unidos durante manifestações de 2014 e até hoje.

Policiais levantam as mãos para rapaz e frase “Parem de atirar em nós!’ é mostrada pichada em muro.

O clipe é composto apenas por atores negros, com exceção dos policiais. Nele, vemos negros em casas grandes e fazendas de Louisiana com vestimentas de pessoas poderosas do período colonial, naquele período nos EUA os negros eram humilhados, violentados, escravizados e jamais poderiam utilizar a mesma roupa que os senhores brancos. Ao longo do clipe vemos um homem segurando um jornal que mostra Martin Luther King Jr. na capa e o título “A Verdade” em destaque.

Durante todo o clipe, Beyoncé aparece em cima de uma viatura da polícia de Nova Orleans que esta afundando em um lago, o vídeo foi gravado na cidade e podemos entender isso tanto como uma referência ao furacão Katrina que varreu Nova Orleans e uma parte do sul dos EUA no ano de 2005 e ainda como uma referência à violência policial que a população negra local sofre. Ao final do vídeo, Beyoncé (um corpo negro) afunda na água junto à viatura policial e talvez essa tenha sido a imagem mais emblemática. Se tentarmos nos aproximar da realidade da população negra no Brasil – e por que não mundial – quantos corpos negros foram levados ou afundados por viaturas e policiais?

ORGULHO DA ESTÉTICA NEGRA

No último ano a filha de Beyoncé e Jay-Z, Blue Ivy recebeu críticas pelo seu cabelo black power, chegando ao extremo de um homem criar uma petição para que Beyoncé penteasse o cabelo de sua filha. (Os racistas não têm limite!). Na época, a cantora respondeu às críticas afirmando que não mudaria o cabelo de sua filha e em seu novo single reforçou sua resposta e o orgulho de seus traços negros. Talvez na parte mais linda da música e do clipe, enquanto Blue Ivy aparece brincando com outras crianças negras Beyoncé diz “I like my baby hair, with baby hair and afros!” (Eu gosto do cabelo da minha filha, com cabelo de bebê e afros – numa tradução livre), deixando claro mais uma vez o orgulho e amor que sente pelos traços negros de sua filha.

Blue Ivy com seu cabelo black power. A imagem do orgulho e empoderamento negro na infância.

Em seguida, enquanto faz uma dança com roupas de época nos corredores de uma casa de fazenda ela grita pela valorização da estética negra e ainda cita os Jackson 5, no trecho em que diz “I like my negro nose with Jackson 5 nostrils.” (Gosto do meu nariz negro com narinas de Jackson 5 – numa tradução livre.) Sem contarmos as dançarinas negras que a acompanham durante todo o clipe, com roupas e cabelos black power de deixar qualquer um no chão.

SUPER BOWL E O PARTIDO DAS PANTERAS NEGRAS

No dia seguinte ao lançamento desse single que deixou todos e em especial a comunidade negra sem fôlego, Beyoncé se apresentou no Super Bowl e não poderíamos esperar nada além de outro grande show de representatividade. Durante a performance ela usou um figurino que remetia a Michael Jackson e contou com suas dançarinas negras também vestidas de preto. É bom lembrarmos que domingo era comemorado o 50º Super Bowl, mas também podemos pensar na fundação do Partido dos Panteras Negras que aconteceu em 1966 exatos 50 anos atrás em Oakland, Califórnia, EUA.

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Comparação entre figurinos de Beyoncé e Michael Jackson. Fonte: Página do Facebook Beyoncé Always.

Dançarinas de Beyoncé nos remetem com seus figurinos com roupa de couro e boinas a representantes do Partido dos Panteras Negras que esse ano comemora seu 50º aniversário de fundação. Fonte: Facebook Oficial Beyoncé

As dançarinas chamaram atenção pelo figurino com cabelos black power e boinas pretas. Fonte: Facebook Oficial Beyoncé.

Bom, talvez Beyoncé nunca tenha se mostrado uma grande ativista do movimento negro, mas sua influência sobre milhares de pessoas ao redor do mundo é inegável e seu recado foi muito bem dado com seu novo single. É importante que não nos esqueçamos jamais de nossa história e origem, precisamos nos orgulhar da estética, da história e da luta de nosso povo. Todas nossas ações quando direcionadas para falar à população negra deixam de ser meros textos, penteados, letras e músicas, a música negra é um ato político e continuará sendo uma de nossas principais formas de resistência e orgulho.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

  • Aline Coelho

    Só uma correção, o clipe foi dirigido pela Melina Matsoukas. E a Beyoncé não respondeu aos ataques ao cabelo da filha dela, a “resposta” dela foi só agora na canção.

  • http://www.andreluibernardo.com André Lui Bernardo

    Parabens pela materia. Adorei!

  • Tiago Tins

    Gostei muito da sua resenha. Só queria deixar uma observação quanto aos gifs, eles geralmente prejudicam a nossa leitura porque tiram nossa atenção, fora isso, tá excelente.

  • Kyloren Lorena

    Texto maravilhoso! E está super certa a Beyoncé ao aproveitar seu reconhecimento mundial para dar um recado ao mundo inteiro. Parabéns pelo ótimo texto!

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  • Carla De Jesus

    Materia maravilhosa <3

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