6 de setembro de 2015 | Edição #18 | Texto: and | Ilustração: Helena Zelic
Fotógrafas conquistando o espaço urbano

Nós somos sempre notadas por sermos mulheres, e o que tudo isso implica. O que vestimos, nosso jeito de falar e de agir, lugares que frequentamos. São somatórias que estão na forma como as pessoas leem nossos corpos. Algumas coisas que fazemos em público, na rua, fazem com que sejamos ainda mais vistas, como por exemplo, carregar e usar uma câmera fotográfica, e é sobre isso que viemos falar.

Fazendo uma pesquisa para este texto, vi que muitas mulheres são vistas como fotógrafas amadoras lá pra 1800 e tanto – quando a fotografia já era tida como uma profissão. Mas e aí, quem decide quem é amadora ou não? A história da arte (e sim, a maior parte dos historiadores são: homens). Só o próprio acesso a ter uma câmera já era restrito às famílias ricas e burguesas. Imagina ser artista! Entre ter a câmera e fotografar seu cotidiano a ganhar dinheiro com isso tem um abismo e, além disso, um maior ainda até ser considerada uma artista. Essa questão de como o acesso e a permanência de mulheres na arte como um todo foram dificultados e impossibilitados é imensa, e também foi comentada no primeiro Leitura das Minas.

Mesmo no século XX, quando as escolas de belas artes são questionadas pelo seu formato quadrado e cheio de normas antigas (que eram totalmente excludentes) deixaram de ser tão valorizadas, e abriu-se espaço para a produção das mulheres artistas, o reconhecimento delas ainda era limitado, quando não ignorado totalmente. Por exemplo, de participantes de coletivos artísticos eram reduzidas a musas: como é o caso de Dora Maar, fotógrafa que ficou muito mais conhecida por ser amante do Pablo Picasso do que pelas suas obras (que são fantásticas), além de ser apagada pelos amigos homens surrealistas – que ficaram mais famosos. Então, fotografar e ser vista como uma artista são desafios duplos, que ainda aumentam quando se resolve também conquistar o espaço urbano.

No meio burguês, as artistas até então eram restritas aos seus espaços domésticos e privados. Com a modernidade, a expansão das cidades parece não fazer parte do mundo delas e isso é até percebido em suas obras. Na fotografia, quando as câmeras ficaram menores e portáteis, ficou mais fácil circular por diferentes ambientes e experimentar novas perspectivas (e, principalmente para as mulheres, poder não ser tão notada foi fundamental – o que é muito importante para tipos mais espontâneos, que você não quer que te vejam porque isso interferiria na foto).

Logo depois da década de 1920 começam a aparecer esses temas modernos nos trabalhos de Ilse Bing e Berenice Abbott. As mulheres passam a não só retratar o espaço público que as cerca como também a expressar como suas vidas e seus corpos são atravessados pelas cidades e ambientes, sendo excluídos ou marginalizados. É andando, estando entre pessoas, que se pode entrar em contato com os conflitos do outro, podendo haver reconhecimento, testemunho e denúncia, como nos trabalhos de Adriana Lestido, Nair Benedicto e Carrie Mae Weems.

Ilse Bing. Torre Eiffel, Paris, 1931.

Ilse Bing. Torre Eiffel, Paris, 1931.

Assim, cada vez mais podemos ver que vários espaços estão sendo conquistados por nós, mulheres. Na Fotografia – ainda bem – não está sendo diferente. Grandes fotógrafas fizeram a diferença no passado para dar base para as que estão pelas ruas agora. E a tendência é que esse ciclo não se interrompa, pois, como já podemos observar, a fotografia “de rua” também está sendo muito bem representada por nós, mulheres.

Assim como eu (Amanda), que sou fotojornalista, outras novas fotógrafas estão pelas ruas. Para falar um pouco do cenário, nada melhor do que poder saber o que algumas delas podem contar para a gente. Para isso, fiz uma entrevista com duas grandes fotógrafas, de diferentes estados. A Carol Garcia, de Salvador, e a Nina Vieira, de São Paulo. Vamos viajar um pouco nas experiências de cada uma delas?

Capitolina: Todo mundo que fotografa tem uma história pra contar sobre o início da sua trajetória. Conta pra gente como foi que iniciou a relação de vocês com a Fotografia?

Carol Garcia: Minha história com a fotografia começou na infância. Minha mãe tirava muitas fotos minhas e de minha irmã, como forma de registrar os momentos importantes – primeiro dia de aula, passeios, aniversários. Sem dúvida a minha primeira referência foi ela, Izabel Cristina. Ela não era profissional, mas tinha muita sensibilidade e guardava nossas fotos em álbuns com muito cuidado, sempre pegava pra ficarmos olhando as fotos.

Nina Vieira: Há tempos que me interesso por fotografia, mas não identificava isso muito bem até que, no curso técnico de Design (hoje chamado de Comunicação Visual) tive contato com? câmeras analógicas durante a disciplina de fotografia, minha preferida. Lembro que a magia da revelação era algo fascinante e desafiador, os momentos dentro do laboratório eram deliciosos, ali era nosso universo paralelo. Dali em diante fui me interessando mais, pesquisando e praticando.

C: Cada vez mais, estamos vendo mulheres conquistando os espaços urbanos com suas atividades. Como foi para vocês com a fotografia e o que as motivaram trabalhar com essa temática?

C.G.: No meu caso, como falei antes, o meu encontro com a fotografia só aconteceu de fato quando fui pra rua fotografar os grafiteiros. Até então, eu só via a fotografia como um hobby. Mas conforme fui mergulhando no universo do graffiti, tendo como instrumento pra isso a câmera, tudo passou a fazer mais sentido. A vontade de retratar algo em que eu acreditava – a arte de rua, o poder que os movimentos culturais têm de educar e transformar a juventude da periferia – essa fé na potência do que eu via foi o que me deu a gana de buscar o melhor ângulo, a melhor composição, o enquadramento diferente. Fui criando uma identificação com aquele mundo, fui me redescobrindo naquele universo – muito masculino na época, por sinal.

N.V.: Registro o que vejo por onde passo e acredito que tenha um pouco de mim nas imagens que registro. Nasci e cresci em um contexto completamente urbanizado e é aqui que passo boa parte do meu tempo. A minha relação com a cidade de São Paulo é de desconforto, revolta, dor; muitas vezes não me sinto parte daqui. No entanto, o que chama a atenção é a vida pulsando entre tanta dureza: manifestações culturais, relações interpessoais e a poesia diária de quem aqui sobrevive. É nesse momento que me reencontro como parte daqui.

C: De que forma vocês divulgam o trabalho de vocês? Como buscam conquistar esse espaço? Como as pessoas reagem em relação aos trabalhos de vocês na área?

C.G.: Eu acho que a maior forma de divulgar meu trabalho é ter contato com as pessoas e potencializar o que elas fazem por meio da minha fotografia. Foi assim com o graffiti, com a música e com tudo o que fotografei por acreditar, por apostar naquilo e achar importante dar visibilidade. Daí a gente faz contatos, se articula. No boca a boca a coisa ainda é muito forte. Ainda existe no fotojornalismo um certo preconceito com as fotógrafas. Ainda é um ambiente muito masculino, quando você chega numa pauta, geralmente 80% dos colegas de imagem são homens; se contar com os cinegrafistas, esse percentual aumenta. A gente sente que nem todo mundo leva fé que uma mulher vá fazer um trabalho pesado – cobertura policial, política – como um homem. Mas aos poucos vamos quebrando esses preconceitos! E acredito que as pessoas – homens e mulheres – acham bacana ver uma mulher numa profissão tão dinâmica, física – a gente carrega muito peso e anda muito!

N.V.: Meu trabalho é divulgado principalmente nas redes sociais como Facebook, Flickr e Instagram. Como registro boa parte das ações do coletivo Manifesto Crespo (e também teatro, dança e música), muitos que conhecem meu trabalho o associam às atividades de cultura negra. Busco também espaços como exposições e publicações e julgo que, ainda que seja mais restrito, esse espaço existe e é muito importante. Apesar do alcance que a internet proporciona, há pessoas com quem desejo dialogar que são acessadas através de um contato mais direto, como oficinas ou exposições em espaços de quebrada. Sou muito grata à reação das pessoas, o reconhecimento e carinho que têm pelo meu trabalho são presentes estimulantes.

C: Quais conselhos vocês dariam para quem pensa em trabalhar com fotografia voltada às questões sobre o espaço urbano?

C.G.: O primeiro conselho que acredito é estar atenta às questões do nosso espaço urbano hoje. Perceber as contradições e buscar a fotografia como um instrumento que possa chamar atenção pra isso. Não dá pra ir pra rua com medo, com vergonha. Tem que encarar e buscar sentir a rua, viver a rua. Andar na rua é uma coisa importante!  Olhar a cidade pelos diversos meios de transporte – carro, ônibus, a pé, pois cada um vai te dar pontos de vista diferentes. Não ter medo da rua. Se precaver, claro, se der faz um seguro pra sua câmera! Mas acho que o principal mesmo é buscar essa riqueza visual que o espaço urbano tem e que, mesmo suas contradições, dores, abismos, pode virar poesia em foto. Uma poesia que mobilize, que preocupe, que transforme o olhar. Mas que também dignifique quem é excluído, quem tá na rua buscando seu espaço – o(a) grafiteiro(a), o(a) trabalhador(a), o operário, o gari, a pessoa que está em situação de rua. Cada ator desse espaço tem um papel na ”escrita” da cidade.

N.V.: Permitir-se experimentar livremente é um dos exercícios mais recompensadores: é assim que mais aprendo, aguço o olhar, descubro recursos técnicos e, principalmente, atinjo resultados que me satisfazem.

Com essas dicas maravilhosas, nada melhor do que tê-las como inspiração e sair para fotografar, não acham?! Que venham mais fotógrafas para as ruas!

Amanda Oliveira
  • Coordenadora de Fotografia

Profissional desde 2009, estuda Ciências Sociais com ênfase em Antropologia na Universidade do Estado da Bahia, cursou Fotografia na Universidade Jorge Amado e realiza trabalhos na área de fotografia documental, com foco na elaboração de fotografias baseadas em suas pesquisas sobre a cultura afro-brasileira e as tradições do mar. Fotógrafa da Secretaria de Comunicação do Estado da Bahia, recebeu o prêmio de 1º lugar no VIII Salão de Fotografia do Marinha do Brasil, foi vencedora do Concurso Gil70 da Itaú Cultural, finalista na categoria Cor do 10º Concurso Leica-Fotografe, participou de seis exposições, dentre elas a "The Fifth Annual Exposure Photography Award", no Museu do Louvre, Paris e "As Charuteiras", sua primeira individual, realizada no IV SIALA (Seminário Internacional Acolhendo as Línguas Africanas) na UNEB. Além dos trabalhos anteriores, teve publicações no site da National Geographic Brasil, participações em eventos de fotografia, e em outros veículos, como em reportagem publicada na revista alemã SportBild.

Yasmin Lopes
  • Coordenadora de Poéticas
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Sociedade

Yasmin, se divide entre a graduação de Terapia Ocupacional e as ~artes~. Nasceu e vive em São Paulo, porém sonha com o mar. Não moraria em uma casa sem plantas, faz dancinhas ridículas no quarto e mantém um caderno quase-secreto de colagens e textos. Se estiver com sua câmera na mão, se basta assim - a sua única possível metade da laranja.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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