1 de dezembro de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Freaks & Geeks, a série que entendeu a juventude americana.

Freaks & Geeks (1999-2000) é uma série televisiva americana, obra dos autores Paul Feig e Judd Apatow, que foi ao ar por uma temporada antes de ser cancelada no ano 2000. Os freaks e os geeks são dois grupos de estudantes deslocados de um colégio americano em 1980. Durante o ano letivo de 1980, Lindsay Weir- “matleta” e aluna nota 10 – larga o grupo de estudos, coloca a jaqueta do exército de seu pai e faz amizade com os rebeldes da escola, os freaks, um grupo de amigos pouco interessado na vida escolar cujos membros são Daniel Desario, Nick Andopolis, Ken Miller e Kim Kelly. O irmão mais novo de Lindsay, Sam Weir, e seus amigos Neal Schweiber e Bill Haverchuck são os nerds ou geeks do colégio, impopulares, fãs de ficção científica e Bill Murray.

Existem muitos clichês em séries americanas; a queen b que dirige o carro do ano para ir à escola, atores com idade para serem professores dos personagens que interpretam, a menina de beleza estonteante que só é notada quando tira os óculos e começa a sair com o grupinho popular do colégio, um núcleo inteiro, desde o aluno impopular até a líder de torcida, com a beleza perfeita de rainhas e reis do baile de primavera. Quem espera encontrar qualquer coisa do tipo em Freaks & Geeks ficará extremamente decepcionado; essa é uma das poucas séries do gênero que retrata a verdadeira essência de uma das fases mais complicadas da vida; espinhas, roupas repetidas e adolescentes confusos com o rumo de suas existências.

Seguem abaixo três razões para assistir a essa série maravilhosa:

 

Contém spoilers leves

 

1-     Personagens pra todos os gostos e você vai se enxergar em pelo menos um deles

A televisão já nos presenteou com muitos personagens adolescentes inesquecíveis -Angela Chase, Raven Baxter, Sabrina Spellman- mas poucos provocaram um impacto tão forte em mim como os irmãos Lindsay e Sam Weir.

Os Weir carregam a responsabilidade de protagonizar a série. Além de ser apresentado às angústias inicias dos dois, o espectador conhece os personagens sob o olhar dos irmãos; as primeiras impressões de Lindsay sobre o seu novo grupo de amigos formado por Daniel, o rebelde descolado, Nick, eternamente sob o efeito da cannabis, Kim, a menina mais temida da escola e Ken, o piadista sarcástico; os sentimentos de Sam com relação a sua primeira crush – e a primeira decepção amorosa – e sua confusão ao tentar lidar com o fato de que a sua irmã mais velha, o orgulho da família, agora anda com pessoas que passam boa parte do recreio em algum canto escondido, provavelmente consumindo substâncias ilícitas; o esforço de Sam para superar o estereótipo do geek já que ele valoriza sua amizade com Bill e Neal, mas também quer ser aceito por seus colegas de escola, como qualquer outro adolescente.

Todos os personagens de Freaks & Geeks possuem um certo nível de complexidade; eles estão em constante evolução e rejeitam padrões de comportamento permanentes, coisa muito comum em outras séries do gênero. O mosaico de personalidades é variado, e até mesmo os personagens secundários conseguem mostrar caráter em suas aparições limitadas na série.

Bill Haverchuck – um menino apaixonado por televisão com opiniões bem definidas com relação ao nível de repugnância de um beijo de língua – é o meu personagem favorito. Em um primeiro momento, Bill parece existir somente para preencher o arquétipo do melhor amigo nerd e esquisito tão presente nas séries de TV. Só quando seu verdadeiro potencial é explorado que Bill demonstra ser o dono de um coração enorme, disposto a ajudar seus amigos quando necessário. E quem nunca se divertiu sozinho fazendo maratonas de seu programa favorito? (http://www.youtube.com/watch?v=cmCpmEQD0L4) Assistindo a TV com um prato de sanduíches de queijo ou fantasiado de Mulher Biônica, Bill está sempre confortável em sua própria pele.

Kim Kelly é o oposto de Lindsay; Kim é durona e vive às boas com Daniel Desario em um namoro digno de protagonizar novelas. No decorrer da série, descobrimos com Lindsay que Kim é cria de um ambiente familiar problemático e sua postura agressiva é um mecanismo de defesa.

2- Sua posição na sociedade não é estagnada

Quando se associa aos freaks, Lindsay rejeita as expectativas que a sociedade coloca sobre ela – uma aluna perfeita, com uma família estável e um futuro perfeitamente padronizado pela frente – e questiona todas as suas concepções anteriores. Isso não quer dizer que Lindsay encontra o que está procurando no novo grupo de amigos, muito pelo contrário, os freaks são só mais um passo no caminho para a sua formação pessoal.

A mudança de ares obriga Lindsay a sair de seu habitat natural, o clássico subúrbio da classe média americana povoado por gramados verdes, e conviver pela primeira vez com situações fora de sua zona de conforto; Lindsay descobre que é possível explorar novos horizontes sem o peso na consciência de conceitos pré-concebidos.

A jornada de Lindsay em Freaks & Geeks, é, acima de tudo, uma jornada de conhecimento próprio. Apesar das possíveis adversidades em seu percurso, Lindsay seguirá procurando entender quem ela é enquanto pessoa.

3- As formas diferentes de amizades e seus desdobramentos, positivos ou não.

Como um ritual de passagem de tempo, a maioria das amizades cultivadas durante a adolescência dificilmente resistem ao término da vida escolar. O fim da adolescência e o começo da vida adulta, faculdades diferentes, mudança de cidade e o amadurecimento acabam provocando o fim de relacionamentos que antes pareciam inquebráveis. A amiga de infância de Lindsay, Millie – religiosa e integrante da equipe de “matletas” – não consegue entender as mudanças de comportamento de sua antiga melhor amiga. Elas percebem que não têm mais nada em comum e, por fim, se afastam.

Por outro lado, a amizade de Lindsay e Kim Kelly é baseada nas características positivas que ambas têm a oferecer; Kim precisa da estabilidade de Lindsay que por sua vez é atraída pelo senso de liberdade de Kim. As personalidades das duas são completamente diferentes, mas a amizade delas possui uma profundidade emocional maior que o relacionamento de Lindsay e Millie.

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Saber que a série foi prematuramente cancelada me fez apreciá-la ainda mais. É claro que eu adoraria assistir aos possíveis novos rumos dos personagens mas, se a série continuasse, conseguiria manter o nível de sua temporada anterior? Impossível dizer.

Importante mesmo são os dezoito episódios que foram ao ar, cada um repleto de diálogos impagáveis, humor, atenção aos detalhes, boas atuações e profundidade emocional. Dezoito momentos geniais da televisão americana.

Giulia Fernandes
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Esportes

Giulia Fernandes, 17 anos, Rio de Janeiro, estudante. Meus interesses são: film noir, batons roxos, criptozoologia, árvores centenárias, garimpar livros e LPs, colecionar caracóis e algumas vezes outras coisas também.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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