25 de maio de 2014 | Edição #2 | Texto: | Ilustração:
Freud, Jung e a interpretação dos sonhos
Ilustração de Heleni Andrade.
Ilustração de Heleni Andrade.

Ilustração de Heleni Andrade.

Texto de Mariana Paraizo e Verônica Vilela.

Se me permitem, começaremos com uma analogia: Imagine uma árvore. Uma linda, verde, estonteante árvore. Tô viajando? Não, espera aí. Conseguimos ver o tronco dela, sua copa, mas não enxergamos sua ***totalidade maravilhinda***. Existe uma parte relevante dessa árvore que fica completamente submersa: a raiz. E o crescimento da árvore se dá assim, quanto maior fica a copa, maiores e mais fundas as raízes ficam também. A grosso modo, a mente humana é mais ou menos assim: parte dela é o consciente, que é basicamente as questões da nossa mente que ficam na superfície e que nós conseguimos, de alguma forma, enxergar. E a outra parte viria a ser o inconsciente, que é a parte da nossa árvore que fica submersa, que é obscura, da qual, obviamente, não racionalizamos, mas que está ali e diz respeito a nossa cultura, natureza e ancestralidade. Mas, diferentemente de uma árvore comum, as nossas raízes são absolutamente mais profundas e maiores que a nossa copa.

A jornada do autoconhecimento começa nessa premissa sobre a nossa mente. Ninguém começa uma jornada dessas se acredita que sua mente está INTEIRA à luz, racionalizada e que portanto você já sabe tudo sobre você mesma. Você não só não sabe, como provavelmente nunca irá saber. A jornada do autoconhecimento, portanto, não tem um destino final, ela é o fim por si, e tudo que ela pode fazer é trazer à luz da consciência elementos que estavam escondidos no inconsciente. AÍ QUE O SONHO ENTRA, MLK. O sonho é uma das formas que temos de entrar em contato com questões do inconsciente e trazê-las para a luz da consciência, entendendo, assim, melhor nós mesmas.

A Psicologia, que pode ser considerada a ciência do autoconhecimento, desde seu início enxergou a potencialidade dos sonhos nessa jornada do “si-mesmo”. Dois grandes psicólogos da era moderna, Freud e Jung, podem te ajudar na hora em que você quiser interpretar os sonhos que teve.

SIGMUND FREUD revolucionou os estudos do inconsciente ao escrever seu primeiro livro, A interpretação dos sonhos, em 1900. O fundador da psicanálise apresentava o método de relato e interpretação dos sonhos como meio mais eficiente de acesso ao inconsciente. Além disso, ele explica por que ocorrem os sonhos, como eles funcionam e a relação deles com este nosso lado oculto. Não é o conteúdo do sonho lembrado (o que ele chama de “conteúdo manifesto”) em si que daria as respostas para a investigação de Freud e sim o relato, a emersão dos pensamentos oníricos latentes, ou seja, aquilo que corresponde aos traumas e desejos mais profundos do ser-humano. Freud era CAUSALISTA, isso é, enxergava que todos os conteúdos dos sonhos eram causados por experiências anteriores, desejos e traumas.
Ao interpretar seus sonhos, Freud te aconselha a considerar que:

Seus sonhos podem estar falando de desejos: Para Freud, todo sonho tem um significado que se liga a uma realização de um desejo reprimido pela sua consciência. Normalmente esses desejos são primitivos e, portanto, essa repressão surge por serem desejos vetados pela moral vigente da cultura na qual o sujeito está inserido, ou então até mesmo por estar relacionado a questões e aspirações pessoais dele. Os sonhos então realizam esses desejos de alguma forma simbólica, para compensar essa repressão.

Seus sonhos podem estar relembrando coisas que aconteceram na véspera: Freud, por ter uma visão causalista, acredita que a maior parte das referências do seu sonho vem das lembranças recentes. Você, por exemplo, sonha que está passando por uma rua, vê uma loja de óculos e essa loja explode. Apesar de durante o sonho você não conseguir reconhecer, a rua, pode ser a rua que você passou no dia anterior, a loja de óculos pode estar remetendo à loja de óculos que você viu em um filme a uns dias atrás, e a explosão, uma lembrança da notícia que você leu no jornal de ontem sobre a explosão de um posto de gasolina.

CARL JUNG, psiquiatra, psicoterapeuta e fundador da psicologia analítica, foi por muitos anos amigo e confidente de Freud, porém, com o tempo, suas diferentes visões sobre a psicologia acabaram por afastá-los. Jung se interessava muito pelos mitos e religiões, e acreditava que nossa cultura, aquilo que durante nossa vida lemos, ouvimos e vemos, afeta nosso inconsciente de tal forma que ele cria o termo “inconsciente coletivo”, que diz respeito a toda influência da nossa cultura e ancestralidade na raiz de nossas mentes. Ao contrário de Freud, Jung possui uma abordagem FINALISTA dos sonhos, isso é, ele enxerga os pensamentos oníricos como algo que tem uma finalidade, e trabalha com suas finalidades, e não com as suas causas. Na hora de intepretar um sonho, Jung pede que você:

Perceba os símbolos nos seus sonhos: O símbolo é qualquer nome, objeto, termo, imagem, que possa nos parecer familiar mas que seu significado possa ir além do que é evidente. Por exemplo: um sofá no seu sonho pode ser só um sofá, ou pode ser um símbolo de acomodação, descanso, preguiça, relaxamento, conforto. Além dessas ligações mais comuns e coletivas que fazemos do símbolo, devemos levar muito em conta nossa percepção individual, devido à nossas experiências, sobre aquele símbolo. Se sua família tem uma loja de sofás, provavelmente a relação que você estabelece com sofás vai bem além das coisas que foram citadas logo ali em cima.

Amplifique o conteúdo dos seus sonhos: A amplificação é relacionar o conteúdo dos seus sonhos com mitos, contos de fadas, religião, arte, música, tudo que diz respeito à tradição cultural que influencia e influenciou a sua vida. Devemos usar a amplificação com muita cautela para interpretar sonhos, pois ela diz respeito somente ao conteúdo do inconsciente coletivo, e nem sempre o que você sonha está ligado ao inconsciente coletivo, às vezes são coisas mais pessoais, individuais.

Considere a função compensatória dos sonhos: Digamos que você está passando por uma fase em que está se achando a tal, melhor do que todos, a arrogância em pessoa. É muito provável que você tenha sonhos em que você é menor que todo mundo, ou que todos te acham feia, chata e burra. Esse é o momento que os sonhos podem estar exercendo, segundo Jung, sua função compensatória, isto é, dar uma equilibrada em um momento de desequilíbrio do qual você esteja passando.

LEMBRANDO QUE…
Para lembrar com mais frequência e com uma riqueza maior de detalhes dos seus sonhos, e consequentemente conseguir interpretá-los melhor, pode ser interessante criar um diário de sonhos, o que vai te ajudar inclusive a entender melhor elementos recorrentes na sua esfera onírica. Não se esqueça: Nno existem regras ou manuais para se interpretar sonhos, não tome como verdades o que vos é aconselhado, apenas aceite (se quiser, né fia, tô obrigando ninguém não) como um direcionamento.

Verônica Vilela
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Verônica V. tem 19 anos e não sabe bem onde mora, algo entre uma cama no Rio e o Universo. Estuda cinema na UFF, gosta de viver as paradas e necessita dar um retorno dessas vivências através da expressão. Posta uns desenhos sentimentais nessa página aqui: www.valsa-dos-erros.tumblr.com.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.