8 de agosto de 2014 | Edição #5 | Texto: | Ilustração:
Gabriele tocou o rebu na via láctea (ou: toda a graça e loucura dos nomes de esmalte)
esmalte.2

Ilustração: Verônica Vilela

Logo no início de Brilho eterno de uma mente sem lembranças, quando Clementine aborda Joel no trem voltando de Montauk, eles conversam sobre cores de cabelo. Ela diz que reconhece ele da livraria em que trabalha, e que talvez ele não a reconheça por causa do cabelo, que muda muito de cor. A atual é “Blue Ruin” (Ruína Azul), ela diz sem ser perguntada, e continua tagarelando e contando que essa empresa de tinturas de cabelo tem uma série de cores com nomes incríveis, tipo Red Manace (Ameaça Vermelha), Yellow Fever (Febre Amarela) e Green Revolution (Revolução Verde). Clementine acha surpreendente que alguém tenha esse emprego – de dar nome às cores – e jura que vai se demitir naquele instante e virar nomeadora de tintas de cabela. Ela até inventa um: Agent Orange (Ameaça Laranja). Enfim, é um desses diálogos aparentemente desprovidos de sentido mas totalmente relevantes que o Charlie Kaufman escreve como ninguém. Segue a cena (em péssima qualidade e sem legendas, sorry, maldito youtube) pra quem, como eu, ainda não cansou e nunca cansará desse filme.

Mas por que isso é relevante? É relevante porque eu nunca esqueci disso – das pessoas que nomeiam as cores – e não esqueci porque esse assunto vem à tona sempre vou fazer as unhas. O universo dos nomes de esmalte é infinitamente maior do que o de nomes de tinturas de cabelo, e muito mais próximo da nossa realidade também. Quem não tem pelo menos uma bolsinha cheia de vidrinhos coloridos? E quem nunca teve uma mini crise de riso com o nome de algum esmalte? Ou, no meu caso, quem nunca passou horas tentando desvendar a conexão de um nome de esmalte bizarro com a sua cor?

Samba Juliana? Gabriele? Deixa beijar? O primeiro é um recatado semitransparente, os dois últimos vermelhos abertos e ousados. Seria Juliana mais casta que Gabriela? Mas, se Juliana é casta, por que samba? E o Deixa beijar? Beijo é uma coisa quente, quentura lembra fogo, fogo lembra vermelho? Gente, eu viajo.

A verdade é que nada me diverte mais num salão de beleza do que sentar com uma maleta imensa de esmaltes no colo e ficar descobrindo novos nomes e teorias. Agora que as marcas começaram a lançar coleções temáticas a coisa ficou ainda melhor. Mas vamos voltar um pouco no passado. Os clássicos da minha adolescência talvez nem sejam mais tão queridinhos, mas eram pelo menos um pouco mais fáceis de interpretar. O Café, por exemplo, era um marrom escuro, cor de grão de café torrado. Seu amigo inseparável era o Rebu, um vinho quase preto meio translúcido que dá um ar mais fatal a qualquer coisa que você passe por baixo. O clássico Café + Rebu era usado pelas mocinhas mais ousadas, mais predispostas a causar uma confusão. Na mesma época, quem era mais discreta curtia mesmo o Via Láctea e o Renda, dois branquinhos transparentes que deixam a unha com aquele aspecto asseado e chique. E daí temos as irmãs Gabriela e Gabriele, a primeira mais fechada e a segunda mais aberta, ambas super vermelhas. Eu sempre curti mais a Gabriela, mas Gabriele era mais requisitada no salão que eu frequentava. Eu também curtia muito o combo Gabriela + Rebu, que ficava ainda mais fechado.

Daí começam as loucuras. Hahaha. To rindo do quê? To rindo não. Quer dizer, estou. Rindo dessa loucura que é um esmalte chamar Ha Ha Ha. Sim, amigas, a Colorama nos presenteia com essa pérola. E, claro, ele faz parte de uma coleção temática, no caso uma chamada “Respeitável Público”, que traz esmaltes com motivos teatrais/circenses. Haja criatividade, Brasil! Fico aqui imaginando a reunião de pauta na agência de publicidade: “Vamos lá galera, são sete esmaltes, temos seis nomes. Quem dá mais?” São 21:30h de uma sexta-feira e a estagiária, que está buscando cafezinhos desde o início da tarde e não vê a hora de sair pra tomar um drink com as amigas, tem uma crise de riso nervosa. Hahahahahaha. Gênia, está batizado o esmalte.

E o Marshmallow de Alfazema, da Risqué? (Que inclusive vem a ser uma cor muito fofa.) Vamos lá: alfazema = lavanda, lavanda é lilás, o esmalte é lilás, tudo certo. Peraí, tudo certo? Tudo certo não! E o Marshmellow? Alguém me explica a lógica do Marshmallow nessa combinação? Marshmallow = comida; alfazema = perfume. Um Marshmallow de alfazema seria, no caso, uma sobremesa com gosto de perfume. Que delícia! Só que não.

E a minha favorita no quesito especulação: a coleção 7 pecados, da Risqué. É uma paleta de vermelhos, vinhos, goiabas e rosas (percebam que esse mercado segue uma lógica muito bem definida – as santas usam branco e bege, as diabinhas usam vermelho e afins). O meu favorito dos sete é o Inveja Boa, que é um rosa bem fechado. Pra início de conversa eu ainda estou tentando entender o que vem a ser uma inveja boa. É tipo sua melhor amiga ir pra NY e você ficar pensando no quanto você gostaria de estar com ela, mas sem necessariamente desejar que a viagem dela seja pior porque você não está lá? É isso? Deve ser tipo isso. Daí ficou estabelecido que essa sensação é rosa. Ok, eu aceito.

A verdade é que estou aqui fazendo graça mas sou muito fã das pessoas que colocam nomes em cores. Porque elas me proporcionam momentos maravilhosos no salão ou em casa, rindo sozinha ou com as minhas amigas e manicures. Sempre achei que a cor do esmalte deveria refletir a nossa personalidade naquele dia. Acho chato quem usa sempre a mesma, apesar de eu ter também as minhas predileções. Mas gosto desse momento de futucar a maleta de esmaltes, de me perguntar se esse vai ser um final de semana mais calminho ou mais intenso, e aí fazer a minha escolha. Até hoje, quando quero me sentir phyna, lanço mão do Chic Pele. Quando estou rebelde mando um pretão.

Na real sou um pouco Clementine também, adoraria ser a pessoa que escolhe os nomes das cores. Vou inclusive dar a minha contribuição. Um preto cintilante que chamasse Metaaaaal \m/ (!!!!)

Então é isso, meninas. Vou ali com a Gabriela comer um Manjar de Tapioca na Capadócia.

Deixa Beijar,

L. 

Luiza S. Vilela
  • Coordenadora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Esportes
  • Revisora

Luiza S. Vilela tem 28 anos e mora no Rio, mas antes disso nasceu em São Paulo, foi criada em Vitória e viveu uma história de amor com Leeds, na Inglaterra, e outra com Providence, no Estados Unidos. Fez graduação em Letras na PUC-Rio e mestrado em Literatura e Contemporaneidade na mesma instituição. É escritora, tradutora, produtora editorial e acredita no poder da literatura acima de todas as coisas.

  • Georgia

    Hahahahahaha! Amei o texto, Luiza! E olha que nem gosto de esmaltes ou pinto a unha.
    Também queria esse emprego, parece ser show.

    • luizavilela

      <3

  • Patricia Oliveira

    Gostei! 🙂

  • Pingback: Propagandas que amamos - só que não - Capitolina()

  • Medievahllya

    Você não conhece minha coleção se azuis/verdes ainda…

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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