18 de fevereiro de 2016 | Colunas, Esportes | Texto: | Ilustração: Duds Saldanha
Galo e o desfile machista
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Vou contar um segredo, que eu sinceramente espero que o coração de todos esteja preparado. Estão sentados? Com um copo d’água na mão? Aqui vai: mulheres gostam tanto de futebol quanto homens! Não, a gente não gosta com o intuito de ver homens com porte atlético praticando um esporte, nós gostamos de torcer, analisar e sentir a mesma catarse que, veja bem, todo ser humano é capaz de sentir ao apreciar o futebol.

Agora, em pleno início de 2016, o Atlético Mineiro esqueceu que nós mulheres somos consumidoras de futebol e fez uma apresentação de camisa completamente machista, com modelos seminuas, desfilando apenas de calcinha ou biquínis, utilizando salto alto. Sério, Galo? Você realmente acha que essa é a melhor forma de atrair mulheres para comprarem os seus produtos? Não é necessário mais de 30 segundos para se chegar à resposta para essa pergunta. Isso porque ainda não cheguei na parte em que está evidente que vivemos um período de intenso debate e luta pelo fim da objetificação da mulher, pelo nosso empoderamento, e o Galo acreditou que a melhor forma de vender um produto voltado para MULHERES seria tratando o gênero como um acessório no universo do futebol.

Essa massa feminina, não apenas torcedoras do alvinegro de Minas, paga para ver jogos dos times no estádio, se preocupa com escalações, contratações, gasta um alto dinheiro comprando produtos completamente voltados para o universo masculino. Enfim, vive a vida de toda torcedora apaixonada, porém segue sendo vista como coadjuvante na arquibancada.

A Ana, também nossa colaboradora de Esportes, é torcedora do Galo e tem uma opinião bem forte sobre o assunto:

“Sou torcedora do Clube Atlético Mineiro desde que me entendo como ser humano racional. Chorei com a queda, estava no Mineirão na subida, cantei junto nas ruas com a Libertadores. Ah, e sou mulher. E nunca me senti excluída do time como organização e torcida. Sempre tive orgulho do que o Galo é para milhares de mulheres mineiras, e de suas ações. E uniformes são, é claro, uma parte disso tudo.

Uma das minhas lembranças mais queridas é do período da Lotto como patrocinadora, período no qual encontrávamos, nas lojas oficiais do Galo, não só a linha inteira do Galo em tamanhos e cortes femininos como material esportivo geral e até camisas de outros times para mulheres. Consumi bastante no período, inclusive uma terceira camisa da Fiorentina que até hoje não acreditam que eu encontrei, feminina, em uma loja.

Por tudo isso reforço o repúdio ao novo fornecedor de material esportivo do clube, que não só realizou um desfile que objetifica a torcedora, como também tem um histórico de machismo impresso em seu material produzido. Nenhum benefício que esse contrato pode trazer ao time, nenhuma contratação ou expansão, vai ter o mesmo gosto para as mulheres da torcida devido ao que esse contrato representa.”

Além disso, a DryWorld, fornecedora oficial de materiais esportivos do Atlético-MG tem nas etiquetas de alguns dos seus materiais a seguinte instrução de lavagem “Give it to your wife” (Dê para a sua esposa). Sério, é inacreditável. Ainda querem que as mulheres sosseguem o facho e não coloquem o dedo na cara de cada um apontando todos os erros desse tipo de postura.

dryworld

O futebol é algo de proporção magnânima no Brasil e mostra reflexos da nossa sociedade. Portanto, se ainda temos um clube, dito do povo, colocando mulheres apenas na condição de “musas” para satisfazer o prazer masculino, fazendo ações de marketing com caráter extremamente sexual, isso mostra o quanto ainda temos que andar. Agora, senhor Galo, se você não teve o mínimo de bom senso, não venha reclamar do famigerado “mimimi”. Nós não vamos ficar caladas mais! A paixão pelo clube pode seguir, mas a torcida feminina de qualquer clube brasileiro não se contenta mais em ser representada de forma machista e subjugada.

Em tempo: Rica Perrone tem que acabar!

rica

Camila Paula
  • Colaboradora de Esportes

Camila Paula, esses nomes que juntos compõem um nome inusitado que poderia ter sido dado por uma celebridade americana. É jornalista por formação, mas fascinada com todo conteúdo da web, porque mora dentro dela através do usucapião. Flamenguista fiel, entusiasta do vôlei, apaixonada por músicas novas e cultura negra. Principal profissão é a de piadista das redes sociais para conquistar likes. Odeia cebola e sofre bastante com isso, pois o mundo é uma ditadura deste legume.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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