6 de abril de 2016 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Game do Mês: Edna & Harvey: Harvey’s New Eyes
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Preciso fazer uma confissão: Harvey’s New Eyes me surpreendeu. E de uma forma muito, muito positiva. Comprei o game há uns anos e comecei a jogar com o simples objetivo de dar uma descansada entre jogos com campanhas de mais de 80 horas e curtir uma historinha descomprometida. O que aconteceu comigo, porém, foi que me vi mais e mais imersa numa história louca, com personagens inacreditáveis e assustadoramente bizarros. Não se deixe enganar pelos gráficos fofinhos e pela animação um tanto tosca: esse é um game para gente grande, mas essa percepção é tão sutil quanto a troca de olhos do coelho que tem nome no título. A verdade é que os elementos visuais se completam bastante bem com a história e formam um conjunto mais “creepy” do que seria imaginável à primeira vista.
A protagonista de Edna & Harvey: Harvey’s New Eyes não é nem Edna nem Harvey (como no primeiro game da série), mas Lili, uma tímida menininha de maria-chiquinhas loiras. Lili mora num orfanato comandado pela rigorosa Madre Superiora e não possui um único amigo no mundo, exceto por Edna, uma garota que – literalmente – só quer ver o mundo pegar fogo. Um dia, porém, o convento recebe a visita do Dr. Marcel, um psiquiatra conhecido por colocar crianças “na linha” de maneiras pouco ortodoxas, tornando-as mini adultos com vidas chatas e sem graça. Edna sabe que o médico está atrás dela e Lili fará todo o possível para ajudar sua amiga.
Mas seria Lili tão inocente quanto parece à primeira vista? Afinal, aonde quer que ela vá, as pessoas morrem de maneira trágica. Não que ela de fato VEJA isso: sempre que alguma tragédia acontece, simpáticos “gnomos da censura” (literalmente) pintam a área afetada com uma agradável cor rosa que impede Lili de enxergar de fato o que está diante de seus olhos e perder a inocência. Conforme o jogo se desenrola, porém, a garota vai se aproximando das vias de romper com a fachada.
Harvey’s New Eyes tem alguns elementos de Adventure, mas é, de maneira geral, um Point&Click clássico. E que Point&Click! Vi poucos jogos aproveitarem um gênero tão restrito como esse sendo de maneira tão criativa. Trata-se de um game com uma história descompromissada, mas com aquele espaço maroto para alguns momentos profundos. Não ouse levá-lo a sério, porém. É um daqueles jogos que são melhor aproveitados com um sorriso no rosto e um leve arrepio na espinha. Só ficaria melhor se a dublagem para o inglês (o original é alemão) fosse um pouquinho menos caricata e mais caprichada.
Bem, nada é perfeito. O que, no final das contas, é a mensagem de Harvey’s New Eyes. Então, se você curte Point&Click e tem, assim como eu, uma quedinha por histórias falsamente bonitinhas, não hesite. É quase injusto que este seja um game tão pouco jogado. Vale muito a pena conhecer!

O pior: A dublagem podia ser mais bem trabalhada.
O melhor: Puzzles criativos e maneiras inovadoras de se aproveitar o gênero.

Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

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