25 de novembro de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Game do Mês: Undertale

Se você joga videogame com alguma frequência, provavelmente sabe que eles são capazes de provocar um monte de emoções. Das mais óbvias, como frustração de não conseguir passar de uma fase de jeito nenhum, até algumas um pouco mais sutis como a satisfação de ter feito um combo perfeito por pura sorte. De uns tempos para cá, jogos também têm mexido com emoções mais ligadas às histórias que se propõem a contar: seja raiva de um vilão particularmente metido à besta, carinho por um personagem carismático ou mesmo uma sensação de reverência por um momento perfeito.

(a maioria de nós vai se lembrar mais da frustração, porém – via GIPHY )

Eu adoro jogos pela capacidade de nos colocar em momentos únicos – por exemplo, acho que são baixas as chances de eu me tornar uma arqueóloga daora que derrota demônios e divindades maníacas, infelizmente. Até hoje, no entanto, não lembro de ter percebido um sentimento de doçura tão grande emanando de um jogo como percebo em Undertale. Aliás, esse é um sentimento que tenho dificuldade de encontrar em outras mídias, independentemente de serem digitais ou não. Há uma tendência a romantizar o “sujeito com um lado sombrio” e certa banalização cômica da hostilidade e da inimizade em boa parte de nosso entretenimento. E se, por um lado, isso não é necessariamente algo desinteressante, por outro, limita as nossas histórias a alguns poucos modelos batidos que já vimos pela enésima vez.

Ser “doce”, porém, não significa ser bobo. Pelo contrário, significa que quando o jogo deixa de ser fofo você vai sentir com muito mais intensidade. Essa é uma coisa que boa parte das histórias “tirem-as-crianças-da-sala” esquece: em determinado momento as pessoas se dessensibilizam e mesmo a coisa mais violenta faz o seu público bocejar. Então você, como criadora, precisa usar doses cada vez mais cavalares de cenas chocantes para que alguém sinta qualquer coisa, mesmo que elas contrariem o desenvolvimento do personagem e da narrativa. É por essas e outras que me causou muito mais dor descobrir as nuances de culpa e luto de certa personagem de Steven Universe do que todas as mortes e estupros somados em Game of Thrones.

Undertale é refrescante porque nos mergulha em uma narrativa simples que aborda uma série de ideias complexas. Ele é doce, hilário e fofo, mas justamente por causa disso é que o peso do sofrimento, do medo e da culpa – quando surgem – parece… adequado. Real. Você provavelmente nunca sentiu muita coisa ao matar um soldado inimigo num jogo de tiro ou um monstrengo em um RPG porque a maioria desses jogos foram feitos de maneira a evitar que você faça muitas perguntas. A proeza do design de Undertale é justamente te levar a questionar se você não poderia fazer as coisas de uma maneira diferente. Se existe alguma alternativa, qualquer que seja, além de dizimar quem se coloca no seu caminho.

O jogo – uma sinopse rapidinha

Há muitos anos, no mundo de Undertale, houve uma grande guerra entre seres humanos e monstros. Vitoriosos, os humanos lacraram os monstros no interior de uma montanha, onde até hoje eles vivem como criaturas incapazes de chegar à superfície. Você é uma pessoinha humana que, por algum motivo, depois de um passeio na dita montanha, despencou para as profundezas desse mundo de exilados. Não demora para descobrir que você não é exatamente bem-vinda nesse lugar: os monstros querem ver o céu outra vez e precisam de uma certa quantidade de almas humanas para quebrar a barreira que os prende ali. Você, que apenas deseja voltar para casa, precisará atravessar um mundo de criaturas que têm motivos reais (e talvez justos) para te ver bater as botas.

Você pode enfrentá-los de frente, é claro; despersonalizá-los e destruí-los como em tantos outros jogos. Undertale não te impede de fazer isso. Mas você também pode fazer algo diferente: você pode se tornar amiga deles, tentar entender seus problemas e conversar. Você pode terminar uma luta sem jamais erguer a mão para alguém.

O sistema de combate – FIGHT x MERCY

Undertale é meio que uma mistureba de RPG com Adventure com Bullet-Hell. Ou em português: “um jogo no qual você anda pra caramba, sobe de nível, soluciona uns quebra-cabeças, interage com personagens e no qual as batalhas lembram aqueles jogos de naves da década de 1980, saca?”

As lutas funcionam assim: você está andando quando, de repente, um monstrengo aparece. Imediatamente uma telinha abre na qual você tem algumas opções: Lutar, Agir, Item e Piedade. “Lutar” e “Item” fazem exatamente o que sempre fizeram se você já jogou qualquer RPG por turnos, como Pokémon. É em “Agir” e “Piedade” que o sistema fica bem mais divertido.

No seu turno, quando você selecionar “Agir”, uma série de ações ligadas ao contexto do adversário vão aparecer. Cada monstro tem uma personalidade e a maneira como você pode se tornar amiga deles varia muito! O monstrinho da imagem aqui em cima, por exemplo, é um vulcão fofo que só quer levar amor por onde passa, mas não percebe que provoca queimaduras de terceiro grau no processo. Você tem que descobrir como lidar com ele: criticando-o, encorajando-o ou dando um belo de um abraço de urso! Os ataques inimigos, sua intensidade e frequência vão mudar dependendo de sua ação, e será mais fácil ou mais difícil para você desviar. Se você fizer a coisa certa, porém, dentro de “Piedade” a opção “Poupar” será desbloqueada – e você e o monstrinho poderão cada um seguir o próprio caminho intactos.

As batalhas não são tão frequentes quanto na maioria dos RPGs, sendo utilizadas mais em prol da história do que para te fazer subir de nível. Uma das coisas mais legais é que elas são muito diferentes uma das outras, refletindo a diversidade de personalidades dos monstros.

O que me lembra de dizer uma coisa importante: Undertale é muito engraçado. Eu não me lembro de já ter gargalhado tanto em um game quanto fiz com Undertale e boa parte da graça vem da personalidade dos monstros e de nossa interação com eles. É um humor gentil, no entanto, e se você não se der pelo menos uma chance de interagir com os adversários antes de tentar destruí-los vai perder parte do que torna esse um jogo tão charmoso.

A maioria dos monstros vão te atacar e você vai precisar aprender os padrões para desviar de seus golpes. Nem sempre isso é fácil, mas é justamente essa a questão: quase sempre, a saída mais rápida e direta do combate será lutar. O gameplay deixa claro para você que sair do ciclo de violência é difícil (às vezes, quase impossível). É preciso um esforço extra para ser gentil e em certo sentido é mais difícil jogar sendo 100% pacifista do que matando um ou outro personagem de vez em quando. No entanto, o universo ao seu redor se molda de acordo com as suas ações e é fácil de perceber que um mundo no qual você é uma pessoa melhor é também um mundo melhor de se viver.

Os universos paralelos

Nosso primeiríssimo contato com os monstros de Undertale é quase traumático. Você se vê encurralada por um personagem mal-intencionado, mas então é salva por uma figura maternal chamada Toriel que te coloca sob a asa, te guia e protege pelos momentos seguintes. Mamis Monstra te mostra como as coisas são resolvidas naquele mundo diferente e te encoraja a ser gentil. Ela mesma é o melhor exemplo disso e em menos de 10 minutos você já vai estar cativada pela personagem e se sentindo acolhida.

Esse início de Undertale é perfeito para estabelecer o tom do restante da narrativa. Você encontrará conflitos o tempo inteiro e personagens hostis, mas também haverá possibilidade de gentileza se você estiver disposta a procurar. Você pode, no entanto, ignorar as recomendações e ser violenta.

Como falei antes, o jogo não te impede de ser agressiva e até mesmo cruel. Mas você deve saber de antemão que isso não será visto com a banalidade padrão dos jogos. Seria um desserviço fazer spoilers, mas adianto que existem MUITOS universos possíveis dentro do universo de Undertale e que suas ações sempre geram resultados. Nós, como jogadores, com frequência pensamos que estamos acima de consequências porque “é só um jogo”. A pegada de Undertale é que ele compreende, como nenhum outro jogo que eu tenha visto antes, essa psique hipócrita do jogador – e vai usá-la contra você, se não estiver muito ligada. Sei que eu caí feito patinha.

Resumão

Eu queria continuar falando de Undertale, mas o texto já está longo o bastante! É um dos meus jogos do ano e provavelmente um dos melhores lançamentos de 2015 (senão o melhor, na minha humilde opinião). Renderia diversos textos, dependendo de nossa abordagem, mais ou menos spoileira. Preferi me focar na questão da doçura e da gentileza, mas os méritos são muitos outros.

Você pode amar Undertale pela comédia ridícula e absurda, pelos personagens carismáticos, pelo combate divertido, pelo subtexto, pela maneira como brinca com clichês de videogame e os subverte, e, é claro, pela trilha sonora maravilhosa.

O jogo é relativamente curto (você deve terminá-lo em cerca de 5 a 7 horas), mas pode ser jogado muitas vezes para se ver finais e reações diferentes. Está disponível com o próprio desenvolvedor  e na Steam pelo preço justo de R$19,99. Há também uma versão demo gratuita, caso você cultive o bom hábito de testar as coisas antes de abrir a carteira. Se puder, trate de pelo menos dar uma chance para Undertale. Vai ser a coisa mais diferente que você jogou esse ano, no mínimo.

O pior: Se você liga muito para gráficos de última geração provavelmente vai ficar decepcionada com a simplicidade dos de Undertale. A direção de arte é boa, no entanto.

O melhor: Jogo com sistema de combate inteligente, foco no humor e possibilidades de ação não violenta. E a trilha sonora. E os personagens. E o fato de ser inclusivo! E TUDO!?!?!

Lembre-se: jamais perca a D E T E R M I N A Ç Ã O.

 

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Vanessa Raposo
  • Coordenadora de Tech & Games

Vanessa é carioca, mas aos 25 anos sente que o mundo é grande demais para se pertencer a só um lugar. Por isso, passa boa parte do tempo em paisagens imaginárias e planejando suas próximas viagens - que podem ou não acontecer (“As passagens pra Plutão ainda estão disponíveis, moço?”). Gosta de filmes da Disney e de musicais mais do que dizem ser aconselhável para sua idade. Quando não está pseudofilosofando sobre o papel dos videogames na cultura pop, pode ser encontrada debruçada sobre seu laptop, arrancando os cabelos por alguma história que cisma em não querer ser escrita. 

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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