11 de junho de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Isadora Maríllia
Game do Mês: Broken Age

Imagine um dia acordar numa pequenina cidade, longe do caos, do barulho, da vida de cidade grande que a maioria de nós está acostumada. A cidade é bonitinha, daquelas que cheiram a fogão a lenha e a bolo, amanhecem cobertas de orvalho e todos dormem ao som dos grilos. Imagine, agora, que você foi escolhida para ser oferenda a um monstro – o grande Mog Chothra –, que visita a cidade sempre que está com fome. Para a população, ser escolhida como banquete para o monstro é algo a se orgulhar, afinal, você estaria salvando a cidade. Imagine, então, que você decide dar um basta nessa situação e matar o tal monstro. Ninguém nunca mais iria ser sacrificado! Mas não há quem concorde com a sua ideia, e você está completamente sozinha nessa luta. Como iria agir?

Agora, imagine um dia acordar dentro de uma grande nave espacial. Nela, você encontra tudo o que quer, comida, diversão, uma boa cama. Imagine, porém, que o computador que controla a nave diz ser… a sua mãe? Apesar do conforto, a sua vida é monótona. O tal computador não te deixa em paz, controla todas as suas ações, te observa 24 horas por dia. A sua vida é uma mentira. Pra que comida, diversão e uma cama quentinha se você não pode fazer nada por conta própria? Imagine, então, que um dia você descobre um lugar secreto. Lá, encontra um ser fantasiado de lobo que diz querer te ajudar… O que aconteceria com você agora?

Essas histórias realmente existem e você pode participar delas.

Foto: divulgação

Broken Age é um video game recém-lançado para Microsoft Windows, Mac OS X e Linux. O criador, Tim Schafer, estreou a proposta no Kickstarter, um site em que pessoas podem apoiar ideias financeiramente, o tal do crowdfunding. Apesar da proposta ter uma meta de 400 mil dólares, o projeto conseguiu arrecadar mais de 3 milhões, se tornando o video game com mais apoiadores financeiros independentes.

Ao adentrar no mundo de Broken Age nós vivemos as duas histórias. A primeira é a aventura de uma garota chamada Vella que se rebela contra uma tradição de sua cidade. A segunda história é vivida por Shay, um adolescente que viveu a vida inteira dentro de uma nave.  Quando jogamos, nós acordamos num mundo diferente e, através do point-and-click, nós o exploramos livremente. Podemos andar pela terra, analisar todos os objetos, falar com quem desejamos e, dessa maneira, ir construindo, junto com a personagem, a sua (nossa?) história.  Muitos consideram um jogo bastante old school, afinal, ele inova pouco na maneira de jogar. Mas nem por isso deixa de ser uma experiência fascinante. Quando joguei Broken Age, me senti dentro de um grande livro de fábulas, daqueles bem antigos e poeirentos, mas que contem histórias riquíssimas.

No decorrer do jogo, nós encaramos diversos desafios que precisamos resolver para continuar a história. Alguns bastante difíceis; fiquei horas as vezes tentando descobrir o que eu tinha que fazer, andando de um lado para o outro para tentar entender onde foi que me perdi (ok, vários gamers falaram que esse jogo é fácil pra dedeu, mas eu, como sou sincera, digo que achei dificinho, sim). Pessoalmente, eu adoro jogos que me fazem pensar e pensar de novo, em que eu tenho que ficar encarando a tela do computador sem saber o que fazer e, simplesmente, tentar lembrar de toda a história para encontrar o caminho certo para que o jogo continue.

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Foto: reprodução

Ao jogar, você pode variar livremente entre as duas histórias, apesar de elas não possuírem conexão alguma aparentemente. Eu, por exemplo, me apaixonei pela história de Vella. No começo, me senti dentro de uma espécie de Jogos Vorazes, em que eu tinha que arranjar um jeito de sobreviver E acabar com essa palhaçada que mata meninas todos os anos. Repleta de girl power, Vella encara algo que deixaria qualquer um aterrorizado, afinal, o mostro é realmente muito grande e assustador. A historia de Vella diz um pouquinho sobre nós mesmas. Encarar monstros sozinhas, lutar contra ideais da sociedade… nós todas passamos por isso na adolescência, não passamos? E, como Vella o faz, o importante é realmente seguir com o que acreditamos e enfrentar os nossos medos. Como não me apaixonar por ela?

Em contraste com a incrível história de Vella, a de Shay pode deixar a desejar. Eu, pessoalmente, não vejo graça em jogar com um menino mimado criado à leite com pera e “sucrilhos no prato”. Mas talvez, mais que mimado, Shay seja somente bastante ingênuo. Ao escapar de sua mãe, Shay segue as ordens do lobo e começa a ajudar a salvar criaturas inocentes que estão supostamente “em perigo”. Novamente, ele não percebe o que está realmente acontecendo ao seu redor… Não questiona porque estão fazendo aquilo, não questiona as ordens do lobo, não questiona a realidade em que está vivendo. Dá vontade de dar uma grande chacoalhada nele: “Acorda, garoto!!”. Ademais, a persona de Shay contrasta bastante com a figura masculina nos games. Ao invés de forte, livre, corajoso, ousado, o famoso “machão”, Shay é ingênuo, manipulado, pouco intuitivo e, por isso, talvez mais próximo do real. Uma personagem como ele no mundo dos videos games também pode ser inovador.

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Foto: reprodução

A arte do jogo contribui bastante para formar um ambiente de sonho, ficção… Toda elaborada pelo ilustrador Nathan Stapley (tá aqui o Tumblr dele pra quem quiser dar uma olhadinha nessas ilustrações incríveis.), os personagens, os cenários, possuem um tom de pintura, cores pasteis agradáveis, tudo quase que infantil. O jogo, indo contra a corrente, ainda aposta no visual 2D, contribuindo para essa sensação que temos ao jogar de ter mergulhado por completo em um livro de contos de fadas. E confesso que às vezes fica difícil de saber quando jogar ou assistir aos pequenos filminhos que ajudam a compor a história.

Apesar do jogo ser em inglês, o dublador de Shay é nosso incrível amigo Frodo! (Ele mesmo, o Elijah Wood.) E Masasa Moyo é a menina que faz a voz fofa e gentil da nossa querida Vella. Jack Black também participa da dublagem, interpretando um guru religioso maluco das nuvens. A trilha sonora foi feita por Peter McConnell, que é o músico que faz as trilhas de praticamente todos os jogos de Star Wars! Eu não sabia quem ele era, mas ao dar um Google básico descobri isso e achei simplesmente incrível. A trilha sonora é uma misturinha de instrumentos fofos, como marimbas, xilofones, pianinhos, alternando com alguns violinos e saxofones revoltados em cenas mais tensas. Mas tudo tão suave, tão gostosinho de ouvir. Me senti num mundo mágico.

Broken Age merece a experiência de ser jogado. Talvez não traga muita adrenalina, talvez algumas pessoas possam o achar entediante. Mas, pra mim, ser cativada por uma boa história já vale o jogo. E a história ainda não acabou! Somente a primeira parte está disponível e o jogo acaba naquele exato instante que você exclama “meu deus! e agora?”.

É.. então, e agora?

O PIOR: Inova pouco no Gameplay… e o jogo é tão curtinho!

O MELHOR: A história, a animação, a ilustração, a trilha sonora é de cair o queixo. Pode baixar direto no computador e daqui a pouco será lançado pra iOS e Android.

 

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

  • Verônica Vilela

    caralho que visual mais lindo desse jogo

  • Emily

    Gente, eu nunca tive muito interesse por games, mas essa coluna tá despertando em mim a cada publicação uma vontade de jogar! Obrigada por mostrarem que tecnologia e jogos também são pra meninas <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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