21 de julho de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Game do Mês: Starseed Pilgrim
Ilustração: Beatriz H.M. Leite

Ilustração: Beatriz H.M. Leite

O céu está morrendo. Tá chorando. Você é uma jardineira com um pedaço de terra cada vez menor: a escuridão toma conta de tudo. Sua tela está, no literal, em branco. Starseed Pilgrim é assim, poético.

É um jogo sobre explorar o desconhecido. Você é cercada por um zumbido incômodo em um ambiente hostil, um quadrado que flutua no vazio e é consumido por um vazio ainda maior. Seu coração aperta, você anda de um lado para o outro, pula, cava um pedaço de terra – usa tudo aquilo que ele te ensinou e descobre que não entendeu nada. É uma experiência, você experimenta uma semente, nasce um som e um bloco. Outra semente, outro bloco e outro som, outra cor! Cada uma delas desabrocha e preenche o espaço com diferentes formas e propriedades que só semeando você descobre quais serão. Fica tudo mais bonito, mas o buraco negro não se compadece e segue engolindo tudo o que vem pela frente. Você cai no infinito e volta para casa.

O jogo vai continuar assim pelos próximos dez, quinze, vinte minutos, uma hora até você começar a decifrar alguma coisa. Não vale desistir ou recorrer ao walkthrough, o melhor da viagem é o caminho, lembra? Eu prometo que vale a pena. Cada descoberta é tão gratificante quanto árdua.

É tudo intuitivo e mecanicamente simples, você não precisa de horas de experiência prévia com videogames. Ouso dizer que elas só atrapalhariam: quem joga se habitua a perseguir um objetivo, terminar a fase, passar de nível, zerar o jogo; e o que Starseed Pilgrim propõe não é nada disso. Tem um pouco de roguelike, sandbox e ainda que se enquadre dentro de um gênero tradicional como o puzzle, a dinâmica ofertada é inusitada. É um respiro dentre uma infinidade de jogos óbvios e remakes. Quando você abriu o Candy Crush já sabia exatamente o que fazer, a fórmula é a mesma do Bejeweled, que por sua vez é a mesma do Shariki, um jogo russo de DOS de 1994. Quem já jogou Doom joga qualquer FPS. Se por um lado a exploração ostensiva dos mesmos moldes trouxe jogos incríveis e fez maravilhas pela indústria, por outro, continua a manter longe quem não é cativado eles. Ir além do Need For Speed, pensar fora da caixa e aproximar audiências diversas é acreditar no potencial do videogame.

Starseed Pilgrim provocou reações das mais antagônicas de público e crítica, há quem diga que é pretensioso demais, quem não entende nada, quem se apaixona. O meu caso é de amor. A narrativa aparentemente solta é delicada e muito bem amarrada com todos os elementos, passando pela mecânica, ritmo, arte e som. “É um jogo sobre tecer um jardim sinfônico, explorar o espaço e abraçar o destino”, diz a descrição do próprio jogo. É também sobre solidão, perda e processo; estar desnorteada e experienciar o prazer das recompensas não instantâneas em tempos (e jogos) tão impacientes. É a revogação definitiva da ideia de que joguinho é tudo igual e sem graça, e indicado especialmente para quem teima nessa ideia.

Eu não posso revelar mais do que já fiz ou estrago toda experiência que espero que você tenha. É uma daquelas coisas que você precisa viver para entender.

O jogo é do Droquen, a arte do Renton (Mert Batirbaygil) e a música do Ryan Roth, foi um do Independent Games Festival 2013 e pode ser comprado por $6. É compatível com Windows e OS X (como aplicativo não autorizado).

O PIOR: É difícil, frustra, requer tempo e dedicação – nada de jogar com o Facebook aberto ou ouvindo as playlists da Capitolina.

O MELHOR: É difícil (sim!), sensível, imersivo e sinestésico.

 

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

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