22 de outubro de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Game do Mês: Tampon Run
Imagem: Tampon Run. Reprodução.
Imagem: Tampon Run. Reprodução.

Imagem: Tampon Run. Reprodução.

Foi-se o tempo em que só se falava em menstruação pra reclamar da TPM ou na consulta ginecológica. Menstruação virou videogame.

Tampon Run é fruto do Girls Who Code, uma iniciativa irada de inserção de meninas adolescentes no mundo tech. E quando eu digo “meninas”, acredite, são meninas mesmo: Andrea “Andy” Gonzales e Sophie Houser têm, respectivamente, 16 e 17 anos e já chegaram causando no rolê. Apostaram no público negligenciado pelos videogames, ou nelas mesmas, e substituíram os heróis por heroínas e as armas por… tampões! Absorventes internos.

O jogo é bastante simples: um endless runner (aqueles jogos em que a tela rola lateralmente sem fim até que você perca e o fim chegue) onde você coleciona tampões-munição para se proteger dos seus inimigos até que seu ciclo lunar termine. Bastam duas teclas, o “espaço” e o “para cima”, para dominar a mecânica. A trilha sonora é legal e acompanha o clima dos gráficos 8bit.

O brilho, o tchã  do jogo é inquestionavelmente sua ousadia temática. Como ele mesmo coloca, “a maioria das mulheres menstrua durante grande parte da vida” e “ainda assim a maioria das pessoas, homens e mulheres, se sentem desconfortáveis falando sobre qualquer coisa que tenha a ver com menstruação”. Desestigmatizar nossos corpos é o primeiro passo em direção ao amor próprio. Enquanto a indústria do videogame tenta nos dizer que nós não pertencemos aquele espaço, a indústria farmacêutica e cosmética nos diz que nossos corpos também não nos pertencem. Não cola mais a propaganda de absorvente do líquido estéril azul, o sangue que corre é vermelho. Tem cheiro, smells like teen spirit. Reconhecer e conhecer nossos processos é empoderar-se de quem se é sem tabu e sem vergonha. Sim, nós menstruamos e sim, nós falamos e jogamos isso.

O jogo é um sucesso de crítica e uma polêmica entre o público, o que já era de se esperar. Nessa última semana, o mundo gamer chacoalhou com o cancelamento de uma palestra da Anita Sarkeesian, conhecida pela (recomendadíssima) série Tropes vs. Women in Video Games. Ela recebeu uma ameaça de um gamer/hater fervoroso prometendo um “massacre no estilo Montreal” caso o evento fosse realizado. Anita é feminista e o incidente de Montreal, que tomou a vida de 14 mulheres em 1989, foi declaradamente um ataque ao feminismo. É nesse contexto (pesado, eu sei) que o Tampon Run aparece e é também tão importante. Um jogo sobre menstruação idealizado e executado por duas garotas é uma baita duma maneira de dizer que, de novo, sim, nós estamos aqui.

Dica de amiga capitolínica: ficou inspirada e com vontade? Dá uma olhada nesses cursos aqui, todos online e na faixa.

Carolina Stary
  • Ex-colaboradora de Tech & Games

  • Nadja Pereira

    Obrigada pelo post. :)

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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