26 de agosto de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Isadora Carangi
Game do Mês: Thomas was Alone

Thomas estava sozinho. Com este estranho pensamento inicia-se uma jornada de descoberta, pulos e amizade, no maravilhoso puzzle de plataforma indie de Mike Bithell, maravilhosamente narrado por Danny Wallace e com trilha sonora de David Housden.

Thomas-AT-23-6-12 é um programa de inteligência artificial (AI) que adquire consciência e, a partir deste momento, passa a explorar o universo no qual vive. Como uma criança, colocando tudo na boca para saber que gosto tem, Thomas descobre que ao entrar num portal que possui o seu formato, ele é transportado para um nível mais alto, no qual as dificuldades vão modificando e, para sua surpresa, ele descobre que não estava sozinho afinal.

Thomas é sua referência de AI. O que ele faz – que é, basicamente, pular – você deduz que as demais AIs também fazem. É curiosa essa perspectiva, pois, na vida, somos nossa própria referência de pessoa. Se sentimos dor, imaginamos que outros também sentem. Se enxergamos um objeto como verde, imaginamos que todos enxergam como verde também (até chegar aquele indivíduo encrencando que é azul).

Você e Thomas descobrem o mundo juntos e, ao encontrar as demais AIs, seu referencial é sempre um retângulo vermelho que pula alto e é descrito como curioso e observador obsessivo.  Ao encontrar Chris, no entanto, nos deparamos com um quadrado, muito rabugento e que não consegue pular muito bem. A princípio ele não gosta de Thomas, o acha exibido com seus pulos extravagantes, mas acaba criando um laço com o vermelhinho.

A minha primeira reação foi simplesmente achar que Thomas é o herói, portanto, possui habilidades melhores. Mas aí entram os demais personagens: John, um retângulo extremamente alto que pula ainda mais alto que Thomas; Claire, um quadrado grande que não pula quase nada mas sobrevive dentro “d’água”; Laura, que serve de trampolim para impulsionar os pulos dos amiguinhos, entre outros.

O que esses personagens acrescentam? Bom, para começar, dificuldade. Com as diferentes habilidades e formatos das personagens, as peças ficam mais complexas, evitando que o jogo se torne repetitivo. Mas, para além da jogabilidade, os personagens conseguem criar uma analogia fantástica com pessoas.

Sim, você vai amar e se identificar com estas figuras geométricas! John é o clássico atleta vaidoso. Ele até quer ajudar os outros, mas está sempre muito preocupado com sua aparência. Claire tem complexos, pois ela não é esbelta como as demais AIs. Em sua primeira aparição, Claire está desistindo de viver até descobrir que tem um superpoder que a torna mais especial que qualquer retângulo pulador! Laura, por sua vez, teme que descubram que ela serve de trampolim, pois não gosta da ideia de ser usada por suas habilidades.

Cada traço de personalidade está ligado a seus estereótipos (sei que é complicado imaginar estereótipos em quadrados e retângulos, mas acreditem em mim) e a suas habilidades especiais, de forma que as relações criadas a partir da narrativa podem facilmente servir para relações pessoais humanas, abrindo um questionamento do que é, afinal, “ser humano”.

Eu poderia passar uma vida falando de Thomas was Alone, pois é daqueles jogos que, ao terminar, você simplesmente não sabe o que fazer! Mas vou parar por aqui, deixando vocês com este trailer maravilhoso que demonstra como Thomas was Alone é um jogo com diversos trunfos.

 

Lúcia Dos Reis
  • Coordenadora de Social Media
  • Colaboradora de Tech & Games
  • Colaboradora de Literatura

Lúcia dos Reis, pequena em tamanho e gigante em ambições. Não sabe se isso é bom ou ruim, mas tampouco se importa. Vive entre letras e códigos, entre o papel e o pixel. Ganhou aplausos na FLIP 2015 com comentário feminista sobre Star Wars e queria deixar isso registrado em algum lugar desse mundo maravilhoso das interwebs.

  • Arilus

    Muito bem sacado. Coisas assim que tornam o cenário do indie game interessantíssimo.
    Belo texto, que venham os próximos!

  • Fábio Galdino

    Nunca pensei que ia me apaixonar por diferentes tipos de quadrados <3 Eles têm mais personalidade que muito personagem humano em outros jogos.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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