22 de abril de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Game do Mês: Year Walk

Eu sempre achei que videogame e literatura tinham muito a ver um com o outro. Diferentemente de filmes e séries, em que nós podemos soltar a mente e simplesmente nos deixar levar pela maré, tanto livros como games demandam certo esforço por parte de quem está em contato com o meio.

Ao ler um romance, nós precisamos dar rostos a personagens, construir cenários, imaginar ações e acontecimentos. O livro obriga o leitor a edificar em sua mente um mundo com que nunca teve contato a não ser com palavras. Frases e parágrafos ganham vida diante de nós, frutos da nossa própria imaginação. Nos videogames, a parte estética pode estar toda lá, mas a história é um vácuo. Nós vivemos o presente, porém o futuro é desconhecido. E não basta passar a página para seguir em frente: é preciso entender o que está acontecendo, ir atrás e concluir objetivos para, assim, continuar a história.

Alguns videogames se parecem mais com livros que o normal. Esse é o caso de Broken Age, um jogo cujo review já fiz por aqui, e também é o caso do game que nós vamos comentar hoje, o Year Walk.

O jogo foi criado baseado numa tradição sueca, o Årsgån (que é traduzido em inglês como year walk e, em português, podemos entender algo como “a caminhada do ano”). Aqueles que decidissem enfrentar esse ritual seriam “abençoados” com vislumbres do futuro. Para Årsgångar é preciso esperar o momento certo para a realização do rito: geralmente esse momento é anterior a um grande evento, como a noite de Natal ou a virada do ano. O sujeito que resolvesse realizar a caminhada teria que se trancar em um quarto escuro por um dia, sem comer, nem beber, e, quando os sinos marcassem meia-noite, era preciso andar até a igreja mais próxima e girar três vezes em torno dela. Dessa maneira, o praticante da caminhada perderia a cristandade por um certo período de tempo. Seres imaginários surgiriam e desafiariam o andador e, se a pessoa conseguisse resolver cada um dos desafios, poderia ter visões do futuro.

Ao jogarmos Year Walk, assumimos a visão de Daniel Svensson, um moço que resolve tentar a caminhada para descobrir o futuro da sua relação com Stina, uma mulher por quem ele diz estar apaixonado. Durante a sua (nossa) caminhada, Daniel encontra cavalos falantes, espíritos da floresta, bonecas assustadoras; cada um propondo algum tipo de desafio a ser cumprido. O nosso objetivo é descobrir a resposta para cada charada, investigar o ambiente e encontrar a igreja onde aboliremos a nossa cristandade.

O jogo foi inicialmente desenvolvido para o sistema iOS, porém saiu para Steam recentemente. Eu comprei o game para ser jogado no iPad (aliás, é bem baratinho, certa de 6 doláres e vale total a pena). Year Walk explora tudo que o iPad tem a oferecer, brinca com a sensibilidade da tela, com a mobilidade do tablet, entre outros aspectos. Eu nunca tinha jogado algo para iPad que explorasse tanto as possibilidade dessa tecnologia, que nem sempre é considerado um “console” propriamente dito.

Imagem: Year Walk. Divulgação.

Imagem: Year Walk. Divulgação.

Após o término do jogo, é possível baixar um segundo app (de graça) que inclui informações adicionais sobre as lendas suecas que construíram a história de Year Walk. Não quero dar muitos spoilers, mas, para despertar ainda mais a sua curiosidade, vou afirmar que os dois aplicativos conversam e que, sim, existe um final alternativo para o jogo! As informações obtidas no segundo aplicativo podem ser utilizadas para reformular a história que acabamos de concluir ao terminar “a primeira etapa” de Year Walk.

Resumindo: Year Walk é um jogo de mistérios. Se você não jogar com um caderninho do lado, anotando códigos, pistas, mensagens, posso te dizer que não vai rolar. Sempre gostei de jogos assim.

O jogo é bem curtinho. Acho que consegui acabar tudo em duas horas, por isso é até difícil falar muito sobre ele sem ficar dando dicas e te introduzindo demais nesse miniuniverso. Então acho que a única coisa que eu tenho dizer é: não tem desculpa para não jogar! Year Walk é o tipo de jogo que dá friozinho na barriga, atualiza a gente em mitologia sueca e ainda diverte bastante.

O PIOR: Por que tão curtinho? 

O MELHOR: Primeira pessoa, desafios, gráficos lindos, história sensacional.

 

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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