15 de janeiro de 2015 | Ano 1, Edição #10 | Texto: , , and | Ilustração: Isadora M.
Ganhando poder sobre nossos corpos

 

Apesar da palavra empoderamento estar sendo usada bastante nesses últimos tempos, vocês sabem exatamente o que ela significa e o que é empoderar-se de alguma coisa?

Segundo a Wikipédia, no verbete sobre empowerment – ou empoderamento, em português:

Empoderamento social é frequentemente ligado a membros de grupos que por um processo discriminatório foram excluídos do processo de tomadas de decisões, por exemplo, discrimação baseada em incapacidade, raça, etnia, religião ou gênero. Empoderamento como uma metodologia é fortemente associado ao feminismo.

Ou seja, empoderamento vem de uma ideia muito simples: uma pessoa socialmente oprimida que toma para si, através de alguma atitude qualquer, poder sobre algo que nunca teve.

Um ótimo exemplo para discutir tudo isso é a relação das mulheres com seus corpos e também a relação das pessoas com a figura feminina. É impressionante, mas em pleno 2015, mulheres ainda não têm pleno direito sobre seus próprios corpos.

Isso acontece de tantas formas que poderíamos passar o resto do texto fazendo uma lista de situações em que nós mulheres temos nossos direitos negados ou questionados. Mas com relação à nossa aparência, esse pleno direito é tirado de nós de maneiras muitas vezes bastante sutis: toda vez que alguém faz algum comentário sobre nossa aparência, ou quando recebemos olhares esquisitos por estarmos com pernas peludas ou usando batom azul com glitter, ou mostrando pele “demais”, ou quando recebemos cantadas completamente aleatórias e ofensivas de estranhos ou pessoas conhecidas.

Essas opiniões sobre nossa aparência em quase todos os casos vêm de maneiras não solicitadas. O homem que te falou grosseria na rua no outro dia, falou porque acha que a opinião dele, que nunca foi perguntada, vale alguma coisa. Fala porque acha que tem o direito de validar ou não a sua aparência.

Isso significa que as pessoas acreditam de fato que é de interesse delas como você é ou como você se veste, que seu corpo precisa de alguma maneira agradá-las ou não ofendê-las e que é direito delas transmitir seus julgamentos para você. De forma geral, mulheres vivem situações assim quase todos os dias de suas vidas, mulheres são constantemente reguladas. Você já deve ter visto matérias na internet ou em revistas criticando o corpo de mulheres famosas, dizendo o quão eles eram ou não corpos para irem à praia, o quão eram perfeitos ou não. Como se curtir a praia não fosse um direito de todos e que ninguém tem nada a ver com a vida do outro.

Então, quando mulheres fazem alguma coisa com seus próprios corpos que fazem senti-las ótimas e em pleno poder sobre elas mesmas, isso é o que chamamos empoderamento. Apropriar um corpo que tanta gente acha que tem direito de regular é em si um ato de empoderamento.

De uma maneira mais prática, podemos usar o exemplo daquelas meninas que deixaram de depilar as axilas. Nós, mulheres e meninas crescemos sabendo que não devemos ter pelos, que eles não são femininos e são desagradáveis. O empoderar-se do seu próprio corpo é quando paramos para questionar certos padrões e normas.

Eu me depilo porque eu quero ou porque me disseram a vida toda que eu deveria fazê-lo? Eu realmente me importo em não estar depilada? Eu gosto de me depilar? Por que os homens podem e são celebrados por ostentarem pelos?

Ao se fazer essas perguntas ou perguntas parecidas podemos chegar a diversas respostas. Algumas meninas deixam de depilar as axilas, podemos chamar esse feito de empoderar-se do seu próprio corpo, elas estão tomando a decisão por elas mesmas. Mas aquelas que também passam por esses questionamentos e decidem continuar a se depilar, também passam por esse processo de empoderamento. Esse questionar, refletir e tomar a decisão por si mesmo, colocar nosso corpo segundo nossas regras é empoderar-se!

Tudo isso para resumir que: se alguém está tentando determinar que se depilar (ou não) é se empoderar ou que se maquiar (ou não) é se empoderar, essa pessoa está também te regulando. Em suma, o que te empodera só você mesma pode dizer, porque diz respeito a um sentimento muito pessoal de apropriar-se de algo que é tirado de você. Não se depilar ou não se maquiar e se sentir plenamente bem com isso é um grito de liberdade. Criticar os padrões de beleza que exigem que mulheres sempre se depilem e se maquiem “direito”, por exemplo, é sempre essencial se quisermos um mundo mas livre, mas criticar as mulheres que fazem essas coisas, não. O mais importante é como as mulheres se sentem, e elas podem e devem fazer qualquer coisa que fará com que se sintam donas de si.

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

Beatriz H. M. Leite
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Beatriz H. M. Leite, 21, é paulistana e mora em Buenos Aires. Além de cartas não enviadas, coleciona cartões-postais e histórias dignas de novela mexicana.

Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

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