15 de março de 2015 | Ano 1, Edição #12 | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Geração Rivotril

Rivotril, Dormonid, Prozac, Lexapro, Lexotan, Frontal… Com certeza você já ouviu falar de algum destes remédios. O que todos têm em comum? São todos remédios controlados (ou seja, que necessitam de receita para serem comprados) e usados para tratar transtornos como depressão e crises de ansiedade, entre tantos outros conhecidos por aí. Ultimamente está havendo um boom no conhecimento e uso destes medicamentos, mas será  que isso é realmente um aumento da prescrição dos mesmos por necessidade ou a depressão foi generalizada como doença de todos?

Há algumas décadas era tabu dizer que se tomava antidepressivos ou ansiolíticos (nome dado a remédios que tratam distúrbios e diminuem crises de ansiedade). A pessoa era olhada pela sociedade como um indivíduo fora do padrão, sendo chamada de “louca”, termo de extrema negatividade na época em questão. Isso mudou drasticamente ao longo dos anos. Quanto mais as pessoas “admitiam” ter depressão, mais as pessoas que viviam consumidas por seus transtornos, escondidas em casa, começaram a buscar ajuda e tratamento. Hoje em dia, diminuiu muito o número de pessoas que sentem vergonha ou se sentem mal por precisar de ajuda de um remédio controlado. A minha questão maior é analisarmos se esse aumento vem de uma procura maior de quem não procurava antes, se as pessoas estão indo ao médico alegando depressão para receber uma “pílula da felicidade” ou se esses transtornos já são um mal do século em que vivemos, com todos os padrões societários que estamos nos acostumando a ter.

Que a vida está mais rápida, todos nós sabemos que está. A velocidade em que a tecnologia aparece, em que as notícias viram notícias e depois seguem para o esquecimento, as rotinas mais e mais agitadas, a necessidade de trabalhar 24 horas por dia, 7 dias por semana. Tudo isso torna nossa vida um pouco mais difícil de lidar. Os prazos, a pressão imposta, a necessidade de ser sempre melhor, nós acabamos por nos cobrar mais do que podemos em muitas das vezes. Isso desencadeia uma reação não tão boa no nosso sistema nervoso e no nosso psicológico, o que pode acabar como um gatilho para que uma depressão ou crise de ansiedade ocorra conosco.

Mas essa é só a ponta do iceberg.

Ansiedade e depressão são duas situações que aparecem por aí nos diagnósticos em maior quantidade. Fora as duas, existem tantos outros distúrbios por aí que pessoas próximas a nós, ou até mesmo a gente, podemos sofrer. Esquizofrenia, bipolaridade, síndrome do pânico. Essas são só algumas delas. Se não tratadas, o convívio social pode ser muito difícil ou até impossível, visto que alguns transtornos desencadeiam fortes crises quando o paciente em questão se inclui em meio a outras pessoas. Mas essa inclusão social por muitas vezes também é a melhor ajuda que o paciente pode ter.

Entretanto, com o cuidado e acompanhamento médico, esses transtornos são gradualmente ultrapassados, e a pessoa, com o uso de medicamentos prescritos por profissionais da área, consegue voltar a obter qualidade de vida e de convívio social. Por isso é tão importante entender o que anda se passando com você, para que, se a necessidade de ajuda for percebida, que não hesite em procurá-la.

Minha família, assim como tantas outras por aí, tem pessoas que sofrem de depressão ou até de transtornos mais complicados que esse. Eu mesma estou em um processo de tratamento contra depressão e crises de ansiedade. Mas nem por causa disso eu deixo de sair ou de fazer meus afazeres do dia a dia. Eu sigo com minha faculdade, meu estágio, meu pilates e todas as outras interações sociais da minha vida. O mais importante é admitir que existe ali o transtorno, seja lá qual for ele, e aceitar a ajuda e o tratamento indicado.

Não adianta você se sentir triste um dia, ou dois, e acreditar que você tem depressão por isso. Uma coisa é se sentir triste por um motivo específico. Outra é você não conseguir se livrar da sua tristeza. A depressão na maioria das vezes é um problema de captação de serotonina, que pode ser resolvido com um remédio que ajude na recaptação dessa substância. E se for falta dela, podemos ingerir alimentos ricos em triptofano, como chocolate, banana, peixe etc. Exercícios físicos também ajudam nessas horas. Um corpo móvel é um corpo saudável. As adrenalinas liberadas quando andamos, ou fazemos esporte, ajudam muito a melhorar nessa questão.

A questão é você perceber que tem um problema e ir de encontro a ele, procurar a ajuda médica só mostra como ainda somos capazes de cuidar de nós mesmas. E não se desesperar porque está triste com algo pontual e ir logo à procura de remédios mais fortes. É muito importante o uso consciente de qualquer remédio, principalmente desse tipo, porque alguns deles viciam e não é legal ter que passar pelo período de abstinência caso aconteça. O que importa é viver bem, e como diria uma grande tia-avó minha: Se tem uma bolinha ali que vai te ajudar a ficar melhor, que vai ajudar a sua condição clínica, porque não tomá-la? O importante é usar com consciência e acompanhamento médico porque tudo vai ficar mais do que bem!

Nathalia Valladares
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora

Sol em gêmeos, ascendente em leão, marte em áries e a cabeça nas estrelas, Nathalia, 24, é uma estudante de Design que ainda nem sabe se tá no rumo certo da vida (afinal, quem sabe?). É um grande paradoxo entre o cult e o blockbuster. Devoradora de livros, apreciadora de arte, amante da moda, adepta do ecletismo, rainha da indecisão, escritora de inúmeros romances inacabados, odiadora da ponte Rio-Niterói, seu trânsito e do fato de ser um acidente geográfico que nasceu do outro lado da poça. Para iniciar uma boa relação, comece falando de Londres, super-heróis, séries, Disney ou chocolate. É 70% Lufa-Lufa, 20% Corvinal e 10% Grifinória.

  • Beatriz

    Estava adorando o texto, até ler a conclusão:

    O que importa é viver bem, e como diria uma grande tia-avó minha: Se tem uma bolinha ali que vai te ajudar a ficar melhor, que vai ajudar a sua condição clínica, porque não tomá-la? O importante é usar com consciência e acompanhamento médico porque tudo vai ficar mais do que bem!

    Não sei se foi a intenção da autora, mas me pareceu uma postura que naturaliza demais o uso de remédios controlados. Considero essa conclusão bastante irresponsável. Acho que este texto perdeu a grande oportunidade de mostrar às leitoras que é possível, sim, vencer a depressão, a ansiedade e outros males que acometem a nossa geração sem a ajuda de remédios controlados. Um médico responsável deve indicar essa possibilidade (muito grande, por sinal) para seus pacientes, e não simplesmente mostrar o caminho mais fácil.

    Sofri de ansiedade e síndrome do pânico, mas tenho orgulho de dizer que encontrei o caminho para a minha recuperação sem a ajuda de qualquer remédio. Graças à minha condição (e uso a palavra “condição” porque não admito que o pânico me defina e me acompanhe pro resto da vida), conheci outras pessoas que sofrem ou sofreram tudo o que eu bem conheço. E todas elas também se curaram sem a ajuda de medicação.

    Em tempo, a medicação é, sim, necessária para alguns casos. Mas não deve ser o primeiro recurso de nenhum médico ou paciente. A maioria dos problemas está dentro de nós – e não é nada químico. Eu (e muitos outros) só melhorei porque consegui reencontrar o equilíbrio na minha vida: adotei uma dieta mais balanceada, passei a praticar exercícios regularmente, me dediquei a atividades prazerosas (hobbies), fiz trabalho voluntário, busquei o equilíbrio espiritual, além de aprender a encarar com mais leveza as obrigações da vida (trabalho e estudo). E é isso que esta revista deveria mostrar às leitoras: existe cura sem medicação!

    Então, não, o importante não é usar o remédio com consciência. E não, não vai ficar tudo mais do que bem só porque você tomou o remédio. A verdadeira recuperação envolve tudo o que eu citei acima: uma verdadeira mudança de atitude em relação à sua rotina e à sua vida. Mas é importante, também, como o texto mencionou, reconhecer que você tem o problema e precisa de ajuda. Minha médica e meu namorado foram as forças de que precisei para dar a volta por cima.

    Para todas as meninas que sofrem com a depressão, a ansiedade ou a síndrome do pânico, eu digo: não se entregue! Lute pela sua vida! Só você pode se tirar desse buraco que, eu bem sei, parece não ter fim. Tome o controle da sua própria vida. E você não precisa fazer isso sozinha! Conte com a ajuda da sua família, dos seus amigos, do seu médico. Estabeleça uma rotina mais equilibrada. Os resultados são muito melhores do que qualquer remédio. E é muito melhor ficar viciada em, sei lá, ler livros ou meditar do que em remédio, não é mesmo?

    • Ana

      Sim, sim, tem meios mais simples. Eu cansei e agora procuro formas de morrer, coisa difícil pacas nesse País! Temos basicamente a OBRIGAÇÃO de estar saudável e bem. Deixemos os cidadãos em paz com seus direitos já tão pisados, pelo menos o direito de morrer em paz. Esse papo de “dar a volta por cima”, “não se entregue”, mimimi, caramba a pessoa tá com depressão ou coisa pior, vai tirar força de onde??? Gente, cai a ficha! Dá vontade de dar uma patada de realidade toda a vez que ouço isso. Que burrice! Meus vinte anos foram pro saco acreditando nessa história pra boi dormir! Se coloque na frente de tudo caso for persistir, não acredite em ninguém e NUNCA esqueça que esse mundo é o inferno. Qualquer jornal te mostra isso na íntegra, se alguma merda muito grande já não aconteceu com você mesma… É assim, sentimos muito, mas se ficar o bicho pega, se correr o bicho come… sorry girls!

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos