21 de janeiro de 2015 | Ano 1, Edição #10 | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Golpe Militar de 64: ditaduras e o “bem maior”

Bem é uma palavra bonita e cheia de significado positivo, mas também serve de embasamento absolutamente distorcido para justificar o interesse de alguns. Dois exemplos sobre os quais estou farta de ouvir: o bem maior e o cidadão de bem. Você já leu essa expressão “cidadão de bem” em algum artigo por aí, tenho certeza. Cidadão de bem é aquele sujeito exemplar na sociedade, o bom homem, pai de família, que paga seus impostos e trabalha todo dia sem se atrasar um minuto sequer, que acha que merece ter seus direitos preservados de sobremaneira aos demais, os delinquentes, mas que fura fila na padaria, abandona o cachorro que tem latido demais ultimamente, não dá um grão de arroz se ver alguém passar fome, fala mal da vizinha que deixou do marido porque apanhava todo dia. Muito do bem, claro.

No caso do dito bem maior, o bem aqui também é distorcido para justificar interesses. No Direito, quando falamos em bem maior, geralmente estamos nos referindo ao direito à vida, o bem maior de todos os indivíduos. Entretanto, pensemos um pouco mais para trás, lá para a década de 1960. O bem maior, nesse caso, era o próprio Estado, devendo ser protegido a todo e qualquer custo, e esse pensamento foi o que serviu de base para a ditadura. Conforme Platão, o ditador é o tirano que ganha controle social e político através do uso de força e da fraude. Foi o que aconteceu no Brasil em 31 de março/1º de abril de 1964.

O país era governado pelo, então, democraticamente eleito presidente João Goulart, mais conhecido como Jango. Jango havia implantado o Plano Trienal, que propunha melhorar o PIB e reter a inflação de quase 80% vigente, porém não estabilizou a economia como esperado. Jango então propôs algumas medidas vistas como comunistas na época, como, por exemplo, a reforma agrária tão necessária até os dias de hoje (beijo pra Katia Abreu). Nesse clima de instabilidade econômica e confusão política, após decretar a desapropriação de terras para fins de reforma agrária, a mobilização para o golpe se iniciou. Pode-se dizer que foi um golpe não somente militar, mas também civil, pois este recebeu apoio de grandes setores da sociedade, a exemplo da burguesia, dos grandes fazendeiros e do setor conservador da Igreja Católica que era bem propenso a uma ação anticomunista – para eles o comunismo se implantaria com certeza, assim como algumas pessoas, após a vitória da Dilma nas eleições de 2014, também têm certeza que o comunismo virá logo, logo.

E então veio o golpe.

O golpe foi apresentado como a única maneira de se reestabelecer o país, protegendo-se o bem maior – ou seja, o próprio governo acima de seu povo, como se o poder viesse de cima – com a restauração da “ordem” e segurança interna contra a “ameaça vermelha”. De fato, houve alguma evolução econômica, entretanto com o alto custo de vida – o verdadeiro bem maior – e torturas de qualquer um que pudesse remotamente estar ligado a qualquer movimento comunista que pudesse tentar um novo golpe (muitas vezes nem estavam, mas morriam do mesmo jeito). As Forças Armadas passaram a exercer o controle político e governamental, instaurando o regime autoritário e ditador. Para os que se beneficiaram deste período ou para aqueles que não viveram tempos tão sombrios e não sabem do que falam ao apoiarem um novo regime militar, o golpe é chamado de revolução. Uma revolução que matou inocentes para que uma elite lucrasse ainda mais.

A defesa sanguinária do bem maior não é algo exclusivo do período ditatorial brasileiro. Na verdade, encontramos essa mesma linha de discurso em outros regimes totalitários e autoritários. O nazismo defendia a raça ariana e a doutrina do espaço puro dos alemães como bem maior a ser protegido, por exemplo. O bem maior, pelo visto, é qualquer bem que beneficie de sobremaneira um setor que consiga botar suas mãos no poder utilizando-se de força e fraude. Viva a democracia e a representatividade.

Se você se interessou pelo assunto e quer saber mais sobre o que aconteceu no Brasil na época, leia os outros textos que já escrevemos sobre o tema: sobre a censura, sobre o medo, sobre o exílio e sobre poder popular.

Priscylla Piucco
  • Membro do Conselho Editorial
  • Coordenadora de Relacionamentos & Sexo

Priscylla. Apaixonada por seriados, kpop, reality show ruim, Warsan Shire e as Kardashians. Odeio o Grêmio e cebola. Prazer, pode chamar de Prih agora.

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