26 de abril de 2015 | Estilo | Texto: | Ilustração:
Gorda ou magra, vou vestir o que quiser

O texto dessa semana começa com uma interrogação do tamanho da nossa indignação e preocupação: quem disse que peças de roupa só ficam bonitas em corpos altos e macérrimos?

Em meio aos vestígios dos vinte anos da São Paulo Fashion Week e as semanas de moda internacionais em voga na grande mídia, sempre fica o questionamento do porquê as modelos estarem cada vez mais magras e como esse negócio de transformarmos as top models em referência social de estilo de vida e de beleza acaba se refletindo em nós e nos tabus e opressões da sociedade.

Sabe-se que nem sempre o padrão de beleza foi o atual, apesar de também serem padrões. Até a década de 1960, as modelos não seguiam essas mesmas normas. Segundo os livros e estudos de moda, tudo mudou quando a inglesa Lesley Hornby, conhecida como Twiggy (twig é “graveto” em inglês, um apelido bastante desagradável, né?), virou o padrão das passarelas.

De lá para cá, as chamadas top models são cada vez mais referenciais de beleza, e o manequim padrão da passarela chega a números cada vez menores.

Toda a lógica atingiu consequências tão absurdas que, em março deste ano, a França, através de uma emenda na Lei da Saúde, resolveu apertar o cerco contra a apologia aos distúrbios alimentares causados por esses tabus sociais, passando a impedir que agências contratassem modelos em condições não saudáveis — o parâmetro usado é o IMC, o que tem lá seus problemas, já que não é uma avaliação completa de saúde, mas já é, certamente, um começo. E, pasmem, o maior temor das empresas por lá passou a ser a “invasão” de modelos de outros países na semana de moda local, para tentar driblar a vigilância que só fiscaliza as modelos francesas.

Mas há quem desafie o padrão mesmo sem a lei para dar uma forcinha: em 2013, na semana de moda de Paris, o estilista Rick Owens fez um desfile considerado questionador ao colocar na passarela mulheres negras e gordas, como uma maneira de fazer com que a moda se atentasse ao mundo das mulheres que normalmente não estão na passarela, mas que também são admiráveis e lindas.

Mesmo fora das passarelas, mais perto de nossa realidade, é muito comum encontrar revistas e sites de moda dando dicas de looks para parecer mais magra ou mais alta, dizendo que listras engordam e que calça justa não é para todas.

É parte de uma série de coisas que vão se acumulando, onde o padrão geral da moda e de seus processos criativos se baseia apenas em usar roupas e maquiagem para ficar cada vez mais dentro do que é visto como bonito: mais magra, mais alta. Alimentando a ideia opressora do que todas devemos ser, com metas que passam bem longe de serem indolores e benéficas à saúde física e psicológica de muitas de nós.

Algumas marcas de varejo, por exemplo, preferem produzir coleções específicas com roupas plus size, com modelagem e linha de peças única, em vez de fazer com que suas coleções tradicionais tenham numerações que não fiquem apenas entre o 38 e o 42. Esse processo de criação diferenciado acaba ficando no caminho da liberdade de poder escolher usar ou não uma peça e limitando as opções de uma parte bem relevante das consumidoras, já que muitas roupas simplesmente não existem em determinados tamanhos.

Eu, pessoalmente, não gostaria de estar na passarela, mesmo não sendo magra. Mas não se pode ignorar o que a falta de variedade nesses espaços causa em nossas mentes e como tudo isso faz parte de uma sociedade que cria moldes e não é nada plural.

As referências usadas para a criação dos padrões sociais, ou a ausência delas, representam diversas opressões, principalmente no que diz respeito à identificação. Refletir sobre tudo isso é um grito de liberdade, parte do processo de poder ser o que somos, escolhendo usar o que quisermos usar e saindo nas ruas com as roupas que nos fazem sentir bem, seguindo apenas a tendência de simplesmente sermos nós mesmas.

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Simone Nascimento
  • Colaboradora de Estilo

Simone Nascimento, 22 anos, Negra, Mulher, Feminista e Umbandista! Ama suas raízes, dos fios da cabeça ao toque do atabaque. Leonina da Terra da Garoa (SP), apesar de amar o sol! Estudante de Jornalismo, formada em Figurino, Estilismo e Coordenação de Moda, — vê a comunicação como um direito e a Indumentária como arte. Militante anticapitalista, quer viver num mundo livre de opressões.

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