14 de janeiro de 2016 | Ano 2, Edição #22 | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
Gosto se discute, sim
CriaçõesSociais-AnaMariaSena-Capitolina

Somos frutos das nossas decisões, é o que dizem. Somos todos seres independentes, racionais, donos de nós mesmos e de nossas ações e nossos gostos. Será mesmo? Temos mesmo total controle de quem somos, do que gostamos e do que fazemos?

Gosto é uma coisa complicada. Mistura as nossas próprias opiniões e afinidades instintivas com o que aprendemos na infância, os comportamentos que imitamos sem perceber, as ideias que absorvemos de segunda mão. As coisas que aceitamos pouco a pouco, sem nem perceber: são responsabilidade de quem? A gente pode mesmo dizer que as coisas “são uma questão de gosto”?

Os gostos que herdamos

Quando eu volto para casa, minha vó sempre faz os mesmos pratos. É incrível. É delicioso. Quando eu digo “voltar pra casa”, o que eu quero dizer na verdade é a casa da minha mãe; apesar de ter saído de casa há oito anos, eu ainda digo que eu estou voltando para casa como quem volta de férias. Todo fim de ano eu como as mesmas coisas e vou aos mesmos restaurantes. O arroz Maria Isabel da minha vó, soltinho, misturado com aquela farofa feita na panela da carne; a caldeirada de camarão, com bastante molho, por cima do arroz branco.

Nossos gostos para comida começam a ser definidos ainda na barriga da mãe, e já damos preferências aos sabores que sentimos quando nem havíamos chegado ao mundo. O que comemos na infância, das comidas aos temperos a quanto comemos e por que comemos, são relacionamentos que começam cedo.

Tenho os mesmos rituais, também. Ver as mesmas amigas. Deitar no colo da minha vó enquanto ela vê TV. O cafuné da minha tia. Tomar café depois do almoço mais para alongar a conversa do que pela cafeína. Repito vários desses hábitos com amigos e romances, até hoje, recriando essas rotinas e a intimidade e o conforto que me trazem. Uma parte de quem somos e do que gostamos vem da familiaridade. Preferimos o que conhecemos, o que já estamos acostumados, repetimos padrões sem perceber.

Os comportamentos que aprendemos

Bebês aprendem a ler a reação das mães desde muito cedo: com menos de um ano já sabem reconhecer aprovação e desaprovação no rosto, no tom de voz, nos gestos. Quando um bebê com vagina – que aos olhos de todos é uma menina – pega numa boneca para brincar, a reação da mãe é normalmente muito mais positiva do que quando esse bebê pega um carrinho. Isso não passa despercebido.

Aprendemos padrões escondidos desde muito pequenos. Quantos gostos nós não absorvemos sem saber, sem pensar?

Esse bebê cresce, se torna criança, entra na adolescência. Em casa, começa a ter algumas responsabilidades desde cedo: guardar os brinquedos, tirar a mesa, separar a roupa suja, lavar a louça. Aprende que existem comportamentos adequados para meninos e outros para meninas, e que existe um código complicado de como ser e como se comportar. Na escola, vai melhor em algumas matérias do que em outras – e será uma coincidência que meninas gostarão mais de história e português e meninos terão notas melhores em matemática e física?

Para passar o tempo e se divertir, essa menina assiste a filmes, novelas e seriados, lerá revistas e quadrinhos e livros. Está vulnerável à espera de um herói, ou uma sedutora perigosa. É sempre um adjetivo: mãe, namorada, irmã, um acessório na história de alguém. É retratada pelo olhar do outro; está acostumada a pensar em si mesma de fora para dentro.

Quantas coisas nós não deixamos de lado por medo do ridículo, porque sofremos alguma rejeição, porque só encontramos desencorajamento?

Os preconceitos que desenvolvemos

Com o tempo a gente aprende outras coisas também.

Vemos modelos e artistas de um tipo só: brancos e altos e magros, cabelo liso sedoso e dentes brancos brilhando. Essas pessoas são lindas, são desejáveis, têm sucesso. A melhor amiga, gordinha, fica só como piadista e, não como interesse amoroso.
Pense na atriz mais bonita que você conhece. Ela é magra? Ela é alta? Ela é branca?
Os desejos e os relacionamentos têm uma normalidade própria. Apenas uma opção é válida: a monogamia, o relacionamento romântico e sexual que deve ser O Mais Importante De Todos. O único gênero que conta é o que o médico lhe deu quando viu suas genitais depois do parto. O único amor, aquele pelo gênero oposto. Mulheres devem ser femininas, homens devem ser masculinos.

A hierarquia de classes e poder social, por sua vez, tem cor. A gente vê empregadas domésticas negras, na vida real e na ficção. Negros e negras estudantes de medicina, diretores de empresas, professores universitários, escritores e artistas… Nem tanto.

Pense em alguém chefe de uma grande multinacional. Pensou em um homem? Pensou em alguém branco?

Essas ausências contam histórias. Quem está onde na sociedade, quem possui poder político e econômico, quem está na frente das câmeras, quem conta as histórias: cada um desses fatores constrói narrativas que explicam a realidade.

O mundo nos molda e ajuda a fazer quem somos: não crescemos num vácuo, e navegar por essa realidade extremamente desigual não é fácil. Nossos gostos surgem de um mundo preconceituoso, e conversam constantemente com ele.

Não surpreende, então, quando as preferências seguem linhas cuidadosamente desenhadas. Nosso gosto pessoal é mais complicado que parece. Isso não significa que não seja válido, ou que sejamos marionetes de uma teoria conspiratória global – mas sim que, da mesma maneira que estamos sempre em construção, estamos sempre em desconstrução. E que gosto, também, é político.

Maíra Carvalho Branco Ribeiro
  • Coordenadora de Social Media
  • Colaboradora de Literatura

Maíra até agora não entendeu o binário de gênero. Feminista interseccional e queer, por favor. Sempre com um fone no ouvido e um livro aconchegado na mão. Sonserina da risada gigante e nordestina que nunca superou a saudade da praia, se diverte assistindo seu gato Borges correr atrás do próprio rabo.

  • Oswaldo Martins

    Belo texto, Maíra, sensível e bem escrito. Acho importante fazer só uma reflexão, não para discordar do seu texto, e sim pra acrescentar algo que acho importante.

    O tema das características absorvidas no ambiente versus adquiridas geneticamente é super controverso na psicologia porque, de fato, é um tema super complicado de se tratar, seja empiricamente, seja teoricamente. Vou dar um exemplo, usando suas palavras. Imagine uma criança com pênis (que aos olhos de todos é um menino) que, sempre ao pegar uma boneca, escolher um brinquedo cor-de-rosa, desejar vestir uma saia etc é instantaneamente repreendida pelo pai, pela mãe, pelos primos, pelos colegas de escola, pela mídia e por tudo mais o que a cerca. Sempre ouviu lições do tipo “tem que ser homem”, “homem de verdade faz isso e não aquilo”, “triste ver um homem fazer isso” etc. Como você disse, essas repreensões não passarão despercebidas, nem mesmo quando recém-nascido e, na verdade, tenderão a ficar até mais frequentes e escancaradas com o tempo.

    Eis então que chega a adolescência e, após a primeira experiência sexual, essa pessoa com pênis descobre que se sente atraída por outras pessoas com pênis. E, no caso dela, não é uma dúvida, não é uma indeterminação, é simplesmente a confirmação do que ela sempre suspeitara: ela de fato gosta de outras pessoas com pênis e, mais importante que isso, gosta se assumir como mulher.

    Esse caso não é raro entre mulheres trans. Entre homens e mulheres homossexuais (meu caso), é também super comum os casos em que sempre se conheceu a própria identidade, mas só não se sabia quando e como assumi-la, por medo de sacrificar as relações com a família e com os mais próximos. E o que isso nos diz? Mesmo com toda parafernália social e midiática apontando para a opção sexual binária e condenando violentamente os desertores, por que eu desertei? De onde eu tirei isso? Onde eu aprendi isso? Quem me ensinou? Freud explica?

    Bom, pra mim, todos esses casos de não-heterossexualidade são um indício muito claro de que a cultura ao nosso redor não é soberana. O meio nos influencia bastante? Sem dúvida, eu que o diga: todas as vezes que me senti “inadequado” pela minha opção sexual, isso foi obra da sociedade, não veio de fábrica. Só que a sociedade não me ensinou minha preferência sexual, essa eu sempre soube. Não sei qual gene, qual combinação de genes ou qual processo bioquímico na barriga da minha mãe que me levou a ser assim, mas eu sempre soube exatamente o que me atraía, mesmo quando todos me hostilizavam.

    O que eu quero dizer, por fim, é que nessa discussão temos que ser muito sóbrios. É impossível defender que a cultura é irrelevante, pois ela é obviamente decisiva, como você bem explicou. Por outro lado, também não podemos ignorar que a influência genética é sim uma realidade, e que eventualmente é até mesmo capaz de superar grandes forças culturais. Do mesmo jeito que não precisamos ser binários na aceitação da sexualidade, não precisamos ser binários nessa discussão.

    [Parênteses: tenho a sensação de que às vezes, por ímpeto, evitamos argumentos biológicos e enfatizamos argumentos sociológicos/históricos para explicar o mundo, por receio de cair na armadilha de reforçar estereótipos e compactuar com racismo, machismo etc (sou de esquerda, logo essas questões me preocupam). Mas, na verdade, acho que esse é um receio um tanto equivocado. Questões genéticas são questões empíricas: ou nós observamos ou não observamos um certo fenômeno genético acontecendo e, caso a biologia constate que ele não ocorre, não há mais o que discutir. Discriminações, por outro lado, são questões morais e éticas, que dizem respeito a como tratar uns aos outros, logo são problemas muito mais elevados, que não dependem da mera constatação empírica de que temos diferenças genéticas ou não. Acho importante não confundimos as coisas (eu me incluo aí também).]

    Novamente, não quis contrariar nada, só contribuir :)

  • Pingback: Linkagem de Segunda #41 – Sem Formol Não Alisa()

  • Pingback: Então, quem quer namorar a gorda? — Capitolina()

  • Pingback: “Então, quem quer namorar a gorda?” – Frente Feminista de Porto Velho()

  • Pingback: “ENTÃO, QUEM QUER NAMORAR A GORDA?” por Capitolina | Diários de uma Mulher Livre()

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos