20 de setembro de 2014 | Ano 1, Edição #6 | Texto: e | Ilustração:
Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias: guerras e refugiados
Ilustração: Jordana Andrade.
Ilustração: Jordana Andrade.

Ilustração: Jordana Andrade.

Texto de Ana Paula Pellegrino e Bárbara Camirim.

Talvez você frequente livrarias. Talvez na livraria, veja aqueles livros de bolso, que ficam em aramados redondos, que giram. Talvez nesse aramado já tenha visto um livro com um título longo demais. Parece contra-intuitivo, um livro com um título longo demais. Talvez você tenha parado para ler o título.

“Gostaríamos de informá-lo de que amanhã seremos mortos com nossas famílias”

Como assim, informar que será morto? Esse livro, de Philip Gourevitch, conta a história (real!) do genocídio de Ruanda, onde 800 mil pessoas foram mortas em questão de meses, por seus conterrâneos, seus vizinhos e amigos, com facões. Parece algo surreal, digno de um episódio de Game of Thrones ou de livros sobre guerras medievais. Mas não, ocorreu há 20 anos – mais ou menos ao mesmo tempo em que nascia a internet como a conhecemos. Também parece surreal pensar que isso ainda ocorre hoje: no atual conflito que ainda ocorre entre Israel e Palestina, por exemplo, moradores da faixa de gaza recebem um telefonema de israelenses avisando “você tem vinte minutos para evacuar a área, sua casa será bombardeada.”

Imagine receber um telefonema desses. Imagine ser informado que você, se não conseguir sair, irá virar escombro. Imagine o medo. Não é nenhuma surpresa que, devido ao medo que essa situação gera, as pessoas fogem, saem correndo de suas casas, com o máximo de pertences e bens de valor que conseguem carregar e vão para qualquer lugar que pensem ser mais seguro. Se tornam o que se chama de “refugiados”, aqueles que buscam refúgio em outro país. Hoje em dia também se fala de “deslocados internos”, aqueles que não chegaram a cruzar fronteiras nacionais em sua busca por refúgio. Hoje, no mundo, há milhões de refugiados. Alguns vivem em casas de familiares, outros conseguem ajuda para ter sua própria moradia em cidades distantes de onde vieram e outros vivem em campos montados e mantidos por organizações internacionais humanitárias, como o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (o ACNUR, já ouviu falar?).

O medo é um sentimento tão importante que chega a ser o elemento definidor desse “status”. Sim, há a palavra medo em um tratado internacional – é estranho pensar que esse sentimento, que escondemos tanto, às vezes, é algo que compartilhamos com o resto da humanidade em escala tal que chega a aparecer em documentos sérios como esse. Uma pessoa só recebe uma carteira de identificação de sua condição de refugiada se mostra que tem medo embasado de perseguição ou de sofrer violência em seu local de origem, o que nem sempre é tão simples de ser feito. Por isso muita gente vive anos sem reconhecimento algum de seu status de refugiado – e consequentemente fica sem ter acesso nenhum à ajuda a qual tem direito. Imagine você que, mesmo depois de ter passado por tudo isso, muitos ainda sofrem com preconceito em seu local de refúgio, por serem forasteiros ou por terem poucos recursos. Chegam a ser hostilizados em alguns lugares – sofrem ameaças e novamente se vêem sentindo medo.

Hoje, no Brasil, recebemos alguns refugiados. São poucos, se compararmos nosso tamanho e a quantidade de espaço que temos para crescer à de outros países que recebem grandes números de pessoas fugidas de conflito, geralmente países vizinhos, também castigados pela guerra (muitos dizem que a guerra na República Democrática do Congo começou quando o grande fluxo de refugiados chegou no pais sem estrutura, fugidos de Ruanda). São, no Brasil, em sua maioria, haitianos e colombianos, mas há também angolanos e alguns de outras nacionalidades. Eles viram o desastre e a violência bater em suas portas e tiveram tanto medo de serem atingidos que tomaram a decisão de fugir, deixando tudo para trás – um sentimento tão forte, que espero que você nunca tenha que passar na vida. Se você um dia cruzar seu caminho com alguém que tenha passado por essa experiência, pense nisso. Imagine receber um bilhete avisando que sua família inteira será executada. O que você faria? Ficaria para lutar? Ficaria para conversar? Fugiria?

Ficou com medo? Relaxe um pouco! Afinal, estamos no Brasil e não vivemos em conflito declarado. Nossa última guerra foi a Guerra do Paraguai, há trocentos anos (talvez você tenha ouvido falar dela na aula de história). Não podemos deixar de dizer que, apesar disso, algumas áreas marginalizadas, principalmente nas grandes cidades, são ocupadas por grupos organizados armados, sejam eles do exército, da polícia, traficantes ou milicianos, os primeiros com a justificativa de manter a paz e a ordem e os últimos para contestar a ordem estatal. São comuns, nesses lugares, as denúncias de violência policial (que, devemos lembrar sempre quando alguém diz que não existe racismo no Brasil, atinge mais negros do que brancos). É claro que são situações diferentes, mas podemos ver algumas semelhanças, como a situação de vulnerabilidade e medo em que essas pessoas são obrigadas a viver.

Se você quiser saber mais sobre como é a vida dos refugiados e, quem sabe, um dia trabalhar diretamente ajudando-os, dê uma olhada no site do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, onde há inúmeros relatos pessoais inimagináveis. Você também pode procurar se informar se sua cidade conta com um escritório da Caritas, uma organização não-governamental que atua na área, que sempre precisa de ajuda, como pessoas para ensinar português aos refugiados recém-chegados. Você também pode tentar inteirar-se mais sobre a situação da violência urbana no Brasil acompanhando jornais e outras publicações na internet; vários movimentos sociais mantém também trabalhos com jovens em situações de risco e outros grupos vulneráveis para tentar combater esse ciclo vicioso. Veja se algum deles precisa da sua ajuda!

Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

Bárbara Camirim
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Camirim tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e acabou de se formar em Comunicação Social. Está aos poucos descobrindo o que quer fazer da vida. Gosta de cinema, séries, literatura e, na verdade, qualquer coisa que envolva ficção.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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