2 de outubro de 2015 | Saúde | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Guia de como ser um usuário do SUS

Se tem uma coisa que me deixa L-O-U-C-A é ligar a televisão e mergulhar em notícias sensacionalistas sobre o funcionamento do nosso sistema de saúde. Sempre defendo meu ponto de vista que é: muito se critica o SUS, mas pouco se sabe sobre ele, sobre sua criação e sobre todos os programas que ele contempla.

O SUS é muito bem estruturado em suas diretrizes e protocolos, mas e nós? Nós usuários desse sistema sabemos usá-lo da maneira correta?

Mas, Ana, existe maneira correta pra se usar o SUS? Ele não tá lá? Não pode usar qualquer hora pra qualquer coisa? Er, vamos com calma.

Não pretendo aqui dar uma aula sobre a criação do SUS e falar detalhadamente sobre o seu funcionamento. O meu objetivo principal é simples: quero ensinar vocês a procurar o serviço adequado para cada situação.

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Entenda de uma vez por todas: a sua saúde, pasme, também é sua responsabilidade

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REALLY, KIM. A construção da saúde tanto individual quanto coletiva não se limita apenas aos serviços de saúde. Nós precisamos entender que todas as nossas ações têm um impacto significativo no perfil epidemiológico da nossa sociedade. Então, pra começar, vamos assumir a responsabilidade de sermos protagonistas da nossa saúde, protagonistas do nosso corpo. Uau, vocês conseguem enxergar o quanto tudo isso é revolucionário? Pois é. E o SUS trabalha com o empoderamento de nós mesmos. Até arrepia.

Pelo amor de George R.R. Martin, saiba usar os serviços indicados para a assistência de saúde que você precisa no momento

G-E-N-T-E, isso é muito sério. Eu como enfermeira emergencista fico maluca quando atendo casos de “dor no ombro há 3 meses” nos serviços de urgência e emergência. Vem cá, vamos refletir um pouco. Eu entendo que quando as pessoas procuram serviços de saúde estão desinformadas e, muitas vezes, incomodadas de verdade. Por esse motivo, quando você chega em um serviço de Pronto Atendimento com a queixa de “dor de garganta” tem que compreender que nós trabalhamos com protocolos de classificação de risco, logo você vai esperar sim e pode esperar por horas.

Vem cá, me dá a mão pra ler isso: sua dor de garganta não é tão importante assim quando se tem crises hipertensivas, quadros de hiperglicemia, crises convulsivas, infartos, politraumas e mais um monte de coisas que são consideradas realmente EMERGÊNCIA. Aceite isso e tenha empatia. Se você está há muito tempo aguardando atendimento em uma unidade de Pronto Atendimento, pode ter certeza que tem alguém muito pior que você sendo atendido e que existe toda uma equipe dando o melhor pra salvar aquela vida.

Então, ao invés de fazer uma cena (sim, isso é mais comum do que vocês imaginam), vamos respirar fundo e respeitar os protocolos dos serviços de saúde.

Deixo ainda uma observação importante: se vocês procuram os serviços de saúde com um problema que já se estende há meses estão tumultuando uma unidade que precisa estar preparada para atender pessoas com RISCO DE MORTE. Compreenda que essa responsabilidade também é sua.

Por isso, se você começar a reclamar com os profissionais de saúde sobre o quanto o seu atendimento está demorando para acontecer, pense no próximo e seja paciente. Tá? Obrigada.

Eu espero que nesse momento vocês estejam querendo saber quais os serviços que precisam procuram caso tenham um problema que não seja realmente uma emergência.

Resumindo, trabalhamos com três níveis de saúde:

– Nível primário: concentram-se nas Unidades Básicas de Saúde; estão capacitadas para cuidar de populações de uma determinada área de abrangência. Seu grau de complexidade é baixo, mas tem que ser resolutiva em pelo menos 80%. Acompanhamentos e consultas devem ser agendadas aqui. Procure uma no seu bairro.

– Nível secundário: aqui a gente trata de um nivel de média complexidade. Se a equipe da Unidade Básica de Saúde encontrar a necessidade de te encaminhar para exames mais específicos, você vai para esse nível. Está com dores constantes no estômago? Vai ser encaminhada para esse serviço se precisar de uma endoscopia. Esse serviço está sobrecarregado no Brasil porque nós somos culturalmente impacientes. Não entendemos que nem sempre precisaremos de exames super complexos e que podemos resolver as coisas na atenção primária. Então, guarda aí: saúde não é ter uma pasta com 78 tipos diferentes de exames e 41 especialistas diferentes no histórico. Saúde é muito mais que isso.

– Nível terciário: aqui o grau já é muito complexo. É para este serviço que encaminhamos acidentes graves com necessidade imediata de cirurgia, por exemplo. Esse serviço também está sobrecarregadíssimo.

Procure a Unidade Básica de Saúde do seu bairro

Eu fico petrificada com a maravilhosidade da Atenção Primária que a gente criou. As Unidades Básicas de Saúde que possuem o Programa Saúde da Família estão capacitadas para cuidar de você e da sua família levando em conta todos os seus aspectos sociais, culturais e seus determinantes e condicionantes de saúde. Em uma bela manhã, agentes comunitários irão bater na sua porta pra saber como você está. Irão perguntar por que você atrasou aquela vacina na sua filha. Vão querer saber o motivo de você não estar realizando o acompanhamento pra controle da diabetes de forma correta. E vão te oferecer ajuda, acolhimento, orientações, assim como toda a equipe de saúde. E quando você tiver um bebê, a enfermeira da unidade tem até uma semana para comparecer na sua casa para fazer todo o exame físico em você e em seu bebê, além de realizar orientações e marcar as próximas consultas. E você nem precisa tirar o pijama e os chinelos de dormir pra isso. NÃO É MARAVILHOSO? Aposto que você não sabia disso.

PROFISSIONAIS DE SAÚDE NÃO SÃO MONSTROS, RELAXA!

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(Como você se sente quando entra em um serviço de saúde às vezes)

Você definitivamente não precisa achar que somos todos monstros que temos como objetivo de vida tratar todos vocês com frieza. Respeite os profissionais de saúde. E não só eles. Respeite todos que integram o quadro de funcionários de um serviço de saúde. Trabalhar na saúde é ter que manter pelo menos dois empregos porque o salário é realmente uma vergonha; é passar noites sem dormir, sentir-se desgastado fisicamente e emocionalmente porque não é fácil estar lá no pior dia da vida de alguém. Muitos acham que somos todos frios. Não somos. Eu realmente desmonto quando chego em casa. Tem dias que me seguro ao máximo dentro de uma sala de emergência e tá tudo bem. Chego em casa e choro por 15 minutos durante o banho. Então vamos pensar um pouquinho mais em quem está ali pra cuidar da gente. Nós sabemos que o SUS possui inúmeros obstáculos e batalhamos todos os dias para garantir uma assistência digna e humana para vocês… só que realmente fica difícil quando somos humilhados e agredidos (inclusive fisicamente) por problemas que muitas vezes fogem da nossa competência. Sabe quando você procura um serviço de saúde e de repente encontra um funcionário um pouco mal humorado? Tente pensar em tudo o que ele já passou naquele dia e lembre-se de que não somos deuses; somos seres humanos e também temos dias ruins. E quando atendemos pacientes que retribuem todo o nosso carinho, isso melhora muito o nosso dia. Sério.

Finalizando, acredito que o mais importante de tudo ainda é, e sempre será, acreditarmos no serviço de saúde que temos em nossas mãos e agirmos de forma responsável.

Ps: se você beber e precisar usar um hospital, por favor, deixe a gente cuidar de você. SÉRIO.

Ps 2: Quando a gente vai puncionar um acesso venoso periférico (“pegar uma veia”) parece muito pior do que realmente é, então relaxe! <3

(A gente sabe, Walter White)

(A gente sabe, Walter White)

 

Ana Paula Andrade Piccini
  • Colaboradora de Saúde

Ana Paula, 27 anos, canceriana, enfermeira especialista em Urgência e Emergência, nutre um carinho imensurável pelo SUS e acredita que a saúde é muito mais do que a ausência de doença. Escritora de coração e desafi(n)os, ainda procura coragem para colocar no papel todas as ideias que dançam em sua mente. Acredita que as palavras salvam, inclusive já foi salva por elas várias vezes. Apaixonada por cinema, séries, livros e música.

  • heartsugarcubes

    Texto mais do que útil e maravilhoso Ana, obrigada por escrevê-lo. Minha mãe trabalha em hospital, como recepcionista, e pelas coisas que ela fala, empatia é tudo o que mais falta nos pacientes. Fico para entender como alguém que tá sentindo dor à 3 meses, fica louco e quer avançar para cima de todo mundo (até com arma, já aconteceu, infelizmente) por ter que esperar duas ou três horas para receber atendimento, quando na verdade é caso de nível primário. O SUS é um projeto realmente incrível, no resto do mundo para qualquer dor de barriga, você tem que desembolsar (muito) por uma consulta e esperar do mesmo jeito. Como você disse: “A construção da saúde tanto individual quanto coletiva não se limita apenas aos serviços de saúde. “

    • Ana Paula Andrade Piccini

      Muito obrigada pelo comentário. Fico muito feliz em poder iniciar essa conversa sobre o nosso sistema de saúde e mais feliz ainda em ver como as pessoas se identificaram com ele! Beijo (:

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Amei as recomendações, é maravilhoso termos um sistema como o SUS e precisamos (todos) tentar fazer dele o melhor possível a cada dia

    • semanablues

      Muito obrigada, Juliana! Concordo com isso também. :*

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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