7 de janeiro de 2015 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Guia de Viagens do Explorador Virtual: edição Cidadezinhas Anônimas

Toda a minha família é de Belo Horizonte, meus pais são os únicos que se mudaram para São Paulo, e, por isso, todas as férias nós vamos para lá de carro. São mais ou menos oito horas de viagem. Dez vez em quando, saímos da Fernão Dias e paramos em cidadezinhas pelo caminho, aquelas bem pequenininhas, com praça central, igreja e ruazinhas. Gosto dessas cidades porque elas são sempre bem diferentes umas das outras. Cada uma é construída numa situação distinta, não são como as cidades grandes que destroem o que um dia existiu para erguer prédios e estabelecimentos. Nessas cidadezinhas, as casas são construídas de acordo com o terreno, os rios são muitas vezes preservados, os morros continuam intactos. Sonho em um dia poder viajar pelo Brasil, pelo mundo inteiro, e conhecer essas cidadezinhas anônimas, locais que ninguém nunca conheceu, além das pessoas que lá moram.

Para ajudar esse sonho a se realizar, eu também teria que desejar ter uma máquina de teletransporte. Ou, talvez, algo que pudesse parar o tempo: assim eu faria uma viagem bem devagar, tipo a cavalo ou de carro, observando tudo e, enquanto isso, o tempo permaneceria congelado (como se fosse viver cem anos em duzentos). Se fosse uma Tardis, então, aí eu estaria totalmente contemplada. O Doctor, porém, ainda não apareceu no meu quarto me chamando para conhecer o universo e, infelizmente, nada disso é possível no mundo atual. No meu incrível futuro utópico, transportes assim seriam possíveis. E tudo de graça, obviamente.

Existe, porém, uma ferramenta que pode funcionar como um teletransporte.  Essa maravilha se chama Google Maps. Com ele, podemos ir para qualquer rua do planeta Terra num piscar de olhos (dependendo da sua conexão de internet). Por isso, o Google Maps é incrível. Dá para andar pelas ruas de Londres, correr à margem do rio Sena, visitar paisagens exóticas da China.  Mas a exploração não para aí.

Com a possibilidade de teletransporte em mente, a rede de televisão britânica BBC desenvolveu um jogo em parceria com o Google. O GeoGuessr te manda para algum lugar no mundo totalmente aleatório – geralmente estradas ou cidadezinhas desertas. O objetivo do jogo é fazer você se perguntar onde está – e, para se guiar, tá valendo olhar placas e tentar reconhecer a língua; ou talvez o estilo das casas te lembrem algum lugar no mundo. Mas o legal mesmo, e o mais divertido, é ver as paisagens desconhecidas dessas cidades anônimas e explorar.

Ao visitar esses lugares, eu estou mais interessada em observar e descobrir pequenas partes do mundo que nunca imaginei que existissem. Eu nunca anoto o lugar, apesar do Google me informar exatamente onde estou pisando. Prefiro assim porque sei que nunca irei lá realmente; logo, posso tratá-lo como um lugar imaginário que não existe no meu mundo físico. Costumo tirar uma foto quando eu gosto, uma screenshot para falar a verdade. Deixo guardado no meu computador junto com todas as outras fotografias de lugares que realmente visitei. Vocês podem achar sem graça, podem falar que usar o Maps não é “viajar” de verdade, mas só dizem isso porque nunca viajaram desse jeito.  Dá até para criar suposições, fazer um exercício mental de construção de pequenas narrativas sobre cada lugar. O jogo vai além do que o Google e a BBC propõem.

Por isso eu apresento o meu Guia de Viagens do Explorador Virtual:

  • Abra o GeoGuessr.
  • Ande pela cidade, estrada, o que for (dá até para olhar o céu, vai que você encontra uns OVNIs).
  • Tire muitas fotos de coisas curiosas, lugares bonitos, pessoas estranhas.
  • Olhe essas fotos,  se pergunte (o que esse cachorro está cheirando, o que essa pichação significa, quem é o padre que mora nessa igreja?) e responda do jeito que você quiser.
  • Viaje sem limites por todas as cidadezinhas do mundo! 

Infelizmente, o Google ainda não desenvolveu uma maneira de interagir com os moradores, provar comidas locais, sentir o clima ou os cheiros exóticos de cada lugar. Mas, vamos com calma, o teletransporte de verdade com certeza deve estar em desenvolvimento em algum lugar (se já não foi desenvolvido pela NASA em alguma missão secreta). Por hoje, nós nos contentamos com o que a internet pode disponibilizar.

Separei abaixo algumas fotos do meu diário de viagem. Que lugares você descobriu nessas férias?

GEO1

Essa aqui eu achei bastante curiosa. Fiquei andando um monte numa estrada deserta e, de repente, a primeira coisa que eu vejo é um cemitério! As lápides são todas brancas, apesar de terem moldes diferentes umas das outras. Tem uma casinha lá no fundo, a única, aparentemente. Deve viver lá o coveiro. Ou, vai ver, é apenas um fazendeiro. A plantação dele é essa aí do lado e, por destino ou por azar, o cemitério foi construído do lado da sua casa.  O carro vermelho está longe da casa, mas também está longe do cemitério. Será que o dono está no meio do milharal? Deve estar. 

GEO2

Olha só esse lugar. Por que o carro do Google estaria ai? Eu andei bastante e não achei nada, apenas o mesmo cenário. É neve isso? Será que é um mar congelado? São montanhas lá atrás? Eu não entendo absolutamente nada dessa foto. Mas é bastante bonita e nórdica, não? 

GEO3

No meio da cidadezinha tinha uma ilha (minipraça) com uma estátua de uma águia, gavião; um pássaro que seja. No cantinho, dá para ver uma placa branca com o início de alguma palavra que começa com “Dro-” (já que é uma placa branca com letras vermelhas, eu suponho que seja uma drogaria). Eu lembro de cair nessa cidadezinha e achar que ficava em algum lugar no Brasil, mas eu estava errada. Os habitantes eram latinos. 

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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