28 de novembro de 2015 | Literatura | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Guia infalível para criar personagens

Escrever é o máximo.

Criar um personagem é incrível, também. Personagens interessantes, carismáticos, desagradáveis, heroicos, manipuladores, feios, mal humorados, humanos, alienígenas, esquilos, carros falantes, minha bisavó, não importa qual: todos são igualmente emocionantes.

Mas tá.

O QUE UMA PESSOA PRECISA SABER PARA CRIAR UM SER FICTÍCIO?

1. Conheça seus personagens.

Você tem total controle.

Você sabe de cada detalhe íntimo desse universo que você criou. Você sabe quais leis da física funcionam ali; quais são os pactos sociais vigentes; qual estrutura de poder domina; quais são os limites do pensamento e da realidade para os seres que vivem aí.

E se mudar de ideia? Sem problema, tudo se adapta à sua vontade.

Ninguém como você pode conhecer a sua história: isso significa que ninguém como você pode conhecer os seus personagens.

Se ajudar, vale fazer uma ficha. Você escolhe quais características são mais relevantes para você, como:

  • Nome Completo, idade, signo
  • Tatuagens, cor da pele e do cabelo, altura e peso, cicatrizes, deficiências
  • Gênero, orientação sexual
  • Nacionalidade, cidade onde nasceu, cidade onde mora
  • Profissão, hobbies, talentos, educação formal
  • Religião, superstições
  • Personalidade, hábitos, humor, reputação, status, estabilidade emocional
  • Melhores lembranças da infância, piores lembranças da infância
  • Relacionamento com a família

E por aí vai!

Parece muita coisa, mas vale a pena. Como criar um personagem que você não sabe nem quem é, o que faz e o que gosta?

Você não vai necessariamente dizer tudo de cada ficha de cada personagem. Na realidade, você provavelmente só vai revelar uma parte pequena de tudo isso que você imaginou, mas faz parte.

Uma coisa triste que ninguém me falou quando eu comecei a escrever é que você nunca vai conseguir dizer tudo que sua cabeça imagina freneticamente.

Você precisa conhecer seus personagens para saber por que eles fazem o que fazem e como eles fazem o que fazem na história.

2. Ninguém é perfeito. Ninguém é totalmente “uó”.

Você conhece alguém totalmente ruim de coração e ridículo, sem nenhuma qualidade boa? Você conhece alguém que seja uma santidade perfeita enviada dos céus para nos agraciar com sua beleza, simpatia, honestidade, inteligência e caridade?

Eu também não.

E não adianta fazer uma personagem perfeita e dizer que ela é desastrada; ou um herói incrível, mas que tem “medo de compromisso”, o que quer que isso signifique.

Nenhum vilão é a pura encarnação do mal, também. Às vezes a antagonista tem uma filha que significa tudo pra ela; às vezes o vilão cuida de um abrigo para cachorros abandonados.

Não reduza nenhum personagem: dê a eles o direito de serem interessantes, mesmo que apareçam em duas cenas só. Cuidado com o que você diz, quando faz uma morena sensual, uma lésbica masculina, um negro criminoso, um ricaço branco e magro, uma gorda engraçada: você está passando uma mensagem com cada escolha que você faz.

Ouse. Seus personagens são gente – ou alguma coisa com característica humanoide, eu sei lá – e gente é bicho complicado, contraditório, sujo e generoso, difícil de explicar.

3. Todo personagem deve querer algo, nem que seja um copo d’água.

Quem falou isso foi Kurt Vonnegut, não foi nem eu.

Querer algo não significa ter um plano megalomaníaco de conquistar o mundo e estabelecer a Ditadura Gay– embora seja uma possibilidade válida, também.

Às vezes, a pessoa só quer ser ouvida. A heroína só quer que aquela menina na sala perceba que ela exista e a chame para ir ao cinema. O pai só queria um pouco de paz quando chega em casa exausto e os gêmeos não param de chorar. O cachorro geme e arranha a porta da casa porque ele quer muito sair e se aliviar.

É esse querer que vai ser o coração da sua história! A interação dessas vontades vai ajudar a levar o roteiro adiante, e é a força do desejo dos seus personagens principais que vai dar força para que superem os obstáculos que você vai colocar. É o desejo que vai levar à mudança e à transformação, essenciais para qualquer história.

4. Não seja óbvio: mostre, não diga.

Essa parece fácil, mas não é. Comece com um exercício: passe três meses escrevendo sem usar os verbos saber, amar, gostar, odiar, detestar, achar, pensar, acreditar, querer, lembrar, desejar, imaginar, e qualquer outro nessa linha. Evite usar ser e estar, também.

No começo, vai ser uma bela caca. Eu mesma odiei esse desafio. Como que você vai dizer o que você precisa, desse jeito?

Fernanda sabia que Jonas a detestava.

Não, não. Mais uma vez:

Jonas controlava a escala de turnos – e Fernanda sempre acabava com a madrugada, limpando vômito de bêbados, contando e recontando o inventário, se colocando no meio de brigas entre caras quatro vezes maiores que ela. Jonas ria quando a polícia chegava, batendo nas costas de Fernanda e dizendo que ela era melhor que qualquer segurança. Ela perdia o último ônibus, sempre, e tinha que andar de madrugada até a avenida para tentar pegar outra linha. Jonas buzinava ao passar por ela, mas nunca desacelerava e perguntava se ela precisava de carona.

Entendeu?

Não fui eu que inventei esse desafio – pode reclamar com o Chuck Palaniuk.

Seus personagens devem fazer, mover, dizer, interagir, brigar. Mostre os detalhes, o cenário, as ações – dê a oportunidade de quem lê tirar as próprias conclusões.

Maíra Carvalho Branco Ribeiro
  • Coordenadora de Social Media
  • Colaboradora de Literatura

Maíra até agora não entendeu o binário de gênero. Feminista interseccional e queer, por favor. Sempre com um fone no ouvido e um livro aconchegado na mão. Sonserina da risada gigante e nordestina que nunca superou a saudade da praia, se diverte assistindo seu gato Borges correr atrás do próprio rabo.

  • Bruna Dantas

    Adorei o guia! Estava precisando mesmo, vou tentar colocar em prática! 🙂

  • Naíza Alves

    Esse exercício do Chuck Palaniuk deve ser MUITO difícil, mas ctz que dá um help da gota pra desenvolver uma história. Curti demais! 😀

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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