23 de maio de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Nathalia Valladares
Guia (nem um pouco) definitivo de como lidar com se apaixonar por BFFs
Ilustração: Nathalia Valladares

Se apaixonar pelo melhor amigo é a trope mais comum das comédias românticas, especialmente quando passadas na época do colégio. Duas pessoas cresceram juntas, se conhecem como se dividissem um cérebro e, um dia, opa!, olham uma para a outra de um jeito diferente, aquela coisa de parecer que você acabou de ver a pessoa pela primeira vez. Ou uma das pessoas é apaixonada pela outra desde o primeiro dia, desde o primeiro sorriso, mas por medo ou insegurança não fala nada até que um dia os sentimentos meio que explodem.

Na vida real, esse tipo de coisa também acontece. Pode ser assim, claro, o momento de constatação repentina, o baque tão forte que te deixa tonta, o amor à primeira vista atrasado que tenta compensar pelas mil vistas anteriores. Mas pode também acontecer de outra forma: o sentimento vai crescendo aos pouquinhos, até que um dia parece impossível que o amor tenha sido outro antes; o desejo que precisa de uma válvula de escape e aponta para a pessoa mais próxima; a percepção de que aquilo que você identificava como amizade não parece tanto assim com outras amizades.

Se você está lendo isso e se identificando profundamente (quem nunca, quem sempre), deve estar também cheia de questões: mas o que eu faço? E se a outra pessoa não quiser? E se quiser? Vai mudar nossa amizade? Vai estragar nossa amizade? Eu conto? Eu ignoro? Meu melhor amigo em questão é gay! Minha melhor amiga em questão é hétero! Não só ela é hétero, como acha que eu também sou – na verdade, eu também achava até ontem! A pessoa em questão já está num relacionamento! O que eu faço????!!!!!!!???????!!!!!!!!!!

Primeiro: respira fundo. Segundo: vamos por etapas.

 

O que é isso que estou sentindo?

Se vocês acompanham meus textos aqui, já devem saber que acho que os limites entre amor-romântico e amor-amizade não são tão claros. Existem inúmeros tipos de amor, inúmeros tipos de amizade – existem amizades coloridas, existem amizades românticas, existem namoros abertos, existem namoros sem sexo, existe, bem, uma porção de coisas que desafiam as caixinhas de “romance” e “amizade”. Então eu gostaria que você parasse para pensar no que você quer com essa pessoa que até agora estava na categoria “melhor amiga”: é namorar? É namorar exclusivamente? É uma atração física, mas você não tá mesmo a fim de namorar, só de dar uns pegas? É ter ela na sua vida para sempre, morar numa casa juntas e criar gatos, mas você ficaria de boa se vocês namorassem outra pessoa? Às vezes, quando sentimentos mudam muito repentinamente, é difícil identificar o que eles são, o que de fato queremos, porque o desespero bate antes. Então, ó, para pra pensar um pouquinho no que foi que mudou, no que você quer agora que a forma como a amizade de vocês se encontra não te satisfaz.

 

Vai estragar minha amizade?

Depende do que você considera estragar. Vai mudar, com certeza, mesmo que você opte por não agir. Já mudou, na verdade, porque você já está com sentimentos diferentes, que vão afetar como você se relaciona nessa amizade, mesmo que você ignore e não conte para a pessoa. Mas mudar não necessariamente significa estragar, não significa que a amizade vai para o lixo; e se rolar um afastamento, uma briga, o que quer que seja, também não significa que as coisas não podem voltar ao normal depois. Tudo vai depender do que você escolher fazer, e do que a outra pessoa quer.

 

Eu conto? Faço algo? Fico quieta?

Sinto muito por ser inútil, mas você que sabe. Eu, pessoalmente, sou do tipo “conta!”, mas você tem que fazer o que achar melhor. Não contar pode ser angustiante porque você está escondendo algo de alguém para quem você costuma contar tudo, e esse segredo pode gerar um desconforto. Contar pode ser uma atitude um pouco egoísta, dependendo da forma que for feito. Pessoalmente, recomendo que você conte com calma, num ambiente tranquilo, sem gestos grandiosos ou dramas que coloquem pressão na outra pessoa, mas também sem pedidos de desculpas por um sentimento que você tem e é inteiramente legítimo. Um tom de “estou sentindo isso, não queria esconder de você, está sendo difícil lidar com a situação, e eu gostaria de saber como você se sente, mas se você não retribuir, tudo bem, vamos dar um jeito de resolver esta questão” é o mais recomendado.

 

A pessoa não retribuiu meus sentimentos, e agora?

A chave para tudo é você saber que a pessoa não tem nenhuma obrigação de retribuir. Como sua melhor amiga, a pessoa tem a responsabilidade implícita de ser gentil com você, se você fizer o mesmo, mas, mesmo que a pessoa te ame como amiga, a obrigação de retribuir o que você sente no momento é nula. Não existe mesmo. E se você reagir a essa rejeição insistindo de formas desagradáveis, bem, você que não está sendo tão boa nessa coisa de melhor amiga – afinal, você está passando para a outra pessoa a imagem de que a amizade dela não basta, e que você não respeita a agência dela, e nada disso é legal de se fazer com uma pessoa de quem você gosta como amiga, certo? Você pode, mesmo assim, optar por se afastar um pouco da amizade, para se preservar, mas não aja como se esta escolha fosse culpa da outra pessoa. No melhor dos casos, a pessoa vai te rejeitar com tranquilidade, e vocês vão dar um jeito de passar por isso juntas.

Se a pessoa reagir negativamente de forma grossa ou ofensiva à sua declaração tranquila, aí ela que não está sendo campeã no departamento amizade, e você tem direito de brigar – não pela rejeição em si, mas pela forma como ela ocorreu. Nesse caso, não vale a pena insistir na amizade, porque a pessoa mostrou não ser realmente uma ótima amiga, certo? Vai ser difícil abrir mão de uma amizade próxima, mas pessoas que não demonstram cuidado com seus sentimentos e sua vulnerabilidade não merecem ser suas amigas.

 

Eita, a pessoa retribuiu! Mas e se der errado depois? A amizade já era?

Primeiro: eba! Ter seus sentimentos correspondidos é uma ótima sensação! Mas, bem, agora as coisas vão mudar bastante sim, só que da forma como você e a pessoa gostariam que mudasse. Ignorar essa vontade de vocês não faria bem para a amizade – afinal, o desejo de vocês é que esse relacionamento mude dessa forma! Não entre nessa nova etapa do relacionamento preocupada com o fim, só aproveite o que está rolando. É importante lembrar que relacionamentos amorosos de diversos tipos têm como base um sentimento de amizade também, então vocês já têm uma estrutura sólida e ótima para um relacionamento romântico ou sexual ou o que quer que vocês queiram!

Se terminar, bem, voltar para a amizade como era antes não vai ser fácil, pelo menos não imediatamente, mas tudo depende de como terminou: se vocês constataram mutuamente que eram melhores na amizade do que no romance, pode ser tranquilo retornar à “normalidade”. Se não, às vezes só um tempo de afastamento estranho pode levar a uma reaproximação, e uma amizade diferente, mas não pior por isso.

 

A pessoa tá namorando e feliz. E aí?

Olha, sei que não é o que você quer ouvir, mas recomendo pelo menos um leve afastamento. Não ceda à tentação de tentar atrapalhar o relacionamento, mesmo que tudo quanto é filme diga que é ok fazer isso. Mas ficar quieta sendo passivo-agressiva e querendo chorar toda vez que vê a pessoa beijando a pessoa com quem namora também não faz bem pra ninguém. Se quiser, explique para ela: “Olha, sei que isso vai ser uma conversa difícil, mas eu sinto x por você, sei que está apaixonada e feliz e fico feliz por você, mas a convivência está sendo complicada, então vou me afastar um pouco, ok?” Aí se afasta um pouco. Respeita seus limites e o da outra pessoa. Não acho que tem um jeito muito melhor de lidar.

 

A pessoa não é nem um pouco interessada em pessoas do meu gênero, tenho zero chances.

Eu diria pra contar mesmo assim, pelas razões que já falei antes. Até porque, né, vai que a pessoa se interessa sim por pessoas do seu gênero?

 

A pessoa não sabe nem que eu me interesso por pessoas do gênero dela!

Aí entra outra questão, que é você assumindo um aspecto da sua sexualidade para a outra pessoa. Porque, né, chegar para sua melhor amiga e contar para ela que você quer ser algo diferente de amigas, sendo que até ontem ela achava que você só queria coisas diferentes de amizade com homens, envolve um processo de se abrir sobre o que esse novo interesse significa, para além do relacionamento de vocês. Até porque é possível que nem você soubesse que se interessava pelo gênero dessa pessoa antes, especialmente se estamos falando de alguém do mesmo gênero que o seu. O medo de rejeição nessas horas é ainda maior, porque vem somado com o medo da pessoa rejeitar um aspecto próprio do seu ser, mas eu seguiria o que falei antes: se a pessoa reagir mal ou agressivamente, não merece ser sua amiga.

Espero que minhas pequenas dicas tenham ajudado um pouco! Não acho que tem receita confiável para lidar com essas situações, mas com um equilíbrio de empatia e cuidado próprio todos os tipos de relacionamento ficam mais tranquilos. Vocês têm mais dúvidas? Discordam dos meus conselhos? Comentem aqui!

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

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  • Any

    Era tudo o que eu precisava ler/ouvir. Esse texto abriu a minha mente sobre as inúmeras possibilidades de sentimentos que podemos ter em relação à uma pessoa, e me levou ao texto “amizade romântica” que por sinal também é muito libertador rs. Bem, eu ainda me sinto muito confusa com meus sentimentos pela minha melhor amiga, mas pelo menos to me livrando da angústia de definir. Eu só sei que a amo muito e descobri que talvez possa viver com essa “incógnita” sem me preocupar com isso, apenas aproveitando os bons momentos juntas, da maneira mais leve e sutil possível.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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