28 de julho de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração:
Guia oficial de trilhas sonoras

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Ilustração: Dora Leroy

Por mais despercebidas que as trilhas sonoras possam passar, elas estão lá, no fundo do filme, colaborando para que a atmosfera seja sentida por você de todas as formas possíveis. Para entender melhor de onde vieram e como são feitas, a estudante de Rádio e TV, Thais Valsechi, de 18 anos, nos passou algumas informações básicas sobre as músicas que embalam os filmes que tanto amamos.

“Pra fazer uma trilha sonora elaborada, geralmente se usa instrumentais de antes do século XX – claro que o cara que fez Click, por exemplo, usou uma estratégia muito menos complexa para estruturar as músicas do filme e pegou referências populares e um pouco óbvias (uma cena triste, por exemplo, leva a música “All By Myself” e assim por diante) – mas, no geral, filmes um pouco mais ‘cabeçudos’ utilizam músicas do período Barroco, Classicismo e Romantismo. Normalmente, quando a pessoa intitulada a fazer a trilha sonora procura um som um pouco mais equilibrado, a base utilizada é o Classicismo, já que a sua métrica é mais bem definida. Como as músicas do classicismo eram feitas para agradar os nobres, elas eram muito impessoais e não possuíam os sentimentos do músico. Só eram feitas para serem agradáveis.

O filme Laranja mecânica, sendo um longa bastante perturbador, possui a trilha sonora vinda do Romantismo, com uma melodia carregada e bastante dramática, com muito envolvimento do autor. Em uma cena em que os personagens estão tomando leite, a trilha tema surge e nota-se claramente a influência barroca – o Barroco é ainda mais dramático e afetado que o romantismo, que faz o expectador ficar inquieto. O mesmo acontece na abertura d’O Anticristo, que também é barroca, em que você já consegue perceber que o filme vai te deixar angustiado de alguma forma. Existe também um estilo chamado Minimalista, que, como já diz o nome, é bastante repetitivo com alguns loopings que mudam de cena em cena – é a mesma música, com a mesma estrutura até o fim, com a diferença de que se acrescentam alguns instrumentos diferentes de acordo com o sentimento que se quer passar. Numa cena em que quer se indicar delicadeza, acrescentam um piano ou uma flautinha. Já numa cena que mostra suspense, é a mesma música, mas com um trompete ou uma tuba, como na música tema do Harry Potter.

Leva-se muito em consideração a sensação que o instrumento quer passar, e isso fica muito claro numa trilha sonora minimalista. Já nas trilhas com influências mais modernas, do século XX, existem muitas experimentações. Em filmes de terror, por exemplo, são canções com instrumentos distorcidos e sintetizadores, que influenciam a incompreensão do momento e perturbam o telespectador. Existem milhares de categorias entre os estilos de trilha sonora, mas o básico necessário para se entender uma é perceber o que a cena quer passar. As músicas geralmente são feitas por encomenda, onde o musico monta horas e horas de música, dando a estruturação necessária para o filme passar todo tipo de informação – a fala das personagens, a imagem, a fotografia e, para complementar, a trilha sonora.”

Nós da Capitolina amamos os filmes e as respectivas trilhas da diretora americana Sofia Coppola (Encontros e desencontros, Maria Antonieta, As virgens suicidas, The Bling Ring, Em algum lugar), que adora músicas mais moderninhas, mesmo que Modernismo não seja o tema do filme. Em Maria Antonieta, que conta a história da união entre a jovem Maria, arquiduquesa austríaca, com Louis Auguste, o filho mais velho do rei da França na época. Há, desde música de época, passando por “I Want Candy”, versão da banda Bow Wow Wow, de 1982, indo até “Ou Boivent Les Loups”, da banda Phoenix, de 2006 e “What Ever Happened”, do The Strokes, de 2003. As músicas modernas inseridas em um contexto tão diferente das que foram escritas só demonstram a maestria de Sofia ao representar os sentimentos da personagem de Kirsten Dunst: uma rainha de 16 anos, interessada em milhões de coisas ao mesmo tempo, forçada a se casar com um homem mais velho e que não aparentava gostar muito dela, e que tinha a tarefa hercúlea de salvar seu reino da fome. A forma com que a trilha é moldada para que consigamos nos ver na pele da rainha, sendo uma situação completamente compatível às nossas próprias vidas, ainda que numa realidade muito distante, é de se admirar. Um dos sentimentos que Coppola adora ilustrar, aliás, é o tédio e a solidão. Aqueles momentos em que têm muitas coisas ocorrendo no mundo, muitos pensamentos em nossas cabeças, mas nada acontecendo de verdade. Poucos filmes conseguem ilustrar tão bem o sentimento de estar no meio do carrossel, vendo tudo acontecer, mas com nada acontecendo de fato como As virgens suicidas. Em uma de suas cenas mais famosas, onde Lux está deitada no campo de futebol com o colega de sala, a música “Playground Love”, do duo francês Air, toca ao fundo. E aquele momento é extremamente importante para a personagem, mas ao mesmo tempo é apenas mais um amor juvenil, como milhares de outros que existem por aí.

Não podemos nos esquecer também das trilhas sonoras feitas pelo Quentin Tarantino (Kill Bill, Pulp Fiction, Django livre, Bastardos inglórios, Cães de aluguel, entre outros). O diretor já admitiu ter feito filmes baseados em músicas que ouvia quando era jovem, ao contrário do que se acontece normalmente na produção de filmes. A Dani Feno, da nossa equipe, tem o sonho de um dia gravar um filme com o Quentin e manja tudo sobre o diretor. Por isso, pedi a ela que elaborasse uma lista com o top 4 de músicas preferidas dela do diretor!

ATENÇÃO: A estética do diretor é famosa por sua violência gráfica, portanto, pode não ser apropriada para todos os públicos.

4 – Django livre

Começando do mais recente. Eu AMO o hip hop nessa cena, simplesmente amo. Além de ser uma música forte e energética que combina com as marcações do filme, ela tem todo um sentido inverso na minha cabeça. Quando eu vejo essa cena, penso primeiro como os negros hoje em dia são resultado direto da escravidão e como eles sofriam e ainda sofrem. E, justamente, no momento em que o Django pega a arma e começa a se defender é quando começa a música e pra mim é como o hip hop hoje é a defesa de algumas pessoas negras. Daí você pensa em filme de época com uma música atual nada a ver, só que não, é TUDO a ver. Quem faz isso é gênio.

3 – Kill Bill

Essa aí eu vou desenvolver muito pouco. Na verdade só vou dizer uma coisa: toda vez que estou sonhando acordada e neste meu sonho estou entrando em um local e todos me olham porque sou a bad motherfucker (pedimos desculpas pelo linguajar, mas abrimos uma exceção para o Tarantino) do lugar, essa música está tocando no fundo.

2 – Pulp Fiction

Amo essa mais até do que a dança do John Travolta, que é o clássico desse filme. Não sei exatamente por que amo essa música, mas parece que ela coloca a personagem da Mia como uma menina frágil, sabe? Que de repente pode fazer uma besteira e morrer.

1 – Cães de aluguel

AVISO: Essa cena é especialmente gráfica e violenta!

Essa é tão genial, gente. O cara é um sociopata e está torturando e arrancando a orelha de sua vitima. Em vez de estar tocando uma música tensa que acompanharia a situação, não! Toca uma música feliz e animada, porque dentro da cabeça do torturador – que é o ponto de vista da cena – é uma situação feliz e animada porque ele está fazendo o que gosta. De novo, não faz sentido, mas faz.

Nicole Ranieri
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Vlogger

Nicole é Paulista de 22 anos, mas mora em todos os lugares e pertence a lugar nenhum. Estuda administração com foco em exportação mas é gente boa, não gosta de tomate mas é uma pessoa do bem, curte uma coisinha mal feita e não recusa jamais uma xicara de chá verde. Se fosse uma pizza, Nicole seria meia espinafre, meia cogumelo.

  • Julia

    Cara, essa cena do Cães de aluguel é muito pesada, só de ver o comecinho
    me fez sentir mal. Se eu que tenho 20 anos passo mal imagina uma menina de 13. Vocês precisam deixar BEM CLARO que são cenas fortes
    afinal essa é uma revista adolescente. :~

    • http://www.revistacapitolina.com.br/ Revista Capitolina

      Julia, você está certa, claro! Obrigada pelo toque, vamos colocar um aviso.

      • Julia

        🙂

  • Pingback: Um guia (quase) completo para descobrir novas músicas — Capitolina()

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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