25 de junho de 2015 | Artes, Literatura | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Helena de Troia quer ser a sua melhor amiga

Imagine-se em uma sala de aula de colégio (podem ser aquelas de filmes americanos, ou onde você estuda/estudou) com aqueles grandes grupos heterogêneos de amigos: a galera-da-primeira-fileira-que-manda-bem-nos-estudos, a galera do fundão que só quer aloprar, as patricinhas, o grupinho descolado, e por aí vai. As relações dentro deste ambiente, entre essas pessoas, parecem ir bem na medida do possível, mas parece que alguém decidiu, enquanto criava o universo, que as salas de aula seriam os locais mais maneiros para se produzir, reproduzir e incentivar uma fofoca e BAM: de repente, a porcaria foi feita. Um grande babado tomou conta dos ouvidos de qualquer indivíduo que frequente não apenas essa sala de aula fictícia, mas a escola inteira. E é claro que essa fofoca é sobre uma menina. E é claro que essa fofoca é sobre uma menina que não se dá o devido respeito. E é claro que essa fofoca é sobre uma menina que não se dá o devido respeito e que também há um homem com quem ela se relacionou. E também é claro que esse homem não foi, de maneira nenhuma, julgado por cada um daqueles grupinhos da sala como a menina foi. A fofoca só se espalha, a galera só bota mais lenha na fogueira e a menina, bem, acho que nós sabemos que, no final, ela não se dá bem.

Essa história pode soar bem familiar para qualquer pessoa que já tenha frequentado um colégio, pode até mesmo já ter acontecido com você, e é bem interessante saber que uma situação semelhante a essa já ocorreu a milhares de anos luz-fictícios (ou não) atrás e se espalhou como uma grande fofoca universal por todos os quatro cantos do mundo. Essa garota que foi difamada no seu colégio na semana passada poderia facilmente assumir o papel de Helena de Troia na mitologia grega.

A história de Helena é bem famosa e já foi ilustrada de diversas maneiras através de livros e filmes (como Troia, aquele em que Brad Pitt faz o papel de Aquiles e Orlando Bloom faz o papel de Páris, por quem Helena de apaixona). Helena era filha do rei Tíndaro, de Esparta, e da rainha Leda, e possuía uma beleza que era muito exaltada; por esse motivo (e para diminuir os assédios que a filha sofria), seu pai resolveu casá-la. Muitos pretendentes surgiram, e Helena acabou por escolher Menelau para ser seu marido. Ele viria a ser rei de Esparta após a morte de Tíndaro. Tempos depois, Páris, príncipe de Troia, faria uma visita a Esparta, sendo muito bem recebido por Menelau, que teria que deixar suas terras para resolver negócios, deixando o convidado aos cuidados de Helena. Atingido por Afrodite, a rainha do amor, Páris se encantou pela beleza da rainha e a seduziu. Antes que Menelau voltasse de sua viagem de negócios, Páris e Helena já haviam fugido para consumar seu amor.

É exatamente nessa parte da história que o bicho pega: Menelau, ao voltar para casa e descobrir a “traição” da esposa, fica furioso, iniciando o que seria a épica batalha entre Esparta e Troia (com direito ao famoso Cavalo de Troia, que hoje também dá nome ao vírus que pode detonar o seu computador). E por conta da guerra e de todas as consequências trágicas que a acompanham, o pessoal daquela época decidiu culpar alguém por tanta coisa ruim acontecendo. Quem? Helena, claro, que era casada e fugiu com outro. Helena foi, por muito tempo, maldita na sociedade grega: era desonrada e a culpada por causar aos gregos os mais variados infortúnios

O que ninguém provavelmente parou para pensar quando decidiram tacar todas as pedras possíveis em Helena era que algum motivo existia por trás de sua atitude de deixar Esparta e fugir com Páris para Troia. É isso que, muito tempo depois, e saindo da mitologia, o filósofo pré-socrático Gorgias veio dizer em seu “Elogio de Elena”. Nesse tratado interessantíssimo (e que você pode ler na internet de boas, clicando aqui, porque é de domínio público), Gorgias levanta todas as possíveis razões para Helena ter feito o que fez – e o melhor de tudo: defende-a de todas as acusações por tanto tempo perpetuadas e que a transformaram na pior pessoa do mundo. Ué, o raciocínio é simples: como é que você pode chamar Helena de “causa de todos os males” quando você nem sabe os motivos que a levaram a ter determinada atitude? O que precisa ser realmente entendido é que o discurso que acusa Helena é também uma opinião e que a opinião tem um grande defeito quando usada para julgar as pessoas: ela expressa um discurso pessoal, uma única parte da história. Isso significa que não só Helena, mas também aquela nossa personagem inicial que sofreu com as fofocas no colégio, foram vítimas do perigo de uma história única (como a escritora Chimamanda Ngozi Adichie explica nesse vídeo incrível). Essa história única é aquela mal contada, inventada por alguém, o caminho mais fácil para justificar alguma coisa ou atingir uma pessoa. Aquela história que a gente nem ao menos verifica se é verdade antes de sair espalhando para os amigos, aquela história que se torna a principal por ser mais cruel, por dar mais ibope – e que pode deixar arrasada, silenciada e incompreendida a verdadeira protagonista.

Tá mais do que claro que a linguagem e o discurso possuem um poder quase que extraordinário: tudo o que eles tocam tendem a se tornar verdade. E é justamente daí que vem a importância de analisar, refletir e procurar saber mais sobre cada uma das informações que chegam até a gente (e agora vamos expandir nossos horizontes e sair da fofoca de escola, da fofoca grega e pensar nas notícias de jornais, nas postagens que aparecem no seu feed das redes sociais, enfim, em qualquer tipo de discurso que chegue até você). Já diziam nossas mães: não julgue um livro pela capa. Esse livro pode ser uma Helena de Troia que está se sentindo muito mal devido aos comentários que todos estão fazendo sobre suas escolhas, que só dizem respeito a ela mesma, e que ela adoraria compartilhar com quem realmente se importasse de verdade. Helena de Troia pode estar esperando para se tornar uma das suas melhores amigas.

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Má Dias
  • Coordenadora de Social Media
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  • Colaboradora de Artes

Má Dias, 21 anos. Mora em um Rio de Janeiro, mas ama uma São Paulo. Estuda Comunicação Social na UFRJ, aceitou o árduo (e feliz) caminho de ser jornalista e foi parar no incrível mundo das redes sociais. Adora uma bagunça, ler, criar e inserir livros novos na sua estante: tudo culpa do Aquário com ascendente em Capricórnio. Segue firme e forte encarando o 7x1 de cada dia.

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