21 de dezembro de 2014 | Ano 1, Edição #9 | Texto: | Ilustração: Nathalia Valladares
Heranças

Família implica herança. Não estou falando de joias, apartamentos ou carros até porque a grande maioria das pessoas não tem essas coisas pra deixar. Estou falando do seu nariz que é igual ao da sua mãe, seus olhos que são como os do seu pai, sua personalidade que é igual à da sua tia e sua risada que você divide com as irmãs.

Aprendemos na escola que existem os genes, pedacinhos do DNA, que vão dizer várias características de como nós somos. O DNA que a gente tem é uma combinação, metade da nossa mãe, metade do nosso pai. Além disso, tem os genes que são dominantes e os que são recessivos. Os primeiros são representados por uma letra maiúscula e os segundos minúscula. Por exemplo, sobre a miopia, minha mãe não é míope, mas meu pai é. Se minha mãe pode ser Aa ou AA e meu pai é aa, para que eu tenha 50% de chance de ser míope minha mãe precisa ser a primeira opção (Aa) necessariamente.

Mas e se minha mãe for míope, meu pai for míope e eu não? Sou filha do padeiro? Não – não que ser filha do padeiro tenha problema, cada uma tem a liberdade de ter a sexualidade que quiser, inclusive nossas mães –, o que aprendemos na escola é uma versão bem simplificada de um processo mais complexo. Na verdade, na escola mesmo já aprendemos que a herança da cor dos olhos, por exemplo, não funciona de maneira tão simples.

Um processo complexo e controverso, não se sabe direito como a genética funciona, como cada gene é ativado. Podemos pensar no nosso DNA como um leque de possibilidades quase infinito do que você vai poder ser enquanto ser humano.

Além disso, os genes são modificáveis pelo ambiente e cultura. O DNA e os genes têm efeitos concretos sobre o nosso corpo. Ser alto ou ser baixo é efeito do DNA, se seus pais são altos você provavelmente vai ser alta. Mas é também efeito de como você viveu sua fase do crescimento, se você dormia o suficiente, comia direito, praticava esportes etc. Além disso, entender altura como uma coisa positiva é cultural, na nossa cultura em geral entendemos altura como um traço belo. São diversas influências e interpretações sobre as coisas.

Justamente por essa indefinição toda que, lá no primeiro parágrafo, eu fiz uma comparação entre a cor dos olhos e a personalidade. A princípio a cor dos olhos seria algo estritamente genético e a personalidade não. Mesmo assim sua mãe tem certeza que você é avoada igualzinho seu pai.

Além dos aspectos puramente genéticos da coisa: nós ficamos parecidos com pessoas com quem convivemos. Já notou que depois de passar um final de semana na casa daquela sua amiga de São Paulo você sai dizendo “mano”? É isso só que em outra escala.

As heranças familiares são muito mais do que características físicas. Seu gosto por certos tipos de filme ou música, seu humor, seus hábitos cotidianos, suas comidas favoritas também são herdados. Claro que outros grupos e pessoas também vão nos influenciar ao longo de nossas vidas e até por isso as vezes ficamos totalmente diferentes da nossa família.

Todos esses mecanismos – genéticos, cotidianos, preferencias – são complexos e nos falam sobre quem somos. Assim, independente de estarmos falando de uma família biológica em termos estritos, ou de outras famílias, podemos olhar os diferentes legados que cada pessoa ou grupo vai nos deixar.

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

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