22 de dezembro de 2015 | Artes, Colunas, Literatura | Texto: | Ilustração: Ana Maria Sena
A importância de uma Hermione negra

O elenco da peça sobre o futuro dos protagonistas da série Harry Potter, Harry Potter & the Cursed Child (Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, em uma tradução livre), foi revelado ontem, e o mundo foi apresentado a uma Hermione Granger não só adulta, como esperado, mas também negra. Essa possibilidade, até então não explorada dentro de representações canon (a palavra usada para “oficial” quando se trata de narrativas), não é novidade para boa parte do fandom de Harry Potter.

A ideia de uma Hermione negra sempre soou possível – aliás, como a própria J.K. Rowling falou em seu tweet sobre a escalação da atriz Noma Dumezweni para o papel, a cor de pele da personagem não é especificada no livro – e foi, aliás, a opção natural para alguns leitores na era pré-filmes de “consumo” da história, e permaneceu um headcanon (algo que, apesar de não estar presente na história “oficial”, o leitor aceita como verdade) favorito entre muitos fãs. E, se pararmos pra pensar, é um conceito um tanto plausível: existem inumeráveis menções ao cabelo de Hermione como sendo bem volumoso (a palavra usada no original, “bushy”, os compara indiretamente com um arbusto), e diversos aspectos de sua personalidade se tornam, segundo a interpretação de alguns fãs, muito mais significativos se pensarmos em Hermione como negra.

Uma das características mais marcantes da personagem – que, infelizmente, não foi levada às telas – é o seu ativismo. No seu quarto ano em Hogwarts, Hermione cria uma organização para a libertação dos elfos domésticos, a F.A.L.E., ao tomar consciência das condições deploráveis sob as quais eles viviam, e de como estas eram ignoradas em livros de História. A natureza questionadora de Hermione, somada aos seus esforços perfeccionistas constantes na área acadêmica e ao preconceito que ela enfrenta no mundo mágico como alguém nascida trouxa são características de sua personagem que adquiririam uma nova dimensão se soubéssemos que ela, no mundo trouxa, também era marginalizada por outros motivos.

Claro que a maior “significância” das características pessoais de Hermione Granger é um aspecto positivo bem subjetivo dessa mudança. Algo inegável, no entanto, é que numa saga de livros frequentemente criticada por retratos superficiais e imprecisos de diferentes etnias (como no caso de Cho Chang, uma garota chinesa cujo nome e sobrenome são, na verdade, sobrenomes coreanos), ter uma mulher negra como a protagonista inteligente, esforçada, questionadora e ocasionalmente imperfeita, justamente por ser uma personagem bem desenvolvida, é algo de valor imenso.

A presença de personagens não brancas que possuem essas características e ocupam uma posição de destaque é algo não só raro em Harry Potter, mas na mídia – cinema, televisão e literatura – como um todo. Por mais que séries como How to Get Away with Murder e filmes como o novo Star Wars (Star Wars: O despertar da força) estejam colocando personagens negras na linha de frente, ainda existe uma grande lacuna a ser preenchida quando se trata de representatividade efetiva – e a falta dela por tanto tempo fez com que nós passássemos a registrar pele branca como o padrão. E isso é exatamente o que aconteceu com a Hermione: já que não havia indícios de sua cor de pele, ela foi automaticamente idealizada como branca.

Como se isso não bastasse, a prática do whitewashing – a transformação de personagens negras, indígenas ou asiáticas em brancas –  é comum há séculos, e foi usada como ferramenta para afastar esses atores do meio artístico. Não precisamos ir muito longe do universo de Harry Potter para encontrarmos um exemplo: Katniss Everdeen, protagonista de Jogos Vorazes, é explicitamente descrita como tendo pele “cor de oliva” – algo próximo do tom de pele mais comum entre latino-americanos – e cabelos e olhos escuros, e foi interpretada no cinema por Jennifer Lawrence, que tem cabelos loiros, olhos azuis e pele branca. Outros exemplos são a grande maioria dos filmes sobre o Egito (onde não, os habitantes não eram caucasianos), e muitas das adaptações da peça Otelo, de Shakespeare, cujo protagonista é canonicamente negro.

Questionamentos sobre se ou não Hermione “é” branca – tendo em mente que a transformação de personagens fictícios não brancos em brancos é raramente foco de críticas – são, na verdade, pouco relevantes. O que nós realmente deveríamos questionar é por que, em 2015, isso ainda é uma ação revolucionária, inovadora e que incita tanto ódio e oposição. Que essas mudanças inspirem muitas outras e nos levem a um mundo onde o prazer de ver gente como nós realizando feitos incríveis em universos alterativos não seja reservado a pessoas de pele branca.

 

Bárbara Reis
  • Colaboradora de Cinema & TV

Bárbara Reis tem 18 anos, é paulista e estuda Jornalismo na ECA. Acha que a internet é a melhor coisa que já aconteceu, é fascinada por novas linguagens e tem o péssimo hábito de acumular livros para ler e séries para assistir. O seu pior pesadelo envolveria insetos, agulhas, generalizações, matemática e temperaturas acima de 27ºC.

  • Deborah Farias

    Que texto!! Amei.

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