10 de março de 2015 | Ano 1, Edição #12 | Texto: | Ilustração: Isadora Maldonato
Doenças digitalmente transmissíveis: histeria coletiva na internet
Ilustração: Isadora Maldona.

“’Será que a água fez algo? Fez algo comigo?’, ela se perguntou. Estou diferente? Então ela se lembrou de se perguntar a mesma coisa dois dias antes. Como saber, do jeito que as coisas continuam acontecendo com você, deixando marcas de formas que você nem pode ver?”
The Fever, de Megan Abbott, em tradução livre

Escrevi, recentemente, sobre como essa coisa de que internet e vida real são coisas diferentes é besteira. Afinal, passamos boa parte do nosso tempo online, e o que fazemos na internet e fora dela frequentemente são relacionados. No entanto, nada prova isso com tanta clareza quanto o recente aumento de casos de histeria coletiva com contaminação por redes sociais.

Histeria coletiva é uma forma comunitária de transtorno de conversão – um transtorno que faz com que pacientes demonstrem sintomas neurológicos por causas psicológicas –, e a pesquisa sobre o assunto, apesar de extensa e antiga, ainda é bem inconclusiva. Em inglês, o nome “oficial” desse fenômeno é Mass psychogenic illness, ou “doença de causas psicológicas em massa”, e suas características principais são sintomas benignos e transitórios, rapidamente contraídos e recuperados, ocorrências em grupos segregados, ansiedade aguda, contaminação por visão, audição ou comunicação oral, contaminação iniciada por pessoas de status elevado, e… uma maioria de mulheres contaminadas.

Historicamente, é um fenômeno conhecido: muitos casos famosos de “possessão demoníaca” em grupos, de freiras em convento tendo surtos conjuntos, e mesmo de supostas bruxas são atualmente vistos como prováveis ocorrências de histeria coletiva. Os sintomas também eram, nesses casos, os mais variados: desde enjoos, dores e desmaios a coisas absurdas como crises violentas de riso, danças incontroláveis ou, em certa ocasião, um grupo inteiro de freiras que miou como gatos por dias.

O curioso é que o fenômeno tem se repetido nos dias de hoje, especialmente entre adolescentes – garotas adolescentes – em escolas. Em 2008, foram divulgados casos de desmaios coletivos em escolas na Tanzânia, em Kuala Lampur e em Bangladesh, e convulsões, tonteiras, enjoos e coceiras espalhados rapidamente em escolas nos Estados Unidos e na Europa. Todas as epidemias tinham um ponto em comum: não tinham origem física neurológica aparente.

Nos casos atuais, no entanto, algumas das características normalmente atribuídas à histeria coletiva mudaram, especificamente em dois aspectos: os grupos não precisam mais ser segregados (originalmente, esse fenômeno era observado em comunidades bastante fechadas/isoladas), e a contaminação pode ser feita por texto. Porque, atualmente, ela acontece online.

Um caso de 2012 em Le Roy, NY, em que dezoito estudantes (todas garotas adolescentes) começaram a apresentar tiques bizarros e dignos de filmes de terror – espasmos, pescoços torcendo, mandíbulas travando, rugidos saindo da garganta – foi o que trouxe à tona a questão da internet: os médicos responsáveis pelo tratamento das garotas atribuíram a intensidade e rapidez da contaminação ao contato constante pelas redes sociais. As garotas contaminadas postavam sobre os sintomas no Facebook, e compartilhavam vídeos delas próprias demonstrando os tiques no YouTube. Não só isso, como esse contato também atrapalhou o tratamento: segundo o médico, as garotas liam na internet sobre doenças e trocavam mensagens de texto questionando a eficiência de medicamentos, e, consequentemente, reagiam pior aos tratamentos propostos pelos médicos. E, para complicar ainda mais, este caso envolveu o contágio de uma pessoa fora da curva normal de contaminação: uma enfermeira de 36 anos que não tinha contato direto com as jovens, mas morava na mesma cidade e acompanhava a comoção pela internet.

Este caso de Le Roy inspirou a autora Megan Abbott a escrever o romance The Fever (um dos meus livros favoritos, infelizmente sem tradução em português), sobre uma ocorrência semelhante em uma cidade pequena, incluindo os efeitos agravantes das redes sociais. A escritora, num texto sobre o livro e sobre o caso de Le Roy, conta que, ao ver os vídeos das garotas mostrando seus tiques, começou a sentir reações físicas e teve que repetir para si mesma: “Você não pode pegar uma doença através de uma tela.”

As raízes da histeria coletiva ainda são misteriosas, assim como o fato de se espalhar principalmente entre garotas jovens. Há muitas especulações com bases científicas e sociológicas variadas, mas nada concreto ou definitivo. Este transtorno coletivo segue sendo um mistério, e os pesquisadores só encontram ainda mais complicações agora que as redes sociais entraram em jogo. Porque, afinal, a internet está aí para conectar pessoas para coisas boas… mas, agora, também consegue espalhar coisas ruins.

Mais leituras sobre o assunto (a maioria, infelizmente, em inglês):
O livro perdido das bruxas de Salem, de Katherine Howe.
“Girl Trouble”, Robin Wasserman
“When social media makes something go viral in real life”, Megan Abbott
“What witchcraft is Facebook?”, Laura Dimon
“The mysterious case of convulsing cheerleaders”, Stuff Mom Never Told You

Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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