11 de novembro de 2014 | Ano 1, Edição #8 | Texto: | Ilustração:
A história das histórias em quadrinhos: criando movimento com imagens
Ilustração: Jordana Andrade.

Ilustração: Jordana Andrade.

Há muito, muito, muito, tempo o homem traçou os seus primeiros desenhos com tinta na pedra; a arte dos homens das cavernas narrava grandes e memoráveis caçadas, danças e rituais. Esses primeiros seres humanos utilizavam um recurso interessantíssimo em seus desenhos, imagens repetidas em sequência que davam uma sensação de movimento e continuidade, uma maneira de se expressar bastante parecida com aquela que você vê hoje em dia ao abrir o jornal na sessão de tirinhas.

Contar histórias com imagens é um hábito bastante antigo entre os humanos. A história em quadrinho como a conhecemos, entretanto, ficou famosa somente em 1895.

Tudo começou com a publicação do primeiro personagem de quadrinhos em tirinhas, o Yellow Kid (Garoto Amarelo), criada por um moço chamado Richard Outcault. Famoso por sua temática política, as historinhas do pequeno menininho chinês mostravam de maneira lúdica o que Nova York tentava esconder: as tensões raciais e o capitalismo na sua essência. O quadrinho estreou nas grandes mídias um novo meio de comunicação ao juntar imagens e texto através de balõezinhos. Yellow Kid permaneceu em circulação por quatro anos e inspirou muitas pessoas a explorarem essa nova maneira de expressão. Desse momento em diante, a produção de quadrinhos degringolou e virou tradição nas páginas dos jornais.

Fonte.

Em 1913, Krazy Kat, criado pelo cartunista americano George Herrimen, começou a aparecer pelas tirinhas dos jornais. Um gato ingênuo e feliz que tinha gênero indeterminado (o autor alternava constantemente em referir ao gato como ele ou ela). O universo de Krazy era poético e surreal. Nas tirinhas, nos acompanhamos seu amor por um rato chamado Ignatz, que o odeia. Uma história bastante à la Tom e Jerry ou à la Coiote e Papa-Léguas. Foi um ponto de virada para a produção de quadrinhos: pela primeira vez, essa forma de contar histórias começou a ser vista como uma forma de arte.

Em 1930, outro grande marco para a evolução do quadrinho como mídia: Tintin dá as caras. Criado pelo quadrinista Hergé (pseudônimo do autor), as histórias do repórter e seu cachorrinho, Milu, foram as primeiras a trazer uma narrativa um pouco mais complexa, próxima a o que nós vemos em romances. Cada aventura era um mistério diferente trabalhado durante a trama. Alguns vícios das tirinhas, porém, foram conservados nas histórias de Tintin. Personagens bastante rasos e previsíveis, por exemplo, ainda tinham uma grande presença na trama e a comédia ainda era um tema bastante trabalhado.

Esse três grandes marcos foram essenciais para construir e estabelecer a forma dos quadrinhos perpetuada até hoje: narrativas complexas construídas por desenhos sequenciais que são acompanhados de balõezinhos e textos curtos.

Mas cadê os super heróis? Ao pensar em histórias em quadrinhos muita gente já vai associando a essa clássica temática. O primeiro quadrinho desse gênero, porém, só foi sair nas bancas em 1938 com o lançamento de Superman (o nosso Super Homem) pela revistinha Action Comics #1. A história desse herói todo mundo conhece, né? Com um nome muito criativo, o quadrinho tratava de um homem querendo fazer justiça com a ajuda de nada mais, nada menos, que os seus super poderes. Indestrutível, o tal super homem só sofria com uma pedrinha verde, a criptônima (que só foi introduzida muitas revistinhas depois). A história do Super Homem ficou tão famosa que até hoje é reconhecida mundialmente. O novo filme do herói foi lançado no cinema ano passado, mas, feliz ou infelizmente, a clássica cuequinha em cima da calça foi tirada do figurino.

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Pouco tempo depois, a primeira revistinha da Marvel saiu. Nela, nós conhecemos um novo herói: o Rei Namor. Criado por Bill Everett, esse super herói era um príncipe da cidade naufragada, Atlântida, filho da rainha do reino submarino e de um mortal terrestre, resultando num filho metade homem metade sereia. O seu maior poder era respirar embaixo d’água, força incrível e o poder do voo. Namor fazia parte de um grupo de personagens criados pela Marvel chamado os Invasores que, mais tarde, ia incluir a Tocha Humana, X-Men, Capitão America, os Defensores e os Vingadores. Em plena Segunda Guerra Mundial, essa equipe de super homens lutavam contra os inimigos do Eixo: Alemanha, Itália e Japão.

Somente em 1941, nós vemos a primeira heroína estrear na sua própria revistinha. A Mulher Maravilha é a primeira a alcançar a popularidade de Super Homem e Batman. Criada pelo Dr. William Marston, parte do intuito de produzir essa personagem era mostrar para meninas que as mulheres era igualmente fortes aos homens e para ajudar elas a construírem a sua auto estima e terem auto confiança. A Mulher Maravilha lutava por paz, igualdade e justiça, se tornando um símbolo feminista americano. Era um grande passo para a representação das mulheres nos Estados Unidos, apesar da figura dela não fugir muito do estereotipo perfeito que estava sendo reproduzido em grandes mídias e meios de comunicação: uma mulher de olhos azuis, branca e magra.

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A grande saga da indústria de quadrinhos de super heróis parece não acabar mais; essas revistinhas ainda são vendidas até hoje nas bancas de jornais. A história da história em quadrinhos vista somente pelo gêneros dos super heróis é grande e vasta. As duas empresas de comics nos EUA, a Marvel e DC, juntas possuem mais de 500 heróis diferentes. Em 2013, uma pesquisa mostrou que elas ainda dominam grande parte do mercado: 60% das vendas de todos os gêneros de quadrinhos são dessas duas grandes marcas.

Os quadrinhos independentes, aqueles que fugiam da grande supremacia dos super heróis, começaram a surgir somente em 1960. Podemos dizer que a grande “revolução” se deu com os quadrinhos undergrounds de Robert Crumb e Dana. Os dois começaram a vender pequenas fan zines produzidas por eles, a Zap Comix, nas ruas de São Francisco em um carrinho de bebê. A ideia era falar de temas que eram considerados tabus como nudez, sexo, drogas, violência, humor irreverente e política radical. Apesar de outra perspectiva de olhar o quadrinho, os artistas ainda eram majoritariamente homens e muitas das histórias envolviam temas machistas. A resposta foi uma zine criada por mulheres em 1972, a Wimmen’s Comix Collective, criada pela quadrinista Tina Robbins com a participação de mulheres como Pat Moodian, Lee Marrs, Sharon Rudahl e Aline Kominsky. Os temas explorados por elas envolviam questões feministas, a sexualidade, sexo e política e muitos quadrinhos autobiográficos.

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Em 1973, a produção de quadrinhos underground entra em declínio, grande parte por pressão da justiça e das forças anti-drogas dos Estados Unidos. Em 1975, Art Spiegelman lança a revistinha Arcade, tentando redefinir a cena de quadrinhos independentes ao começar a olhar para o quadrinhos de uma maneira mais artística, mais sensível e menos focada em chocar o publico e violar tabus. O quadrinho independente foi ganhando força, novas editoras começaram a ser criadas. O quadrinho se aproximava cada vez mais a uma forma literária e o termo graphic novel (romance gráfico) começou a ser utilizado. Em 1990, dois artistas começam a lançar duas histórias em revistinhas independentes que estão na minha lista de favoritas; o Ghost World, criado pela Daniel Clowes e o Optic Nerve de Adrian Tomine. Ambos os quadrinhos retratam histórias do cotidiano, simples, de pessoas como eu ou você. Ghost World trata da história de duas meninas, e virou filme em 2001, estrelando Thora Birch e Scarlett Johansson. Em Optic Nerve, nós acompanhamos a vida de diversos personagens angustiados que vivem no mundo urbano moderno.

O século XXI é marcado pelo boom de graphics novels; artistas que costumavam trabalhar com o mercado de revistinhas independentes começam a se adequar ao modelo de graphic novel e, cada vez mais, novos apareciam. Em 2003, saiu Retalhos, um quadrinho íntimo sobre a história do autor Craig Thompson; logo depois, nós temos o lançamento de Persépolis, de Marjane Strapi, sobre a sua relação pessoal com a religião e, em 2006, Alison Bechdel lança Fun Home, um livro inteiro dedicado a suas memórias e sua experiência de assumir sua homossexualidade. Três grandes sucessos de vendas que firmaram ainda mais o gênero de graphic novels no mercado editorial e contribuíram para a crescente presença de quadrinhos nas prateleiras da livrarias no mundo todo.

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O universo do quadrinho é muito maior do que parece ser. Até agora, eu consegui falar de pouquíssimos artistas, infelizmente. Existem muitos nomes que mereciam ser citados mas é impossível de colocar tudo em um artigo para um revista, por isso acabei focando na produção norte americana. Deixei de fora a grande parte da produção japonesa, por exemplo, apesar de achar que o Mangá merece um post inteirinho só pare ele!

Mas a boa notícia é que hoje em dia os quadrinhos estão crescendo. E a linha que separava os quadrinhos mainstreams dos quadrinhos independentes está cada vez mais tênue. Os dois universos estão se entrelaçando e criando novos gêneros. A temática da história em quadrinho mudou muito desde 1930. Porém pouco mudou em relação a sua estrutura. O velho modelo consolidado em Yellow Kid com a presença de quadros e balõezinhos de texto ainda é muito popular hoje em dia. O quadrinho consegue unir texto com imagem e arte. A sobrevivência de um gênero tão ambíguo como esse durante os anos mostra a força que imagem e o texto possuem, ainda mais trabalhando em unisolo.

Eu comecei a ler quadrinhos com a famosa Turma da Mônica, depois passei para as graphic novels (começando com os mais famosos, como Retalhos e Persépolis). Atualmente, fui atrás de alguns sobre super heróis, mas confesso que esse gênero não me atrai muito. Acabo o texto dizendo que, se você nunca leu quadrinhos antes, dê uma chance a esse filho esquisito que transita entre o cinema e a literatura. Muita gente tem aversão aos quadrinhos, já vi pessoas associarem à literatura infantil devido a presença de imagens em suas páginas. Mas o quadrinho deixou de ser para crianças faz muito tempo. Deixo abaixo uma lista para quem quiser conhecer um pouco mais sobre quadrinhos!

msmarvel Ms. Marvel (2014), por G. Willow Wilson – Antigamente, a Ms. Marvel lançada pela Marvel era uma mulher branca, loira, com quadris assustadoramente pequenos e corpo surreal. Recentemente, a Marvel lançou uma nova Ms. Marvel. Escrita por G. Willow Wilson, uma escritora islâmica, a Ms. Marvel da vez é uma menina adolescente muçulmana. Isso mesmo! A grande Marvel resolveu criar a sua primeira personagem muçulmana e mulher!

scott pilguim Scott Pilgrim Contra o Mundo (2010), por Brian Lee O’Maley – O interessante de Scott Pilgrim é que ele consegue adicionar à graphic novel aquele gostinho de super héroi. Apesar de ser repleto de ação e luta, a história ainda é centrada na relação de Scott e Ramona.

 

lucille Lucille (2006), por Ludovic Debeurme – Essa história tão delicada conta a história de amor entre Lucille, uma menina anoréxica que lida com problemas pessoais, e Arthur, um menino que precisa aprender a lidar com a vida após o suicídio do pai. Gosto muito desse quadrinho porque os seus desenhos não são limitados ao quadrinho, possuindo uma diagramação mais livre e fluida.

sailor moon Sailor Moon (1991) por Naoko Takeuchi – Sailor Moon é um mangá um pouquinho mais antigo, mas começou recentemente a ser reeditado no Brasil pela editora JBC. Pra quem não conheçe, é a história de uma menina de colegial que acaba sendo a escolhida para proteger o Reino da Lua e encontrar a princessa da Lua. Como fiquei sentida que não falei nem um pouquinho de nenhum mangá, coloco aqui como dica um dos meus favoritos!

Dora Leroy
  • Coordenadora de Quadrinhos
  • Ilustradora

Dora Leroy tem 21 anos e acredita que o universo é grande demais para não existir outras formas de vida inteligente por aí. E, enquanto espera uma invasão alienígena acontecer, gosta de ler livros que se passam em universos mágicos e zerar séries do Netflix.

  • http://pirlimpsiquice.blogspot.com Filipe Chamy

    Muito bom texto! Faz um panorama bem completo, o que é difícil, porque muita água já rolou sob essa magnífica ponte dos quadrinhos.

    Achei incrível você falar de Krazy Kat, um dos quadrinhos mais maravilhosos de todos os tempos e que ainda é bem obscuro/pouco publicado no Brasil. E eu, que não vou muito com a cara do “gênero X”, acho que só aí ele é justificável: pela ambiguidade incrível do original do Herriman, Krazy Kat é naturalmente umx gatx! Faria apenas um reparo: não acho que Ignatz o odeie. Jogar tijolos na cabeça de Krazy Kat é sua maneira de demonstrar carinho! Tanto que Krazy Kat fica triste quando Ignatz não o agride. Acho que é uma relação mútua de amor bizarro. Com o ingrediente extra do guarda Pup… Meu blog tinha uma URL que era assim: “lilainjil”, que é o “li’l ainjil” (uma corruptela coloquial de “little angel”) pronunciado por Krazy Kat ao tomar uma pedrada de seu amado Ignatz…

    Mas deixa eu falar mais porque senão fico só nisto e seu texto tem MUITA coisa.

    Tintin no começo era realmente primário (e bem bestamente desenhado), mas Hergé foi tornando a série cada vez mais complexa, até ela se tornar, por direito e merecimento, uma grande narrativa global sobre temas como escravidão humana, capitalismo desenfreado X populismo tendencioso, espionagem, amizade etc. Talvez o mais notório pulo de qualidade, de uma obra bem ruim mesmo (aquele primeiro, “No país dos sovietes”, é de constranger) a verdadeiras obras-primas que redefiniram tanta coisa nos quadrinhos e na ideia que temos de narrativa sequencial… Meu favorito talvez seja “Tintin no Tibete”, que é um dos que mais mudam as convenções e nem ao menos tem um vilão.

    Aí você vai pra super-heróis. Tirando pontuais exceções, nunca gostei muito deles. Talvez seja porque parece muito limitado pra mim um personagem que não pode sofrer riscos porque é indestrutível e coisas assim. Nas últimas décadas eles foram ficando cada vez mais humanos e podem sofrer até abalos psicológicos, mas a arte (o desenho) em si também raras vezes me chama a atenção. Fico estarrecido com o seu dado de que há 500 desses robozinhos nas páginas por aí… rs

    Boas dicas de graphic novels. Eu também sempre acabo consumindo os medalhões e perco muita coisa nova e bacana. Do Clowes, por exemplo, só li “Caricature”, que é bem bacana mas não é tão referenciado quanto “Ghost world” (acho um filme bem legal, contudo). Não li “Retalhos” também, “Persépolis” é muito bonito (gerou uma animação bem interessante também).

    Dessas suas últimas dicas, não fazia ideia no mundo que existisse essa Mrs. Marvel, nossa. Scott Pilgrim sempre fico de ler, Lucille também não conheço. Já Sailor Moon ando lendo porque minha irmã é fanática e está comprando tudo. Estou no segundo volume e achando bem interessante. 🙂

    Deixo algumas dicas de capitais quadrinhos que você não citou, provavelmente por razões de espaço (a maioria você deve conhecer): Popeye (de E. C. Segar), um dos quadrinhos mais hilários e anárquicos que já vi; qualquer um do Will Eisner, mas sobretudo suas graphic novels (ele é meio o papa desse gênero); Incal, dos enormes Moebius e Jodorowsky, uma baita ficção científica de aventura e ação; as histórias do Pato Donald e Tio Patinhas do “homem dos patos” Carl Barks, o maior artista da Disney de todos os tempos; Peanuts, de Schulz, uma tira perfeita em desenvolvimento de personagens; e qualquer coisa roteirizada por René Goscinny (Asterix, Lucky Luke, Iznogud…), para mim o maior roteirista francês do século XX.

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