8 de março de 2017 | Ano 3, Edição #31 | Texto: | Ilustração:
Mulheres revolucionárias: a história do 8 de março

Todo mundo sabe que 8 de março é o dia das mulheres. Nem todo mundo sabe que esse é, na verdade, o Dia Internacional de Luta das Mulheres. É um dia em que os movimentos sociais e feministas se reúnem para fazer atividades, debates e, principalmente, manifestações nas ruas de suas cidades ao redor do mundo todo.

É, então, um dia que tem a ver com faixa, cartaz, bandeira, música… tem a ver com se juntar com outras mulheres para romper com o machismo que comanda todos os 365 dias do ano, nos relacionamentos abusivos, nas situações de violência, nas desigualdades que podem ser percebidas na escola, na cultura, dentro de casa, nos espaços públicos, nas redes sociais e nos ambientes de trabalho – não tem nada a ver, então, com aquela coisa toda de publicidade de maquiagem, promoções no shopping, bombom e buquês de flores que são dedicados às mulheres no dia 8 de março.

Acontece que muitas empresas tentam esvaziar o sentido de luta dessa data, e lucrar em cima dela. A grande mídia também não faz questão nenhuma de mostrar como se organizam e o que exigem as mulheres nas manifestações, hoje e ontem.

Hoje, 8 de março de 2017, as mulheres brasileiras se manifestam contra a Reforma da Previdência, que é uma proposta do atual governo (blergh!) de mudar as regras da aposentadoria, dificultando o acesso a ela. Com a reforma, as mulheres, as e os professores, as populações negra, pobre e rural seriam as mais impactadas, e as desigualdades sociais só cresceriam. Pra gente, que é jovem, pensar em aposentadoria parece algo distante, que não importa agora… mas e nossas mães e pais? Além disso, me dá siricutico só de pensar em ter que trabalhar por 49 anos (até depois dos 70!) para ter direito à aposentadoria integral.

Além disso, também são pautas importantes do movimento este ano a luta pelo fim da violência contra as mulheres e a legalização do aborto – porque as vidas, corpos e sexualidades das mulheres precisam finalmente ser baseados na liberdade, e não no controle e na criminalização.

Mas de onde veio essa data? Por que, afinal de contas, o Dia Internacional de Luta das Mulheres é justamente no 8 de março?

Muita gente acha que o 8 de março é uma homenagem ao incêndio de mulheres operárias nos Estados Unidos. De fato aconteceram várias greves de operárias, que devem ser retomadas por nós como parte da história de desigualdade entre homens e mulheres. De fato (e infelizmente), também aconteceu o incêndio de uma fábrica, a Triangle Shirtwaist Company, em Nova York, provavelmente em 1911. Não aconteceu, porém, no dia 8 de março, e não existem registros históricos de qualquer incêndio industrial que tenha acontecido no dia 8 de março nos Estados Unidos.

Existe uma história escondida sobre o 8 de março. Apesar de escondida, é uma história muito importante. Ouso dizer que a ocultaram justamente por ser tão importante! Segundo estudiosas como Ana Isabel Álvarez González, aconteceu assim:

Em 1910, aconteceu em Copenhague a 2ª Conferência Internacional das Mulheres Socialistas. As mulheres estavam inspiradas pelo Woman’s Day (Dia da Mulher) que já era organizado pelas socialistas dos Estados Unidos, sem uma data fixa. Nesta Conferência, elas aprovaram a realização de um Dia Internacional das Mulheres, também sem data fixa, que homenageasse as lutas das mulheres dentro dos partidos de esquerda, dos movimentos sociais e das lutas contra o capitalismo. Entre 1911 e 1920, aconteceram de fato manifestações de mulheres, a partir dessa decisão, em datas diferentes ao redor do mundo.

No meio disso tudo, aconteceu a Revolução Russa, que foi a primeira grande experiência socialista do mundo e que trouxe consigo mudanças significativas rumo à igualdade entre homens e mulheres. Em outubro de 2017, comemoramos 100 anos da Revolução. Mas em março de 2017, comemoramos 100 anos da luta das mulheres, que impulsionou o processo revolucionário e que fixou o dia 8 de março como o Dia Internacional de Luta das Mulheres.

No dia 8 de março de 1917 (23 de fevereiro do antigo calendário russo), as mulheres socialistas, trabalhadoras de fábricas de tecidos, mulheres pobres das filas de alimentos, esposas de soldados, entre outras, organizaram grandes manifestações pela saída da Rússia da I Guerra Mundial, pelo fim da fome e da pobreza. O dia foi decisivo para fortalecer a luta nos meses seguintes, até que culminasse na revolução em outubro, feita pelas mãos de homens e mulheres que lutavam por igualdade e pela construção de uma nova sociedade.

As mulheres participaram e pautaram (não sem muito esforço!) o feminismo na revolução. Em seu início as mulheres passaram a ter acesso à educação, direito ao aborto legal, acesso à creche e coletivização dos trabalhos de cuidados, entre outras alterações que mudaram muito a forma como se organizava a sociedade entre homens e mulheres.

Hoje, 100 anos depois, ainda são muitos os nossos desafios ao redor do mundo, se queremos que o feminismo se espalhe, fortaleça as mulheres… se queremos que as nossas vidas pessoais sejam melhores e mais livres, mas também se queremos que sociedade inteira funcione sem opressões, sem exploração, sem desigualdade e violência. Se olharmos para tudo o que já aconteceu na história do mundo, são inúmeros os exemplos de mulheres que se juntaram, resistiram e fizeram grandes mudanças e revoluções. Que nos sirva de inspiração!

“Nesse momento decisivo, o protesto das mulheres trabalhadoras era tão ameaçador que mesmo as forças de segurança tzaristas não ousaram tomar as medidas usuais contra as rebeldes e observaram atônitas o mar turbulento da ira do povo. O Dia das Mulheres Trabalhadoras de 1917 tornou-se memorável na história. Nesse dia as mulheres russas ergueram a tocha da revolução proletária e incendiaram todo o mundo. A revolução de fevereiro se iniciou a partir desse dia” Alexandra Kollontai

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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