11 de dezembro de 2014 | Edição #9 | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Histórias são relíquias

“relíquia

re.lí.quia
sf (lat reliquia) 1 Corpo ou parte do corpo de algum santo. 2 Objeto que lhe pertenceu ou fez parte do seu suplício. 3 Coisa preciosa, rara ou antiga, a que se dedica grande apreço. 4 Resto, ruína (mais usado no plural). 5 Objeto que constitui recordação ou lembrança.”
(Dicionário Michaelis)

 

A ideia de relíquia vem da religiosidade, como podemos ver pela explicação do dicionário. A princípio, diz respeito portanto àquilo que é venerado. Mas o que já é venerado por todos não nos interessa agora, não é o nosso foco. Na verdade, venerar nunca foi o nosso foco. Gostamos mais de falar em preciosidades, apreço, recordação, lembrança. Gostamos mais de lidar com as coisas do mundo (que vêm das histórias do mundo) a partir das experiências de memória e, claro, dos sentimentos que isso tudo provoca.

Por serem sentimentos sempre verdadeiros e honestos, não tem como negar que preciosidade, apreço, recordação e lembrança geram valores pessoais para nós. Existem coisas que ninguém vai dar valor, mas nós sabemos que vamos, porque faz parte de nossa história, faz parte de um carinho que é construído por nós mesmas junto com as outras pessoas. E por isso, por mais que digam que estas coisas não valem nada, nós sabemos muito bem que elas são importantíssimas.

Assim são as relíquias de família, por exemplo. Não são necessariamente objetos caros, chiques e pomposos. Podem ser a coisa mais simples do mundo. Pode não ser exatamente raro, e ter infinitos outros exemplares espalhados pelo mundo, mas no fundo nós sabemos que são completamente únicos. Relíquias guardam histórias, e não existe história que não mereça ser guardada, valorizada, recordada.

É exatamente por esse motivo que resolvemos contar um pouco quais são as relíquias das nossas famílias. Não queremos que isso se perca. Nós amamos histórias.

 

Luiza Vilela

Sou muito ligada em heranças e relíquias de família, então poderia falar de diversos objetos e tradições que circulam na minha. Poderia falar de uma joia da minha tataravó que me foi roubada meses depois da minha mãe tê-la reformado e me dado de presente. Poderia falar dos nossos inúmeros rituais para as festas de fim de ano, como cantar “Adeus ano velho, feliz ano novo” de mãos dadas em volta da piscina, mas escolhi falar das poltroninhas. São duas pequeninas poltronas sem braço, atualmente pretas, mas que em passados, recentes e distantes, já estiveram forradas das mais variadas cores. São mais velhas que eu, as poltroninhas, e moraram durante anos no apartamento de São Paulo da minha avó materna, que foi quem as adquiriu. Depois foram parar no apartamento de Vitória dessa mesma avó, e finalmente surrupiadas pela minha mãe em meados da década de 90. Serviram como meu cantinho de leitura favorito durante anos (eu sentava em uma e esticava os pés na outra), até que na minha penúltima mudança consegui convencer minha mãe de passá-las pra mim. Sempre que um membro da família descobre que as poltroninhas ainda existem e estão comigo é uma farra. “Meu deus, não acredito que ainda resistem!” Resistem as poltroninhas, mas agora separadas pela primeira vez. Não couberam juntas na minha nova micro sala, e tive que despachar uma delas (temporariamente) para uma tia aqui do Rio. Está em lugar de destaque no quarto da minha outra avó, a paterna. Vejam só que viagem.

 

Amora Kali

Essa máquina de escrever é relíquia porque ela mais de 10 anos mais velha que eu, e também ela guarda a história de uma família que eu só conheço das histórias contadas através de um amigo, membro da minha família afetiva. O Albert! Quando eu completei 16 anos, ele resolveu me passar essa relíquia que tem mais de 30 anos e pertenceu que a sua avó e aonde ele também escrevia seus trabalhos escolares. Acredito que isso é o que torna tão especial pra mim essa relíquia, é um tesouro de uma família que é não é e nem foi minha, e também uma forma de mostrar confiança, que eu sou sim capaz de guardar todas essas histórias que vieram junto com ela. Mas, bem eu não escrevo meus trabalhos da escola nela, dou uma função mais especial… Eu escrevo fanzines, e as vezes coisas iradas que aconteceram no meu dia-a-dia.

 

Isadora Carangi

Minha relíquia de família era um lindo brochezinho de ouro. Tratava-se de 4 patinhos, mamãe pata e seus filhotes. Eu gostava muito dele e usava sempre para ir a escola junto com meu uniforme, ficava uma combinação meio esquisita, mas acho que quando a gente tem nossos  6/7 anos combinação esquisita é bem normal. Eu acabei perdendo aquele broche nem lembro quando nem onde, só lembro que foi um grande trauma para mim, fiquei enrolando para contar para minha mãe, morria de medo da bronca que eu ia levar e fiquei me sentindo mal por muito tempo.  Contei, foi horrível, mas passou e  tenho certeza que ninguém da família lembra tanto desse broche quanto eu.  Um histórico de perdas e destruições de coisas fez com que eu nunca mais ganhasse uma relíquia de família, nem aquelas que estavam destinadas a mim desde o princípio. Como por exemplo um anel de brilhante que eu ganharia aos 15 anos, mas segundo mina avó eu não era responsável o suficiente  então ficou pros 18. Fiz 18 e… ainda não era responsável suficiente. Acho que nao sou responsável suficiente para ter uma relíquia de família até hoje e que importa?

 

Mariana Paraizo

Minha relíquia é um terço branco com detalhes dourados que era da minha bisavó. Apesar disso, sou ateia… quando eu era pequena, tudo relacionado aos meus antepassados me interessava. Fui ate estudar italiano porque meu avô era louco pela Itália, pais de onde os avós dele tinham vindo. Eu queria criar uma tradição, queria ter um rumo a partir do passado, acho. Então eu comecei a pegar coisas. Pedia pra minha avó me dar os leques velhos dela, caixinha, cartinha. Uma vez eu achei esse terço – minha vó tinha muitos- que era da mãe do meu avô. Minha bisa já estava bem velhinha nessa época, nem sabia quem eu era. Pedi pra minha vó, ela me deu. Guardei bem guardado, acho que tão guardado que perdi. Com o tempo, passei a achar essas coisas que eu pedia sem valor. Hoje em dia eu peço coisas ainda, só que muito menos valiosas materialmente.. as vezes uma carta com a letra da minha tia, esse tipo de coisa..

Helena Zelic

Várias coisas podem ser relíquias de família. Porque as coisas guardam memória, e memória, por ser algo muito bonito, acaba dando saudade, mesmo que seja daquilo que a gente nem chegou a conhecer. A prateleira do meu quarto, há mais ou menos dois anos, teve a honra de receber uma relíquia de família importante demais. No final de 2012, minha avó me deu um embrulho em papel pardo. Dentro, estava um caderno muito velho, a capa verde escura meio estragada, a lombada escrito “notas” em letras antigas. Abri. Dentro, havia logo de cara um recorte de jornal datado em 30 de maio de 1920, com o título “A Mentira – Palestra literária por Jonathas Baptista”. Jonathas Baptista era meu bisavô. Eu já sabia que meu avô era escritor, porque minha avó sempre me contava histórias de família. Ela disse até que, lá no Piauí, havia uma biblioteca com o nome dele, mas essa parte eu já duvido um pouco. Apesar de saber dessas histórias todas, nunca tinha lido uma palavra escrita por ele. Embaixo dos recortes de jornal, começava o caderno em si. Poemas e mais poemas em letra minúscula, traço fino, tinta arroxeada. Sonetos, exclamações, reticências, alguns desenhos de folhas e ramos nos cantos, enfeitando. Na última página, mais um recorte de jornal: “O último soneto de Jonathas Baptista”, intitulado “Aos velhos”, de 1935. Sou muito grata a minha avó por ter confiado em mim o suficiente para guardar este pequeno e gasto tesourinho. Logo eu, estudante de Letras, tenho agora em mãos os manuscritos de um autor que eu, curiosamente, conhecia sem conhecer.

Helena Zelic
  • Coordenadora de Literatura
  • Ilustradora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Helena tem 20 anos e mora em São Paulo. É estudante de Letras, comunicadora, ilustradora, escritora e militante feminista. Na Capitolina, coordena a coluna de Literatura. Gosta de ver caixas de fotografias antigas e de fazer bolos de aniversário fora de época. Não gosta de chuva, nem de balada e nem do Michel Temer (ugh).

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