16 de março de 2015 | Ano 1, Edição #12 | Texto: and | Ilustração: Verônica Vilela
Holocausto brasileiro

O que você pensa quando se fala em genocídio? E holocausto? Muitas pessoas tendem a associá-los, por exemplo, aos assassinatos praticados por nazistas contra os judeus, durante a Segunda Guerra Mundial. Mas você conhece o Holocausto brasileiro? Para saber mais sobre ele e entender o início da luta antimanicomial no Brasil, usaremos como base o livro Holocausto brasileiro, de Daniela Arbex.

Em 2013, a jornalista Daniela Arbex lançou o livro-reportagem que reúne, a partir de entrevistas com os sobreviventes, funcionários e população local, a mancha em nossa história que aconteceu sob o aval do Estado, funcionários da saúde e moradores de uma pacata cidade de Minas Gerais, e foi responsável pela morte de cerca de 60 mil pessoas.

Estamos falando do genocídio que ocorreu naquele que era o maior hospício brasileiro, a Colônia, uma instituição fundada em 1903. A desumanidade já era sentida na entrada, os pacientes eram rebatizados e tinham a cabeça raspada. Estima-se que 70% dos que foram internados não possuíam sequer um diagnóstico de transtorno mental. Bastava uma indicação de alguém com poder para que o encarceramento acontecesse. Havia homossexuais, pessoas sem documentos, profissionais do sexo, alcoólatras, epilépticos, mulheres que engravidavam antes do casamento e até pessoas cuja característica predominante era a timidez. Foi o caso de Luiz Pereira de Melo, filho de mãe pobre e sem estudo, que foi tachado como tendo algum problema neurológico aos 16 anos e trancafiado por cinquenta.

As vestimentas eram finos trapos. No frio, como não havia cama para todos, muitos faziam grupos e deitavam sobre os outros, numa desesperada tentativa de se aquecer. Poucos conseguiam sobreviver à madrugada e amanhecer vivos. A alimentação também era desumana. Quando não estavam privados de comida, comiam carnes podres e restos que eram jogados ao chão. Eram também submetidos a constantes torturas, eletrochoques e lobotomias.

Outra importante informação a respeito dessa barbárie diz respeito ao lucrativo comércio de corpos: os cadáveres eram vendidos para faculdades de todo o Brasil. Estima-se que tenham sido 1.900 corpos repassados para dezessete universidades.

Durante a leitura da obra de Daniela, nos deparamos também com imagens reais desse cotidiano. A maior parte delas pertence ao fotógrafo Luiz Alfredo, que as tirou para sua reportagem denúncia, feita em 1961 e intitulada de A Sucursal do Inferno. Nelas são retratadas pessoas bebendo água do esgoto, nuas, cobertas de moscas, desesperadas e desacreditadas.

Essas e outras denúncias, como as do psiquiatra Ronaldo Simões Coelho e do cineasta Helvécio Ratton, foram sendo feitas, mas as ilegalidades cometidas nos muros da Colônia duraram décadas. Ratton, inclusive, foi o responsável pelo documentário Em nome da razão, que você pode ver abaixo.

E foi a partir da mudança na concepção de loucura e da necessidade de humanizar os tratamentos dados a pessoas com distúrbios psicológicos que a Luta Antimanicomial ganhou força. A rotina do Colônia só começou a se transformar mesmo a partir de 1980, com a reforma psiquiátrica. Foi nessa época que trabalhadores da saúde mental uniram-se contra os manicômicos, denunciando abusos e combatendo a política de segregação.

Um dos símbolos da luta antimanicomial foi Austregésilo Carrano Bueno, internado pelo pai aos 17 anos, por fumar maconha. Ele passou três anos migrando de um hospício para outro, foi submetido a diversas torturas e penitências por “mau comportamento”, incluindo isolamento em solitária e 21 sessões de eletrochoques. Austregésilo conta sua história num livro chamado Canto dos malditos, que foi censurado e no qual se baseia o filme Bicho de sete cabeças.

Felizmente, o cenário mudou bastante daquele tempo (que nem faz tanto tempo!) pra cá. É certo que houve alguns avanços, a implantação do CAPs (Centro de Atenção Psicossocial) foi um deles, e culminou numa grande redução de leitos e internações em hospícios. A forma de tratamento também mudou. Hoje preza-se por tratamentos através das artes visuais, da música, da dança, da literatura, preservando a autonomia do indivíduo e o direito de viver em sociedade.

Mas, embora pareçam realidades distantes, as histórias do Hospital Colônia e de Carrano não foram casos isolados. Ainda hoje existem hospitais psiquiátricos que funcionam como depósitos, confinando pessoas arbitrariamente e condenando-as a rotinas degradantes e verdadeiros coquetéis de antidepressivos e sedativos, na tentativa de controlar seus corpos e mentes, lembrando que a maior parte das pessoas que constituem esse espaço ainda são os mesmos do Hospital Colônia: os marginalizados.

E é por isso que a Luta Antimanicomial segue, pela extinção dessas celas de controle social e para combater a discriminação e exclusão daqueles cuja forma de estar no mundo foge dos conceitos impostos de normalidade. Pelo direito de ser e estar!

Jade Cavalhieri
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Boneca trouxa inveterada que perde muito tempo reclamando e clamando direito à preguiça. É escorpiana com ascendente em áries e ama mostarda de uma forma não muito saudável. Se identifica com nuvens cirrocumulos e alguma parte dentro dela ainda quer ser astronauta.

Amanda Lima
  • Colaboradora de Saúde
  • Colaboradora de Educação
  • Colaboradora de Se Liga

Amanda, 22 anos, mas com carinha de 15. Ama o significado de seu nome, mas prefere que a chamem de Nina. Psicóloga e militante feminista, sabe que conhece ainda tão pouco e por isso tem uma sede muito grande em conhecer mais. Mais da vida, mais do mundo, mais de tudo. Nutre um amor incondicional por Beyoncé e, nas horas vagas, sonha em poder mudar o mundo.

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