24 de maio de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: e | Ilustração:
Homossexualidade e Bissexualidade na adolescência
Ilustração por Bia Quadros
Ilustração por Bia Quadros

Ilustração por Bia Quadros

Texto de Laura Pires e Isabela Peccini

Desde crianças, somos influenciadas a seguir quase que um manual de como se viver na nossa sociedade. Regras e mais regras que dizem que devemos seguir para… para que mesmo? Nossa cabeça quase que dá um nó se pensarmos em tudo ao mesmo tempo:

“Se você é menina, goste de rosa, bonecas e sinta atração por meninos.”
“Se você é menino, goste de azul, carrinhos e sinta atração por meninas.”

Quando olhamos ao redor, parece que existem rótulos a serem seguidos: corpos, jeitos, roupas, pares e pensamentos perfeitos. É o que nos dizem muitas novelas, séries de TV, filmes, desenhos e propagandas. Mas por que não questionar todos esses modelos? Já falamos aqui na Capitolina sobre como a nossa identidade de gênero independe do nosso corpo ou da nossa sexualidade , mas diz respeito simplesmente a como nos vemos, nos reconhecemos e nos sentimos bem, ou seja, a nossa relação com a gente mesma. Mas e quando falamos das nossas relações com outras pessoas? O que nos diz por quem devemos ou não nos atrair ou apaixonar?

A sociedade muitas vezes nos impõe como a sexualidade “normal” a heterossexualidade, ou seja, meninas gostarem de meninos e meninos de meninas e ponto final. Isso pode ser observado de diversas maneiras. Pense nas novelas, filmes e séries às quais assistimos. A maioria dos pares afetivos é formada por um homem e uma mulher, certo? E, quando há um casal formado por duas mulheres ou por dois homens, costuma ser algo meio caricato, às vezes compondo até uma cota cômica no programa. É muito raro vermos a homoafetividade ser tratada de maneira completamente natural, como vemos na série Grey’s Anatomy, onde esse tipo de relação é tão normal, que nem é mostrada como a característica mais relevante das personagens.

Essa maneira reduzida de se mostrar a homoafetividade acaba nos reforçando a impressão de que ela é diferente do padrão e que ser diferente de um padrão é ser errado. Mas será que existe mesmo um padrão a ser seguido e respeitado? Quem é que cria esse padrão? Para que serve um padrão desses além de excluir indivíduos que não se encaixam nele? E por que os nossos sentimentos deveriam estar tão presos a essas definições? Nós acreditamos que não existe essa de ser “normal” ou ser “diferente”. A sexualidade é tão livre que não cabe em caixinhas como essas. A necessidade de encaixar algo tão abstrato em conceitos tão concretos é que nos parece estranha, afinal, existe fórmula pra sentimento? Os nossos sentimentos e desejos vão muito além disso. O nosso gênero e a nossa sexualidade dizem respeito somente a como nos sentimos em relação a nós mesmas e às outras pessoas, e pode ir muito além das pré-definições dadas pela nossa sociedade.

A adolescência é um momento único, é uma fase de tantas descobertas! E, com certeza, a sexualidade é uma delas. É, geralmente, o momento em que começamos a sentir vontade de ter relações mais profundas com pessoas que nos atraem. Esse momento pode ser muito diferente para cada uma de nós e essas definições do que é ou não “normal”, impostas pela nossa sociedade, podem dificultar muito as coisas. E se pela primeira vez você se apaixonar por outra menina? Sentir aquela vontade de ficar perto, trocar confidências, conhecer melhor, beijar, tocar? E se você contar isso pra alguém e te perguntarem: “Quem é ele?!” E você só quiser responder: “Ela é incrível!” Esse pequeno diálogo pode dar aquele frio na barriga, aquela sensação de que você é diferente. O que dizer? E agora?

Conversamos com algumas meninas que passaram por isso na adolescência, incluindo uma que ainda está passando por isso. Beatriz, 20 anos, não sabe bem como seu interesse por meninas começou. Para ela, sempre foi assim. Já Gabriela, 23 anos, diz que admitiu para si mesma lá pela 7ª série (8º ano), mas só foi confrontar isso bem mais tarde, quando já estava no 3º ano. A experiência de Laura, 17 anos, foi um pouco diferente. Ela nos contou que nunca sentiu muito interesse pelos meninos: “até fiquei com alguns e me apaixonei também, mas não tinha, sei lá, tesão, atração mesmo. Eu só fui notar isso com uns 13 anos.” A sexualidade de Laura só ficou mais clara para ela mesma quando uma menina mais velha se mostrou interessada e ela resolveu tentar: acabaram namorando por três anos.

Perceber-se “diferente” desse padrão que a sociedade tenta nos impor pode ser doloroso durante a adolescência, por causa da possível dificuldade de aceitação por parte de amigas, amigos e família. Gabriela nunca se abriu para a família, só para amigos e amigas mais próximos, bem mais velha. Beatriz teve uma ótima recepção entre as amizades, especialmente porque sua prima e melhor amiga se identifica como gay também. Com o restante da família foi um pouco mais complicado. Enquanto seu pai a aceitou e a apoiou, sua mãe, muito religiosa, não soube lidar muito bem: “ela só chorou por meses, contou pra família”. Para Laura, foi fácil conversar abertamente com amigos: Nenhum amigo meu tem algum problema com isso, ainda bem! Foi mais difícil assumir pra mim mesma do que pra eles, na verdade.” E, com a família, Laura assumiu sua ex-namorada logo nos primeiros meses da relação. De início, seus pais estranharam, mas foram se acostumando com o tempo e ficou tudo bem.

Para as meninas com quem conversamos, foi ou ainda é muito difícil se colocar para seus amigos ou família como homo ou bissexual. Muitas vezes, naturalizamos tanto o que nos é dito a vida toda que fica difícil até assumir para nós mesmas. Contar com amigos ou familiares que te apoiam é sempre de grande ajuda e dá coragem pra enfrentar as inseguranças. Saber que pessoas perto de você te entendem como você é, sem levar em conta o que se diz ser “normal” ou “diferente”.

No fim das contas, todas nós podemos dizer: o que importa é você se sentir bem. Se conhecer, saber que não importa o que os outros colocam como certo ou errado pra você, o seu sentimento é o que vale. E conhecer, reconhecer, se relacionar, se apaixonar é algo que nos faz viver tantas experiências, não importa por quem ou quando. Infelizmente, vivemos em uma sociedade que pode muitas vezes ser cruel. Algumas pessoas irão te olhar torto, mas, que fique claro: erradas estão elas. Você não precisa de gente te julgando e discriminando simplesmente porque você gosta diferente delas. O importante é se aceitar e se rodear de pessoas que gostam de você pelo que você é. Aquelas que preferem te julgar não merecem sua atenção e, veja bem, você vive muito melhor sem elas.

Para finalizar, as meninas que entrevistamos para esse matéria deixaram um recado pra você que talvez esteja passando por isso!

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Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

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  • Ka

    Desde pequena eu sempre gostei de garotas, sempre fui um pouco ”diferente” das outras garotas, mas só me assumi mesmo no final do ano passado, aos 1.6 de idade.Claro, porque minha mãe desconfiou e eu acabei contando, achei que seria melhor ela descobrir de mim ao invés através de terceiros. E agora eu passo por problemas de aceitação em relação a minha família. Sei que deve ser difícil para eles, mas eu gostaria de receber ao menos respeito, eu também não sou muito fã minha mas fui obrigada a me aceitar. Em relação aos amigos já foi mais fácil até, e sinceramente, é uma sensação tão maravilhosa e libertadora poder ser o que você realmente é, sem ter que esconder por receio do que vão pensar. Em casa eles fingem aceitar mas não perdem uma oportunidade de me ofender, já chegou ao ponto de me expulsarem de casa, por palavras não atos, mas palavras as vezes machucam bem mais que as ações e por conta do que ouço minha auto-estima é 0. Não me sinto bem com minha aparência, tenho uma certa dificuldade em me envolver com as pessoas… Mas eu não vou mudar minha sexualidade por isso, não foi uma coisa que eu escolhi, mas se eu pudesse, teria escolhido ser homossexual/Les da mesma forma. Não tem nada de errado em amar, e eu estou bem com isso, não vou desistir de ser feliz.

    • Laura Miranda

      you go, girl <3

    • Amanda

      Passei e passo por uma situacao similar, me encontrei como bi aos 15 por me apaixonar por uma melhor amiga, me assumi pra minha mae aos 18 mas voltei atras e isso nao ajudou em nda, me sentia culpada e com pouca auto estima e nao me relacionei durante anos com ninguem e fui infeliz por isso finalmente esse ano aos 26 tal como eu sou falei com minha mae embora ela nao tenha nem respondido e tbm nao toque no assunto, mas vou seguir firme pois me sinto bem e viva pela primeira vez em anos.
      Me ofende q nao possa ainda abrir pra familia toda pois sao todos extremamente religiosos inclusive eu era, mas tomarei um passo d cda vez em direcao a minha libertação dessa opressao d como os outros pensam q eu deveria viver minha vida.
      Siga em frente vc tbm estude, seja independe, e firme, nao volte atras como eu fiz, nao abra mao de quem vc é em detrimento dos outros, com o tempo a felicidade e auto estima virá, consequência da sua independência e amadurecimento e se sua familia t ama e aceitarão no futuro.
      Bjs

    • Luciana

      Meu filho assumiu sua identidade aos 14 anos. Meu filho é lindo, sempre admirei ele demais, fiquei muito chocada no inicio só que fui pedindo a Deus conforto em meus coração. Chegou um tempo que achei que ele ira ter novas escolhas, mas hoje sou feliz com que ele é, o ser humano que é e meu amor por ele jamais vai mudar. Nunca tratei ele diferente por conta disso. Prefiro ter ele perto de mim do que ver ele distante. Amo tanto ele que isso é insignificante hoje pra mim.

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  • Alice

    Ha Laura amei seu texto cheguei a me emocionar, é muito triste ver pessoas infligindo tanto sofrimento a outras por nada, e triste de ver toda essa desinformação e preconceito se fundirem e se transformarem num ódio irracional que faz com que mães e pais se voltem contra seus próprios filhos, poderíamos ser melhores que isso, somos melhores que isso, só que muita gente por aí ainda não sabe :(

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  • Yasmin

    Meus pais são tao loucos com isso que me trouxeram pra África, como se adiantasse alguma coisa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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